Simpatia pelo ódio: eleitores de Trump foram convencidos de que recobrar potência é esmagar minorias

Figuras como Trump exploram o ressentimento dos eleitores e osconvencem de que recobrar a potência é esmagar minorias, diz historiador

Gabriel Zacarias, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2016 | 17h00

Durante a campanha presidencial norte-americana, um programa humorístico de televisão foi a um comício de Donald Trump entrevistar seus apoiadores, produzindo um vídeo que teve ampla circulação nas redes sociais. Via-se uma série de declarações embaraçosas, não raro de racismo, machismo e homofobia explícitos, que eram confrontadas pela atitude irônica do entrevistador. Este buscava explicitar as contradições lógicas presentes nessas falas disparatadas, como se pudesse assim capturar seus entrevistados em uma armadilha. Por mais risíveis que possam parecer essas entrevistas, fica patente a incapacidade do humorista de produzir qualquer efeito de estranhamento nos entrevistados, que permanecem insensíveis às contradições de suas falas e, logo, igualmente convictos de suas escolhas. O humor aparece, então, como um recurso bastante limitado diante de um voto que não parece ser mais pautado por escolhas lógicas, referentes a propostas políticas ou programas de governo. Ao contrário, a escalada do novo conservadorismo que dá as caras no cenário político mundial de forma cada vez mais extremada está mais relacionada com a capacidade – e a falta de pudores – que certas figuras têm demonstrado em mobilizar o ressentimento de diferentes camadas da sociedade. E, como tentarei demonstrar, esse ressentimento pode ser uma consequência inerente aos próprios mecanismos de representação operantes na sociedade atual.

A sociedade do capitalismo tardio foi batizada pelo teórico francês Guy Debord de “sociedade do espetáculo”, e não apenas por conta da importância predominante dos meios de comunicação de massa. A sociedade do espetáculo deve ser entendida como uma sociedade estruturada pelo paradigma da representação em suas mais variadas esferas, dentre elas a esfera política. Na base disso, estaria uma contradição fundamental da modernização capitalista. Enquanto as sociedades modernizadas se tornam cada vez mais complexas, as experiências individuais se tornam cada vez mais reduzidas. No capitalismo, a maior parte do tempo de nossas vidas é dedicada a tarefas produtivas hiper-especializadas. Esse empobrecimento da experiência diretamente vivida encontra sua compensação no consumo de imagens. Temos a sensação de alargar nosso campo de experiência pela identificação imaginária no âmbito da representação. Daí o papel fundamental das vedetes que nos oferecem como produto um “vivido aparente”, declinado em diferentes estilos de vida. Se compreendermos isso, deixaremos de nos espantar com as constantes confusões entre os âmbitos da representação midiática e da representação política. Políticos também são obrigados a constituir um vivido aparente, enquanto há cada vez mais vedetes que conseguem converter sua exposição midiática em capital político. Caso, precisamente, de Donald Trump.

Foi por isso que Debord escolheu o termo de “sociedade do espetáculo”, pois somos reduzidos ao papel de espectadores na maior parte de nosso tempo. Um dos reversos mais perigosos desse estado de coisas é que a posição de espectador pode se tornar, frequentemente, fonte de ressentimento, sobretudo quando achamos que os atores não agem como gostaríamos. Isso é particularmente exemplar no âmbito da representação política. A política representativa tem como pressuposto que deleguemos nossa ação a outrem – pacto que, na democracia, é estabelecido pelo intermédio do voto. Mas, passado o momento do sufrágio, voltamos à situação de espectadores da vida política. Isso significa que, delegada nossa ação política, somos reduzidos a um estado de impotência, pois não podemos interferir diretamente sobre as escolhas que organizam a vida coletiva. A perda de potência é justamente a fonte do homem ressentido, do qual nos fala Nietzsche. Sua incapacidade de compreender a origem dessa perda se desdobra em sua incapacidade de recobrar sua potência. O que faz com que se volte contra alvos expiatórios. No caso específico da política, isso pode se manifestar, sobretudo, de duas formas distintas. Por um lado, há o ressentimento da população – os espectadores – contra os políticos – os atores a quem delegamos nossa potência – manifestando uma ruptura na relação de identificação. Por outro lado, pode haver identificação com uma figura política que represente o ressentimento, isto é, que fortaleça o sentimento negativo e a culpabilização de alvos expiatórios. Figuras assim trazem a promessa de aliviar o amargor da impotência, não pela restituição de potência, mas por uma redução ainda maior da potência do Outro. A restrição da liberdade de minorias e grupos específicos dá assim uma sensação acalentadora a grupos majoritários da população.

Figuras como Donald Trump – e, antes dele, os Le Pen, na França, Berlusconi, na Itália, e tantos outros, numa genealogia que remonta, sem dúvida, ao fascismo – exploram esse ressentimento em seu duplo aspecto. Por um lado, recrudescendo discursos de ódio, plenos de racismo, misoginia e homofobia – há exemplos abundantes na campanha de Trump, já amplamente comentados – essas figuras aparecem como uma promessa ameaçadora de expiar a impotência do homem ressentido, vingando-se sobre minorias. Ao mesmo tempo, apresentam-se como figuras externas à política, explorando o ressentimento dos representados contra seus representantes atuais. Menos comentado do que as declarações polêmicas de Trump, esse ataque genérico e cínico à política vigente é um fenômeno de primeira ordem. Deparamo-nos aqui com uma contradição estrutural do paradigma representativo, que nos ajuda a entender com menos espanto a oscilação pendular da democracia – que pode passar subitamente de um alargamento do campo da representação, com a eleição de um presidente negro, para uma reação restritiva, com a sucessiva eleição de um presidente branco de declarações racistas. Vista sob esse prisma, o resultado das eleições norte-americanas talvez seja menos surpreendente do que parece à primeira vista. Não se torna, porém, menos preocupante.

GABRIEL ZACARIAS, HISTORIADOR, PÓS-DOUTOR PELA ÉCOLE DES HAUTES ÉTUDES EN SCIENCES SOCIALES, É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA UNICAMP

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