ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Sopro de porte

Intérprete de abertura de novela, Alcione resgata Nelson Cavaquinho, vira meme e revigora o vozeirão que marcou seus 45 anos de estrada

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 16h00

“O soooool” há de se repetir mais uma vez. E outra. E possivelmente mais uma. Do nascer ao entardecer. Um perfeito refrão-chiclete, que, dizem os estudiosos, tem a ver com melodias simples e repetitivas. “Até 98% das pessoas já experimentaram uma música grudenta”, afirma pesquisa de marketing da Universidade de Cincinnati. Mas Juízo Final não é “Oi, oi, oi”. Juízo Final não é kuduro. Juízo Final é Nelson Cavaquinho e Elcio Soares. Que, por Deus, hão de chegar aos corações.

Pelo menos assim deseja Alcione. A Marrom já tinha emplacado vários sucessos coadjuvantes nas novelas - nunca o tema de abertura, e de um carro-chefe da Globo. João Emanuel Carneiro e Amora Mautner, autor e diretora de A Regra do Jogo, entraram em contato com Solange, irmã e empresária de Alcione. Queriam que a cantora repaginasse Juízo Final, celebrizada nas vozes de Clara Nunes e Beth Carvalho, mas que também pode ser deliciada no violão sutil de Cavaquinho ou num rock soturno de Renato Russo. Alcione gravou a versão em casa. Virou um viral. “Em vez de bom dia, o povo me cumprimenta com ‘o soooool’”, ri.

Os memes, entre eles um em que a Marrom aparece estampada no meio do astro-rei, chegam até ela pelo celular vibrante de Carlos Fernando. Alcione não tem muito molejo para teclas de computador. “Quando tenho a minha mensagem para passar, eu redijo e falo pra Carlos, ‘meu filho, bota aí no Instagram que eu quero que o povo saiba disso’.” O diretor de marketing da Marrom Music é um braço direito incorporado à família Nazareth desde pequeno. A mãe de Alcione, dona Felipa, lavava as roupas da bisavó dele. Para Carlinhos, Alcione é “tia Alcione, minha mãe-preta”.

O sobrinho adotivo anda comigo pelo Centro Cultural Marrom Music, no último andar de um shopping ainda em obras no fim do Recreio dos Bandeirantes, Rio. O Centro, que abarca a discografia da cantora, três estúdios, um outro particular que ela chama de cafofo, salas para ensinar música, um escritório, uma área ensolarada sob um pergolado e um boteco para pocket shows, foi anunciado em novembro do ano passado, mas ainda espera carimbos burocráticos para abrir as portas de vez. Carlinhos começa pela parede com 22 discos de ouro, 4 platinas simples e 3 platinas duplos. Há mais 4 de ouro e um de platina simples aguardando restauração numa loja em São Paulo. Disco de ouro é quando se superam 100 mil cópias. Cada platina são 250 mil.

Numa outra parede vê-se a partitura estilizada da música Cajueiro Velho, composta pelo pai da cantora, o maestro João Carlos Dias Nazareth. O desenho de um caju com fone de ouvido, aliás, está enraizado no Centro, das almofadas às portas dos banheiros. Por um tapete vermelho desembocamos na estatueta do Grammy Latino categoria Melhor Álbum de Samba, de 2003, ladeada por mais de 300 peças, entre troféus, títulos e honrarias, como a Ordem do Rio Branco (mais alta comenda do Brasil), a Medalha do Mérito Timbira (maior comenda do Maranhão), 9 prêmios Sharp e o Voz da América Latina, dado pela ONU. Num quadro de rodapé, uma mensagem sem rococós: “Alcione. O mínimo que os alciquitos te desejam é o máximo de sucesso na sua vida”. Alciquitos é o primeiro fã-clube da cantora, de 1989. Morena Forrozera surgiu em 2007.

