Só um garotinho nervoso: o encolhimento de Trump e três cenários duros (para ele) no novo governo

A eleição de Donald J. Trump não será o apocalipse que muitos acreditam iminente, mas sim o estopim de sua autodestruição, afirma escritor

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2016 | 17h00

Como metade dos Estados Unidos, fiz sérios planos na cabeça para me mudar a outro país após a eleição surreal de Donald J. Trump para a presidência. Animais começando a falar de repente pareceriam algo mais provável. Assim, ao mesmo tempo em que imaginava os EUA entrando numa fase terminal, eu tinha visões extremamente desagradáveis de estar sendo preso no meio da noite.

Encontrava-me nesse estado de ansiedade e perturbação até ver Trump sentado ao lado de Obama numa entrevista coletiva, após se reunirem na Casa Branca, quinta-feira. Dei um grande suspiro de alívio. Trump, o fanfarrão, o quixotesco tribuno do povo, de repente parecia um garotinho nervoso. Obama estava relaxado e eloquente, enquanto Trump permanecia inarticulado e quase incoerente.

O encolhimento de Trump pareceu apenas se intensificar quando ele foi fotografado caminhando com Paul Ryan e Mitch McConnell, os dois mais poderosos republicanos da Câmara e do Senado. Ficava claro que o verborrágico empresário não era páreo para essas tarimbadas criaturas maquiavélicas de Washington. A impressão que se tinha era de um lobo sendo levado para o matadouro. Ficou evidente que, embora Trump planejasse pernoitar em Washington, em vez disso voltou para passar a noite em sua cobertura no alto da Trump Tower, em Manhattan.

Os Estados Unidos, e talvez o mundo, vão passar alguns duros momentos durante a presidência de Trump, quanto a isso não há dúvida. Mas seu reinado não será nada próximo do apocalipse que muitos agora acreditam iminente. A eleição de Donald J. Trump não foi a faísca de uma conflagração geral. Foi o estopim de sua iminente autodestruição.

Trump é um empresário do ramo imobiliário, uma estrela de reality show de TV e um bem-sucedido candidato, mas nunca foi um político. Em todas as situações, sempre esteve no controle. Como âncora do próprio reality show, era dono do espetáculo. E, como candidato político, não tinha de negociar nem assumir compromissos com ninguém. Podia tentar se impor ao mundo sem se importar com o que o mundo achasse dele.

A política, é claro, é outra história. Ser presidente exige a teoria de Tolstoi em Guerra e Paz. Quanto mais alta sua posição nos assuntos mundiais, quanto mais poder tiver, mais as forças históricas farão de você um brinquedo.

De chefe do próprio império, Trump agora terá de negociar com uma infinidade de principados em um reino alienígena. Em quem poderá ele acreditar? Em quem confiar? Quem são seus verdadeiros aliados? Quem são os verdadeiros inimigos? Como empresário, Trump podia mentir para colaboradores e seguir em frente. Podia mentir para funcionários do zoneamento urbano e continuar a vida. Em Washington, depois de começar a mentir sem parar, não haverá lugar para onde ir. Terá que permanecer lá, enfrentando as consequências de suas mentiras.

Para cumprir as promessas feitas, ele agora depende dos líderes republicanos que insultou de modo a convencer seus eleitores de sua independência. E esses líderes serão implacáveis quando aplicarem a regra do toma lá, dá cá. Sabem que Trump terá de cumprir pelo menos algumas das promessas feitas. E sabem também que, sem eles, não conseguirá. E, para permitir que ele exiba pelo menos a aparência de iconoclasta, farão com que cumpra cada uma das suas exigências.

No caso de Trump, as aparências são tudo. Suas promessas mais espetaculares são impossíveis de cumprir. O grande e belo muro que prometeu construir na fronteira com o México custaria US$ 25 bilhões. Grande parte do Obamacare já está consagrada em lei e sua revogação exige uma supermaioria de 60 votos no Senado, que os republicanos não têm.

Do mesmo modo, a promessa de reduzir a taxa marginal de juros para 15% extrapola até o que os republicanos da direita mais radical desejam. Isso levaria o governo à bancarrota, e é por essa razão que o próprio Reagan, o dirigente que mais cortou impostos na história presidencial americana, só conseguiu reduzir os juros para 28%.

Quanto ao compromisso assumido por Trump de rasgar todos os acordos de comércio existentes, a medida exigirá uma legislação tão complexa que ele não conseguirá implementar em quatro anos. Mesmo se conseguisse aprovar parte dela, a retaliação de países como a China seria tão rápida e brutal que os eleitores de Trump imediatamente sentiriam o impacto econômico.

Agora, Trump voltou a se referir no Twitter a uma proibição da imigração muçulmana para os Estados Unidos. Claramente está percebendo o que tem pela frente e recorre ao principal slogan de sua campanha. Mas, de novo, mesmo os republicanos mais radicais não apoiarão essa violação de princípios democráticos fundamentais. A medida provocaria uma crise constitucional. E significaria a ruína de Trump.

E quanto à promessa de começar a usar fundos na reconstrução da infraestrutura do país, criando assim milhões de empregos? Os republicanos, avessos a gastos em qualquer projeto público, lutarão com unhas e dentes contra a ideia. A ironia nesse caso é que, para liberar recursos para a infraestrutura e empregos, Trump terá de recorrer aos democratas. E esses, por mais que desejem a mesma coisa, não estão dispostos a dar a ele qualquer coisa que acalme seus voláteis partidários.

Não é surpresa que Trump tenha fugido para sua torre, onde pode governar o próprio império – tanto o real como o imaginário.

Essa cobertura em Nova York é onde ele passará a maior parte do tempo como presidente. Do mesmo modo que administra seus negócios, Trump servirá o país como um chefe nominal, delegando suas obrigações e responsabilidades para outras pessoas. E essas pessoas – Sarah Palin, Newt Gingrich, Rudy Giuliani – podem trazer à lembrança a definição de Marx de lumpemproletariat: “A massa asquerosa descartada até pelas camadas mais baixas da velha sociedade”. Mas elas não são, como Trump, loucos psicóticos.

Meu prognóstico é que Trump usará seu mandato presidencial para conseguir novas oportunidades para suas empresas. Quando não estiver usando o poder americano para comprar belas propriedade para ele próprio, na França e na Alemanha, estará em sua casa assistindo à CNN. Então, ou a pressão do cargo o levará a renunciar ou as obscenidades que leva consigo para a Casa Branca o colocarão em dificuldades de ordem legal. O que era apenas escandaloso na campanha, na função que passará a ocupar será passível de condenação.

E, se essas duas possibilidades não ocorrerem, há um terceiro cenário tenebroso para o presidente Donald Trump. Alguns de seus seguidores já provaram que estão desesperados e são violentos. Recorreram ao ato extremo de votar nessa monstruosidade porque se consideram traídos por todos os políticos de Washington. Quando virem o próprio Trump os traindo, não hesitarão em recorrer a atos extremistas. Dessa vez, não será com o voto, e eles serão implacáveis.

LEE SIEGEL, ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL, ESCREVE PARA THE NEW YORK TIMESTHE NEW YORKER THE NATION

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