London Sinfonietta
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Sinfonietta de Londres completa 50 anos como vetor da música contemporânea

Orquestra fundada em 1968 prioriza os erudito sem se prender ao passado

Michael White, The New York Times

03 Fevereiro 2018 | 16h00

A Sinfonietta de Londres não sofre de nostalgia. Ela cultua tanto a música nova que as partituras chegam aos músicos com a tinta ainda fresca. O negócio dessa sinfonietta (orquestra maior que a de câmara e menor que a sinfônica) é o presente, não o passado. Isso pode ser um problema na hora de comemorar meio século de estrada. Comemora-se opassado ou o futuro?

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Com sua temporada especial de 50º aniversário, transcorrido neste ano, a Sinfonietta de Londres faz as duas coisas. O programa comemorativo priveligia músicas hoje consideradas “clássicas”, de compositores que o grupo abraçou através das décadas: Berio, Henze, Ligetti, Stockhausen. Mas entram também figuras de nosso tempo: Hans Abrahamsen, Tansy Davies, Philip Venables. E ponto alto da temporada foi o concerto de 24 de janeiro, data em que a Sinfonietta comemorou os 50 anos de sua primeira apresentação. 

Segundo Nicholas Snowman, um dos cofundadores da orquestra, o concerto atraiu tanto interesse “porque o que proporcionamos é único”. 

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“Hoje, quase todo mundo toca algum tipo de música contemporânea”, disse Snowman. “Mas o mundo de 1968 era diferente e nele obras inovadoras frequentemente eram jogadas para escanteio.” Além disso, “as peças costumavam ser mal executadas, sem muita preparação”, disse ele. “Éramos arrogantes o bastante para acreditar que conseguiríamos fazer”, prosseguiu, aludindo a outro fundador da orquestra, o maestro David Atherton. 

Na época, ambos estavam na faixa dos 20 anos e tinham acabado de se formar na Universidade Cambrige, onde chamaram a atenção como empreendedores musicais. Procurando então um projeto, decidiram montar uma orquestra que fizesse justiça à música contemporânea. 

O primeiro concerto, em 1968, deu poucos indícios do rumo que a Sinfonietta eventualmente tomaria, mas causou impacto. O número principal foi a auspiciosa apresentação de um ruidoso e e anárquico oratorio de John Tavener chamado The Whale.

“Fui colega de escola de Taverner e sabia que essa peça havia sido escrita para o Bach Coir – que não a quis, talvez por motivos óbvios” recordou Snowman. “Então eu a sugeri para Atherton, que disse: ‘Por que não?’’”

“Era assim que fazíamos na época. Não havia planejamento, projeto de negócios; se achávamos interessante, apresentávamos”, resumiu Snowman.

O sucesso imediato de The Whale alavancou com um só golpe o nome de Taverner e da Sinfonietta. William Glock, o poderoso diretor musical da BBC, acreditava que era preciso dar aos ouvintes não aquilo de que eles já gostavam, mas (insistia) “aquilo de que viriam a gostar”. Ofereceu Imediatamente espaço para uma segunda performance no Royal Albert Hall durante o Proms, um dos maiores festivais de música clássica do mundo, da BBC. Beatles também se interessaram: queriam a gravação para seu selo, Apple, totalmente voltado para música pop. 

Smowman teve papel ativo na gravação. “Entre a parafernália que a peça exigia, como metrônomos amplificados e reco-recos de torcida de futebol, havia uma bateria de megafones”, disse ele. “Eu levava um, meu pai outro e Ringo Starr um terceiro.” 

Após esse ousado começo, a Sinfonietta encontrou sua verdadeira vocação com a chegada de Pierre Boulez. Boulez estava em conflito com o Ministério da Cultura da França e se recusava a reger qualquer orquesta em seu país. Começou a trabalhar com a Sinfonietta, organizando grandes tours europeus a partir de 1971 que atraíram outros astros da música contemporânea, entre eles o compositor italiano Luciano Berio. 

“Quando caiu a ficha”, disse Snowman, “compreendi que com grandes nomes como esses conseguiríamos contratos em qualquer parte. E, com o dinheiro que ganhamos no exterior – nessa época, parecia dar em árvore –, podíamos financiar na Grã-Bretanha projetos que de outro modo seriam inviáveis.”

Andrew Burke, executivo, vê os 50 anos da orquestra como uma busca constante de padrões de performance cada vez mais altos. “Desde o começo”, disse ele, “éramos um pool de virtuoses: um núcleo de 16 músicos que eram os melhores não apenas em música contemporânea, mas em todos os gêneros.”

“A Sinfonietta”, acrescentou, “cruzou os limites do que se poderia esperar em termos de desempenho técnico – e seguiu avançando.”

Isso contininua sendo verdade, embora meio século depois novas orquestras de elite tenham cruzado esses limites antes tidos como quase intransponíveis. No entanto, a maioria delas, como Ensemble Intercomporain, Ensamble Modern ou Klangforum Wien, foi criada à imagem da Sinfonietta. 

“Não somos mais os únicos”, disse Burke. “Temos competidores, e isso é para ser comemorado. As outras bandas são parte de nosso legado. Se não existissem, poderiam surgir dúvidas sobre nossa relevância.”

A Sinfonietta persuadiu plateias a gostar de alguns dos mais pesados sons que fez no passado. Mas sua escolha de repertório nunca se prendeu à linha dura. Os Boulez e Xenakis foram sempre amenizados com obras mais suaves de John Adams ou Steve Reich. A Sinfonia Nº 3 de Henrik Gorecki tornou-se uma obra fácil de ouvir quando a Sifonietta a gravou, em 1991. 

O repertório da Sinfonietta hoje reflete um pluralismo musical vale-tudo que passa dos anfiteatros para clubes nos quais o rock, o pop e a música experimental coexistem livremente. A atual temporada abriga workshops, uma colaboração com o fotógrafo Andreas Gursky e uma peça descrita como “game show multimídia com carga política”, na qual o compositor Philip Venables convida a plateia a questionar conceitos de gênero 

Mais convencional, embora ocorra numa gráfica desativada não em um teatro, é a apresentação de The Cave, ópera da compositora britânica Tansy Davies. Ela disse numa entrevista que adorou na Sinfonietta por “seu destemor e sua pronta disposição em fragmentar uma peça, se esta exigir, com a energia do heavy-metal”.

Há ainda o foco no trabalho de mulheres, com apesentações de Charlotte Bray, Unsuk Chin e Rebecca Saunders, três diferentes vozes que vão do melodioso ao rude. 

“Nosso único critério na programação é acreditarmos que a obra é boa”, disse Burke. 

Não é à toa que a temporada de aniversário da Sinfonietta leve o tag de “Negócios inconclusos”. Tradução de Roberto Muniz 

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