Nas capas dos discos, a evolução do visual em penteados e unhas. “Pelo cabelo dela, eu sei de que época é o disco”, afirma Carlinhos, peremptoriamente. Curtíssimo e castanho? Anos 70. Trancinhas? De 83 a 85. Comprido, estilo Diana Ross? Final da década de 80 e início dos 90. O batom é sempre vermelho. “Não sou mulher de gloss”, ela garante. E as unhas longilíneas, marca registrada, levam esmalte vistoso, adesivo metalizado, folhas de ouro, swarovskis.

Há 16 anos decorando as garras de Alcione, Rosimere Guimarães dá sua palavra direto de Ottawa, no Canadá, onde segue curso para obter uma certificação máster no ofício. “Alcione não faz mais alongamento, são camadas de gel para a proteção.” Ou seja, aqueles centímetros de unha são originais. Decorar as dez implica duas horas de trabalho, que pode sobreviver por 15 dias ou mais, mas que antes disso muda de tom por causa da agenda frenética da dona. Rosimere já teve que trucar com Mangueira e Beija-Flor no mesmo dia, o verde-rosa encapsulado por baixo do azul-e-branco, porque Alcione participaria dos dois desfiles no mesmo domingo. “Ela é meu outdoor”, diz a manicure. Em devoção, escorre em lágrimas pela tela do Skype. “Eu não tenho um rim, mas, se Alcione precisasse, eu dava o outro para ela.”

“Eu não sou essa flor toda, não”, diz a cantora no camarim da Terra da Garoa, centro de São Paulo, onde deu um show acústico em maio. “Mas não posso vacilar.” Antes que explicasse o porquê de tamanha autovigilância, contou de onde vinha seu codinome. Diz ela que, no início da carreira, fez uma viagem de Kombi do Rio para o Nordeste com uma dupla que a contratou. “Quando você é jovem, tudo é novidade”, afirma, hoje aos 67. Um dos caras da dupla, casado com uma mulata que trabalhava na Rede Globo, pedia toda hora que Alcione cantasse Núbia Lafayette para que ele matasse saudade da Marrom dele. Era entoar “Devolvi o cordão e a medalha de ouro” pra ele chorar. Aos poucos foi chamando Alcione de Marrom também. O pseudônimo se alastrou, mas não contaminou nem os mais cismados com a cor. “Quem disse que Roberto Carlos não gosta de marrom?”, postou o Rei no Face, embaixo de uma foto em que tasca um beijo na bochecha dela.

E por que não pode vacilar? Porque acredita, sem mania persecutória, que há pessoas de luz a observando. Assim opera sua vida desde que fez uma cirurgia espiritual com o dr. Edson Queiroz, médium que recebia o dr. Fritz, depois de ela perder a voz há uns 25 anos. De lá pra cá Alcione ganhou 18 discos de ouro e a certeza de que deveria trabalhar na seara espírita - não mais com o dr. Edson, que morreu, mas com Chico Monteiro, que incorpora dr. Fritz no clube em frente da casa dela, na Barra da Tijuca. A proposta é atender ali quem não pode viajar até a cidade mineira de Rio Novo. Quando entra no palco, Alcione ainda pede a proteção de Deus, da Virgem Maria e da Falange de Músicos de Luz de Noel Rosa, uma indicação do dr. Luiz da Rocha Lima, que recebia o Frei Luiz. Para si, para a banda de 10 músicos, para os dançarinos, para a produção, para a plateia.

Há quem diga, em São Luís, sua terra, que Alcione também se abriga sob o guarda-chuva da família Sarney. Ivone, a irmã que mora na capital do Maranhão, afirma que isso não tem a ver com política. Uma amizade forte une as duas famílias, amizade que começou quando dona Felipa lavava a roupa da família do pai da dona Marly. “Isso passou de geração em geração, e Sarney nos ajudou muito na morte do nosso pai, por exemplo, que morreu no Rio e precisava ser trasladado para São Luís.” Ivone é a quinta numa fileira de nove filhos de dona Felipa, cinco homens e quatro mulheres. Por parte do pai, seriam 18 irmãos. 

