REPRODUÇÃO
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Tá de brincadeira

A história do artista de rua que descobriu que dizer a verdade é desacato para PM do Paraná

Marleth Silva, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2015 | 16h00

Os 15 minutos de fama de Leonides Taborda Quadra renderam 5 mil seguidores no Facebook e uma sensação de medo permanente. No dia 14, caracterizado como o palhaço Tico Bonito, ele apresentava o espetáculo Licença Preu Passar no calçadão da Avenida Brasil, centro de Cascavel (400 km de Curitiba), quando uma frase sua foi ouvida por policiais militares. Bastou para a vida de Leonides virar de cabeça para baixo.

É dele o relato: a certa altura, o palhaço Tico Bonito faz graça domando um bicho de pelúcia, o Besta-Fera. Interagindo com o público, convida duas pessoas para proteger a plateia enquanto ele desenjaula a “fera”. Naquela tarde, um dos “seguranças” apontou para homens da Tropa de Choque da PM do Paraná que passavam e sugeriu que aqueles, sim, seriam bons protetores. Ao que Tico Bonito respondeu: “A Polícia Militar só protege burguês e o Beto Richa. Parece que é segurança privada”. A fala improvisada foi aplaudida pelo público e chegou aos ouvidos dos policiais, que reagiram.

Eles atravessaram a plateia de adolescentes sentados no chão e levaram Tico Bonito para o camburão. Populares e colegas do ator cercaram os policiais. Quatro viaturas e policiais a cavalo se empenhavam em levar o palhaço. A multidão, os celulares gravando tudo e a argumentação dos defensores do artista transformaram o que seria uma ação fácil para a PM em um imbróglio de quase 10 minutos. Em uma das gravações, vê-se o momento em que o palhaço, após insistir em saber por que está sendo levado, ouve de um policial: “Desacato à autoridade”.

Na delegacia, depois de lavrado um termo circunstanciado (boletim de ocorrência para infrações leves), Tico Bonito foi mandado para casa e de lá não tirou mais o narigão vermelho. Leonides não pretende levar seu personagem às ruas tão cedo. Como o bichinho de pelúcia que era chamado de Besta-Fera, o diminuto Tico Bonito, de 1,57 m e 50 kg, foi classificado como uma ameaça e agora tem medo de ser caçado.

É a necessidade que poderá empurrá-lo de volta ao calçadão. As apresentações na rua são seu sustento. O “chapéu” rende de R$ 100 a R$ 150 por espetáculo. Ele costuma se apresentar aos sábados e domingos e faz bicos em festas infantis. A apresentação em que foi detido era especial por fazer parte do festival de teatro do município. Foi vista por alunos de uma escola pública e alguns transeuntes, não mais que 50. 

Leonides diz que, em outras circunstâncias, se desculparia com os policiais se estes se sentissem pessoalmente injustiçados. Mas mantém as críticas à corporação e ao governador tucano do Paraná. Argumenta que a PM atuou como guarda privada de Richa no protesto dos professores em 29 de abril, em Curitiba, e que protege melhor os interesses dos moradores das regiões nobres do que a vida de quem está na periferia - de onde ele vem, mais especificamente do bairro Guarujá.

Longe do centro de Cascavel, o bairro surgiu a partir de conjuntos habitacionais. Os pais de Leonides eram sitiantes, como a maioria dos vizinhos. Na sua adolescência, havia por ali 17 bandas de rock e sete grupos de dança. Na igreja católica, estava ativo um grupo de teatro. Leonides estreou no palco como Barrabás, na Paixão de Cristo. Gostou tanto que buscou oficinas para atores no centro cultural do município enquanto trabalhava como pintor de móveis e montador de silos. 

Anos mais tarde, inspirados por um espetáculo do grupo Rosa dos Ventos, de Presidente Prudente, Leonides e alguns amigos criaram o Éramos Três. A rua, especialmente a de periferia, é o espaço que ele propõe para a arte, por acreditar que só ali se alcança o público isolado pela baixa renda. No fim das contas, “todo público ri igual”. 

Ele explica seu discurso politizado citando os gregos antigos. “O teatro na Grécia era uma manifestação popular que criticava a política feita por uma minoria”, diz. “Falar a verdade não é desacato.” Tem recebido muito apoio, mas não se ilude. “Fazer arte aqui é uma luta.” Sonha em produzir um espetáculo itinerante com figurino e trilha sonora. Fez um projeto, aprovado pela Lei Rouanet, para captar R$ 333 mil. Só conseguiu R$ 11 mil.

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