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Superficialmente profundo

O Tinder leva os encontros românticos de volta à era pré-internet, a um tempo em que as pessoas encontravam parceiros em potencial sobre os quais conheciam pouco

Eli J. Finkel , THE NEW YORK TIMES

14 Fevereiro 2015 | 16h00

A revolução do smartphone estará deturpando o mundo da marcação de encontros online? O velho paradigma para esses encontros eram websites como eHarmony ou Match.com. Cortesias de algoritmos elaborados, a pessoa estudava perfis detalhados de encontros em potencial, iniciava contato por um sistema de e-mail que garantia o anonimato e, se recebesse uma resposta, engatava uma conversa que poderia resultar em a encontro. Quem sabe até com o futuro cônjuge.

O novo paradigma é um aplicativo móvel, como o Tinder. A pessoa examina fotos no seu telefone, arrastando para a direita se a foto agradar, para a esquerda se não agradar. Se a atração for mútua – isto é, se as duas pessoas arrastam para a direita – pode-se tentar marcar um encontro, por exemplo, para cinco minutos depois. Os prazeres da vida marital podem não estar em primeiro lugar na mente da pessoa.

Os críticos reclamam que o Tinder é um aplicativo de paquera, uma boa maneira de arranjar parceiro para uma noite, mas uma péssima maneira de iniciar um relacionamento sério. Essa é uma falsa dicotomia. Como pesquisador em psicologia que estuda os encontros marcados pela internet, acredito que a abordagem do Tinder seja fantástica para se arranjar um parceiro sexual casual e para encontrar parceiro para um relacionamento sério.

Historicamente, tenho sido ambivalente sobre o setor de encontros acertados online. Em 2012, antes de o Tinder existir (e antes de os encontros baseados em smartphones terem dominado o ambiente), trabalhei com uma equipe de pesquisadores para publicar uma avaliação abrangente do setor. Concluímos que os encontros marcados pela internet haviam produzido benefícios imensos para solteiros: eles expandiram o acervo de parceiros em potencial. Mas houve também um grande problema: as duas principais ideias do setor sobre a maneira como solteiros deveriam ter acesso uns aos outros eram equivocadas.

A primeira era que se podia ter um senso da própria compatibilidade com um parceiro em potencial examinando perfis. Como bem demonstrou uma equipe de pesquisadores que incluiu o psicólogo Dan Ariely, examinar perfis é virtualmente inútil para discernir o tipo de informação que realmente importa num relacionamento bem-sucedido. Um texto elaborado e um punhado de fotos jamais conseguirão informar se a conversa no primeiro encontro vai engrenar, ou se você sentirá o desejo de descobrir como é o comportamento da pessoa.

A segunda ideia equivocada é que os algoritmos de encontro efetivos poderiam se basear em informações fornecidas por indivíduos que não tinham conhecimento da existência um do outro. Um estudo (no qual trabalhei) demonstrou que essas informações eram altamente ineficazes para prever uma atração inicial; outro revelou que as informações eram quase inúteis para prever a satisfação em relacionamentos prolongados. Como aprendemos com quase um século de pesquisas sobre relacionamentos românticos, prever se duas pessoas são romanticamente compatíveis requer o tipo de informação que só vem à luz depois de elas terem efetivamente se conhecido. Daí a minha ambivalência sobre marcação de encontros online. Mas a ascensão dos encontros baseados em smartphones me tornou mais otimista.

Sim, o Tinder é superficial. Ele não deixa as pessoas examinarem perfis para encontrar parceiros compatíveis nem proclama possuir um algoritmo que lhes permita encontrar a alma gêmea. Mas essa abordagem é ao menos honesta e evita os erros cometidos por abordagens mais tradicionais na marcação de encontros via internet.

Mais importante, a superficialidade é de fato o principal trunfo do Tinder. Solteiros tipicamente não adotam uma atitude ou/ou para encontros – ou sexo casual ou um relacionamento sério. A maioria deles quer se divertir, conhecer gente interessante, sentir atração sexual e, no momento oportuno, estabilizar-se num relacionamento sério. E tudo isso começa com uma avaliação rápida e imprecisa de compatibilidade e química que ocorre quando pessoas se encontram pela primeira vez cara a cara.

Com o Tinder, a marcação de encontros via internet está capitalizando sua força – um pool de encontros expandido – e depois acelerando o processo de realmente conhecer alguém. A esse respeito, ele leva os encontros de volta à era pré-internet, a um tempo em que as pessoas encontravam parceiros em potencial, sobre os quais conheciam relativamente pouco, em festas, bares, parques caninos - situações em que as pessoas podem ter um forte senso inicial de compatibilidade romântica.

A marcação de encontros baseada em smartphone não é perfeita. Mais ainda que outros tipos de marcação, talvez, porque ele enfatiza a aparência física. E não há nada especial no Tinder afora sua dominação atual do mercado; outras opções de encontro baseadas em smartphone, como Zoosk e Hinge, podem ser igualmente úteis

Mas para solteiros liberais – aqueles que gostariam de se casar algum dia e querem desfrutar de encontros até lá – o Tinder pode ser a melhor opção disponível no momento. Aliás, pode ser a melhor opção que jamais existiu. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

ELI J. FINKEL É PROFESSOR NO DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA E NA KELLOGG SCHOOL OF MANAGEMENT DA UNIVERSIDADE NORTHWESTERN

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