Pausa para o maestro e professor João Carlos, figura prolífica entre os Nazareths. Fissurado no bumba meu boi de Leonardo, mas impedido pela vida militar de sair da linha, ele desfilava de caboclo de fita, disfarçado pelas 300 tiras de tecido sob o chapéu de buriti. Incentivou não só os filhos a participar da festa como a se aventurarem nos instrumentos. Por isso Marrom sabe tocar clarinete e trompete, apesar dos protestos da mãe, que via no sopro uma fonte de tuberculose.

Alcione, cujo nome foi inspirado na personagem Renúncia, do romance espírita de Emmanuel, é placa de teatro e viaduto na capital ludovicense. Torce-lhe o nariz quem não aprova dar nome de pessoa viva a lugares públicos, algo que ganhou força no governo atual. Flavio Dino, do PCdoB, assinou decreto que determina ocultação ou remoção de inscrições com nomes de pessoas vivas em prédios públicos sob administração ou pertencentes ao poder Executivo do Estado do Maranhão. Alcione também desagrada quem a queria mais presente na cidade, como o vendedor de discos do Mercado Central da cidade: “Maranhense que mal visita o Maranhão...” 

Em 1968, com 21 anos, ela se mudou para o Rio. Trabalhou na cantina do Ministério da Fazenda e, depois, numa loja de discos. Começou cantando na noite, destacou-se nas eliminatórias de A Grande Chance, apresentado por Flávio Cavalcanti, alçou voo pela América Latina, anos depois fez 13 shows no Japão sem ter de cavar buraco daqui até lá e 26 apresentações na Rússia, desafio enorme por causa do frio e da língua. “Era uma época de estreitamento entre o País e a URSS e fizeram uma pesquisa pra saber que artista brasileiro os soviéticos mais conheciam; muitos tinham um disco dela em casa”, diz Solange. O restante está na Wikipédia, incluindo a lista de sucessos. 

Não consta da enciclopédia seu fã perpétuo Carlos das Esfihas, quem nem esfihas faz mais, mas que providencia um estoque delas e leva para o camarim de todos os shows que a ídola faz em São Paulo e no Rio. Assim que chegou a Sampa vindo do Recife, em 1975, ouviu Não Deixe o Samba Morrer. “Nem me apaixonei pela cidade, me apaixonei pela voz dela.” Tem todos os LPs e CDs da Marrom acomodados na sala de casa. “Exclusive a secretária dela disse que tá muito bonito isso aqui.” E lembra, falando muito sério: “Sempre fui uma pessoa definida, e te digo que tudo tem um destaque na vida da gente, e a esfiha foi um destaque maravilhoso. Agora, o Brasil está cheio de cantoras brasileiras, mas a voz mais bonita é a da Alcione, que a cada dia fica melhor”.

Outro suspeito é o ator e amigo Aílton Graça, que estava na estreia do filme Damas do Samba nesta semana, no cinema do Shopping Frei Caneca, em São Paulo. Oito gatos pingados, entre eles o ator, assistiam à película de Susanna Lira na qual Alcione tem sua participação. Aílton cobrava dos críticos lembrar a importância da Marrom para o Mangueira do Amanhã, a escola de samba mirim da escola, da qual ela é fundadora e presidente de honra.

Comentava também que Alcione talvez pudesse assim, quem sabe, como defensora aguerrida da cultura popular, estender para além da casa dela tudo o que o Maranhão tem de mais característico, como o tambor de crioula, o bumba e a gastronomia. Na casa da Barra as festas muitas vezes são regadas a memórias de São Luís, com bolo de macaxeira, torta de caranguejo, toadas de boi e histórias de homens simples. Quanto à explosão do sol de Juízo Final, ele diz que não podia ser diferente. “A voz da Alcione tem um timbre diferente, é poético e ao mesmo tempo te chama. Não passa despercebido. Não passa.”

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