Gene Schiavone
Gene Schiavone

Sobre as frivolidades do balé, a arte contraditória

O balé é uma arte séria ou frívola? Muitas vezes, é as duas coisas ao mesmo tempo

Alastair Macaulay, The New York Times

27 Maio 2017 | 16h00

O balé é uma arte séria ou frívola? Muitas vezes, é as duas coisas ao mesmo tempo. Mas, se frívolo quer dizer “falta de seriedade” — e também leveza, superficialidade, pouco peso ou importância — isso parece uma contradição em termos.

No entanto, o balé está repleto de autocontradições. Ele não para de nos apresentar meros mortais que se tornam obras de uma geometria ideal e também nos ajuda a ver a música como um espaço tridimensional. Ele consegue transformar a bobagem em encantamento, trazer o mito para a realidade e nos fazer sentir que o sublime e o cômico coexistem. Com a mesma facilidade, infelizmente, o balé pode transformar obras-primas musicais em clichês de dança, ou clássicos literários em divertimento estúpido.

A temporada de primavera do American Ballet Theatre na Metropolitan Opera House (até o dia 8 de julho) traz exemplos de tudo isso — especialmente no clássico Giselle (de 25 a 31 de maio), em que um enredo com todos os elementos de uma farsa francesa vira um espetáculo de traição, loucura, morte e transcendência do amor. O Lago dos Cisnes (de 12 a 17 de junho) sempre teve seus elementos de disparate nobiliárquico, para não falar das ambiguidades centrais sobre as criaturas brancas do lago serem cisnes ou mulheres, felizes ou infelizes. No entanto, simboliza a essência romântica-clássica da poética do balé.

E o que de dizer de Whipped Cream (Creme de chantili), a nova coreografia em dois atos de Alexei Ratmansky, primeira e maior novidade da temporada? Quando eu lhe disser que seus personagens incluem a princesa Pralina, a princesa Chá, o príncipe Café, e por aí vai — o corpo de baile feminino é chantili, claro — você vai poder se perguntar: “Quem precisa de uma imitação do ‘Quebra-Nozes’?”.

Ainda assim, Whipped Cream traz uma trilha sonora mais ou menos desconhecida de Richard Strauss, compositor de tantos temas sérios: isso não seria, por si só, uma atração? A sofisticação que os vienenses há muito tempo dedicam aos doces também é (Strauss concebeu o balé para e sobre Viena). A produção de arte dessa montagem, de Mark Ryden, é brilhante e colorida, escancarando como o kitsch pode virar arte. Desde as duas primeiras apresentações do balé, ainda em março, em Costa Mesa, Califórnia, os cenários e figurinos continuam arrancando suspiros e aplausos.

Para mim, essa criação de Ratmansky mostra que o balé pode muito bem levar a sério um tema frívolo. Chega a ser surreal: os personagens-doces provam ser mais substanciais do que os adultos do mundo real. Aos poucos, a coreografia revela — e celebra — os refinamentos mais requintados do estilo. E aqui está a arte que transforma confeitaria tanto em excelência quanto em extravagância.

Ah, se o balé sempre espalhasse essa magia transformadora em tudo o que toca! Mas, hoje em dia, o balé consegue perturbar o imperturbável. Bailarinos brancos fazendo papel de personagens africanos e asiáticos, com maquiagem corporal e o rosto pintado de preto, chamaram muita atenção em performances de companhias francesas e russas do século 21. A intenção não era ofender, mas esses grupos parecem não compreender que, hoje, ofende. Também nos Estados Unidos algumas produções tocaram em temas potencialmente explosivos — raça, religião, gênero e sexo — como se fossem coisas imateriais.

Vejamos, por exemplo, Le Corsaire, que retorna ao repertório do Ballet Theatre nesta primavera (de 5 a 10 junho). A história vem de um trágico poema de aventura de Lorde Byron. Conrad, o herói, é tido como o mais byroniano dos personagens de Byron — viaja pelo Mediterrâneo alheio ao mundo, “raramente sorri e pouco suspira”.

No entanto, o balé Corsaire foi ficando kitsch com o passar das décadas. (A música é uma coletânea, algumas produções contam com até onze compositores.) Na melhor das hipóteses, uma diversão meio Piratas do Caribe, coisa de que nunca gostei.

Sua insensibilidade às questões étnicas e religiosas (algumas produções trazem paródias do culto muçulmano) e sua representação das mulheres são alarmantes. Fora seu famoso pas de deux, o balé era um ilustre desconhecido no Ocidente. Mas as produções vêm se proliferando nas últimas décadas, uma tendência que me parece bizarra e deprimente.

O problema central de Le Corsaire é como a coreografia interrompe o enredo para nos apresentar um harém espetacular — e feliz. O século 18 produziu vários dramas de harém (a ópera de Mozart O Rapto do Serralho talvez seja o mais famoso). Ali, a questão principal era a liberdade: as mulheres ocidentais se libertaram do confinamento, ao passo que as personagens islâmicas apresentavam diferentes graus de clemência e crueldade. Foi o século 19 que transformou os haréns em fantasias idílicas. Com inúmeras mulheres nuas, o quadro “O banho turco”, do pintor francês Jean-Auguste-Dominique Ingres, é um clássico do gênero. A imagem transforma a todos nós em voyeurs, maravilhados com uma fonte tão densa de beleza feminina.

A cena do harém do balé Corsaire, no entanto, é uma futilidade ostentosa. No lugar da nudez de Ingres, mulheres de biquínis-tutus (para mim, o figurino mais idiota da coreografia): barrigas nuas e saiotes esvoaçando na horizontal. Medora e Gulnare, as heroínas, são cativas. Mas você mal pode esperar pela cena mais absurdamente grandiosa do balé: o Jardin Animé. As mulheres do harém se transformam em um vasto e intrincado pavilhão de dança, com flores, guirlandas, buquês e, em algumas produções, até mesmo topiaria.

Existem contextos em que a ideia de mulher como horticultura pode até ser encantadora, mas, aqui, a noção nos convida a esquecer que essas mulheres são concubinas e, portanto, escravas sexuais. A música dessa cena, de Léo Delibes, é a mais adorável de todo Corsaire. Uma produção mais inteligente poderia nos ajudar a sentir tanto a beleza da cena quanto a situação moral das mulheres? A última produção que eu vi (English National Ballet) pelo menos apresentou todo o Jardin Animé como um inofensivo sonho de ópio do velho Paxá, embora a bobagem essencial tenha permanecido.

O balé revira nossos valores ainda mais do que as outras artes. O Dom Quixote de Cervantes e o Eugene Onegin de Pushkin são obras-primas literárias.  Mas o balé Dom Quixote (de 15 a 20 de maio) é só uma brincadeira, e o balé Onegin (de 19 a 24 de junho) reduz a história a um dramalhão lacrimoso. Assim como Corsaire, ambos ajudam o balé a parecer a mais frívola das artes. E são suas cenas de dança que os deixam assim tão banais.

Apesar de tudo isso, Mozartiana de Balanchine (de 3 a 8 de julho) vai da oração silenciosa à mais arrepiante perspicácia usando nada além de dança e música. Hoje, porém, Le Corsaire, Don Quixote e Onegin têm muito mais apresentações mundo afora do que em qualquer outra época. Que ninguém se apresse a chamar o balé de arte elevada antes de ver quantas vezes ele se deleita em ser lixo./Tradução de Renato Prelorentzou 

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