Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Sou suçuarana

Ameaçada pela expansão imobiliária, fauna da região sudeste do Estado não tem para onde ir

Tvan Marsiglia, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2009 | 08h08

Bem que meu tio Iauaretê me avisou: não vá praquelas bandas de lá, onde vive o Macaco Pelado, que é perigoso. Mas fazer o quê, se sou bicho criado solto, acostumado a zanzar em territórios de 65 km², 20 km² que seja, e nem isso me deixam? Ademais, se fiz foi por precisão, para buscar meu de-comer, corrido e revoado dali de onde moro, terra modesta, mas limpinha, e cada vez mais apertada. Cheguei assim chegado, sem pedir licença nem me apresentar. Então, perdoa a indelicadeza. Sou suçuarana, onça-parda, vermelha, puma, leão-baio. Nome certo, de ciência, diz que é puma concolor - mas o povo que me tirou da beira daquele rio de carros está me chamando é de Anhanguera mesmo.

 

Um passarinho me contou que Anhanguera foi Bartolomeu Bueno da Silva, bandeirante que se embrenhou nessas matas paulistas em 1682, atravessou o cerrado goiano e deu lá no Rio Araguaia. Muito bicho viu homem branco pela primeira vez naquela época. Na volta, enganou uns vermelhos de sua mesma espécie dele, tocando fogo numa tigela de aguardente e dizendo que ia fazer o mesmo com as fontes e os rios. Por isso, batizaram de Anhanguera, que quer dizer "diabo velho" em tupi. Só que não sou nenhum demônio, não, embora muita gente ache. Então, primeiro não gostei desse apelido. Depois ouvi que a tradução dos jesuítas era malfeita e que a palavra significa "alma velha" ou "vida antiga". E fiquei satisfeito, pois é isso mesmo que sou.

 

Como ia contando, domingo a noite já estava cansado de vaguear atrás de uma refeição quentinha: o senhor sabe que eu só saio para comer quando escurece. E, com o desassossego da juventude - só tenho 1 ano de idade -, agarrei vereda nesse mundéu. Quando dei por mim tinha descido a ribanceira toda, escutando a barulhada que vem da toca de vocês. Tenho audição sensível, de ouvir detalhe, farfalhar. De modo que fiquei atordoado com tanta balbúrdia. Para piorar, aquelas luzes passando... Olho de gato é feito para enxergar no escuro, viu? Então me apercebi que o dia já ia raiar e eu ali, tão longe de casa. Corri em disparada.

 

A travessia, nem sei como fiz. Sou ligeiro, mas a sorte ajudou. Acontece que, quando ia dar o pulo do gato por cima da mureta, uma coisa grande bateu em mim. O mundo girou, não vi mais nada. O senhor sabe que sou sujeito de coragem: até a pintada, a maioral do pedaço, respeita minha valentia. Mas confesso que fiquei com medo. Paralisado. Mais de uma hora ali, encolhidinho, até vocês chegarem. Mostrei bem os dentes, que não sou de passar recibo.

 

Pararam o trânsito das 7h30 às 8h15 para me apanhar no km 71 da Rodovia Anhanguera, na altura de Louveira: 8 km de engarrafamento, soube depois. Vieram os bombeiros me cutucar com vara grande - um tubo de PVC improvisado, que chamam zarabatana, da ONG Associação Mata Ciliar, que ajudou no resgate. Senti a picada, acalmei, dormi.

 

No meu sonho, eu corria por campos sem fim, ao lado dos meus amigos preás, capivaras, veados, catetos... Quer dizer, para eles sou mesmo é amigo da onça. Mas era um sonho feliz, sim senhor, que foi virando pesadelo enquanto me carregaram para a clínica do Centro Brasileiro para Conservação de Felinos Neotropicais, da Mata Ciliar, em Jundiaí. Não sei se por raiva ou pela anestesia, mas no meu alumbramento via serras elétricas, nascentes de rio desviadas e muros de condomínios encostando ali no nosso pouco de mata.

 

Diz que primeiro foi Aldeia da Serra e Granja Viana. Depois, quando ninguém mais dava conta de chegar nem sair de lá, foram para a Serra da Cantareira, perto da cidade grande. Só na Cantareira, 1,4 milhão de metros quadrados de área verde sumiram em três anos, no dizer da Fundação SOS Mata Atlântica. Então, de cinco anos para cá, o espírito animal do empresariado avançou na região sudeste: Itatiba, Araçariguama, Jundiaí, Vinhedo, Louveira... Se eu não fosse analfabeto, até me divertiria com os anúncios desses "ecocondomínios".

 

Um tal Delle Stelle, no km 71 da rodovia, onde me encontraram, oferece "bosque com mata nativa em área de preservação permanente" e "segurança motorizada". O Campo de Toscana, na saída 75, garante "382 mil m² de áreas verdes, portaria com câmera e guarita blindada". O Village Sans Souci, no km 82, tem "13.500 m² de área irrigada" e "elevado nível de proteção". E o Parque dos Manacás, km 38, "trilhas ecológicas, belos lagos e animais silvestres como esquilos, saguis e diversos pássaros" - até me abriu o apetite, antes de saber que é "totalmente fechado, com portaria 24 horas".

 

Ainda ontem, da jaula de 1 m por 1,5 m onde estou convalescendo, ouvi o dono da ONG, Jorge Bellix, explicar que os muros dessas propriedades funcionam como uma armadilha para os animais. Irracionais que somos, a cada vez que saímos da área de proteção e damos nos fundos do condomínio, em vez de voltar para trás, tentamos contornar a muralha. E, assim, caímos direto nas ruas e rodovias. Sem falar nos fios de alta tensão, no arame farpado e nas cercas eletrificadas.

 

Jorge disse que não sou o primeiro de minha espécie a pôr o focinho nas redondezas esse ano, embora certos estudos de licenciamento digam que não há animais em risco de extinção por aqui. No dia 30 de março, uma onça-parda fêmea foi pega dentro de uma casa em construção em Vinhedo. No dia seguinte, outra foi vista em Araçoiaba da Serra. Em 14 de julho, foi a vez de um macho, no bairro do Rio Acima, Jundiaí. Dia 21 de agosto, na mesma cidade, outra conterrânea andou fazendo refeições num galinheiro do bairro Corrupira.

 

Aprendi que a onça é um animal "bioindicador": no topo da cadeia alimentar, só aparece quando a coisa está feia em seu hábitat natural. Fico feliz que alguém reconheça. E não é só topo da cadeia, não. Todo dia tem veado, capivara, gambá, coruja e macaco descendo a Serra do Japi para ser atropelado, mordido de cachorro ou vendido no comércio ilegal de animais silvestres. Para o senhor ter uma ideia, em 2007, 581 deles foram atendidos no centro de recuperação. Em 2008, 1.074. É de cortar o coração - até de um predador como eu.

 

Ficar enjaulado me dá nos nervos. Rosno com gosto para qualquer um que chegue perto da grade. Em protesto, até sexta-feira recusei-se a comer um pedaço de frango sequer. Mas não vou me queixar: até que estou sendo bem tratado pela Cristina, a Pollyana e a Karen, veterinárias. Por elas, fiquei sabendo que sou saudável, peso 33 kg e tenho 1,70 metro da nuca à ponta da cauda. Como quebrei um dente canino no acidente, até tratamento de canal me fizeram. E as marcas de pneu na pata e no torso, que me deixaram parecido com uma onça-preta jaguaruna, já estão desaparecendo.

 

Encontrei uns parentes distantes também, que espio de longe, que não sou de dar intimidade. Sete dos oito tipos de felinos brasileiros são criados em cativeiro aqui: tem gato do mato pequeno, gato do mato grande, palheiro, mourisco, maracajá, jaguatirica. A única onça-pintada macho já foi tarde - acasalar em um zoológico de Campinas. E tem os irmãos Bem-te-vi e Curió, duas suçuaranas gordas e preguiçosas que se empanturram de 200 quilos de carne por semana - só rato morto de laboratório e pescoço de frango. Eles não sabem o que é a emoção da caçada... De modo que isso aqui não é vida para mim, não senhor.

 

Eles dizem que estou pronto para ser solto em alguma mata aqui perto, talvez na Serra da Jurema, de onde acham que vim, blablablá. O problema é que querem pôr antes um rádio-colar no meu pescoço, que transmite a minha localização por GPS durante dois anos. Para o caso de, o senhor sabe, eu ter outro acesso de rebeldia e pôr o pé na estrada novamente. Só que a prenda custa US$ 6 mil. A AutoBAn, concessionária da Anhanguera, prometeu comprar para a ONG, com uma pistola pneumática para substituir a maldita zarabatana de PVC. Estou esperando.

 

O que me aperreia, desculpe a insistência, são mesmo esses condomínios arrodeando a minha casa. Dentro deles, os cachorros passeiam de coleira para não fugir dos donos, que vivem cercados de muros. Já o rádio-colar, o senhor veja só, é minha única chance de liberdade. De voltar para os bichos, os campos, os rios. E chegar a hora da onça beber água.

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