JUAN MABROMATA/AFP PHOTO
JUAN MABROMATA/AFP PHOTO

Tango e tragédia

Nem apaixonado nem patriótico o bastante, Messi é responsabilizado por tropeços argentinos

Hans Ulrich Gumbrecht, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 16h00

Desde a cultura grega antiga, o significado pleno e complexo da palavra “tragédia” se refere a situações que, por um lado, atribuem a um indivíduo a responsabilidade por um evento coletivamente devastador e, por outro, não oferecem ao mesmo indivíduo uma alternativa. “Tragédia” é um conceito antigo para o que psiquiatras hoje chamam de “duplo vínculo”. Com isso, indivíduos trágicos parecem culpados e inocentes ao mesmo tempo, e esse paradoxo supostamente lhes dá uma grandeza agressivamente visível. A expressão cabisbaixa de Lionel Messi não pode estar mais distante da que associamos ao pathos da tragédia. Além disso, ser o mais brilhante protagonista de um jogo, de um espaço fora da seriedade cotidiana, o mantém distante de dificuldades existenciais extremas.

Mas Messi tem sido responsabilizado pela incapacidade da seleção argentina de conquistar um título internacional importante durante a última década e meia - embora ele nunca tenha estado realmente em posição de evitar que tal decepção ocorresse.

Messi é, contudo, a personificação mais visível de um leve sabor de tragédia típica de nosso presente. Não sou o maior fã dele, mas isso me coloca em boa posição para ressaltar o quanto subestimamos sua grandeza ímpar como jogador porque nos acostumamos demais com ela. Praticamente não houve torneio com a participação de Messi no passado recente do qual não saísse como o “Jogador Mais Valioso” e, contudo, foi criticado um ano atrás por aceitar o prêmio de Melhor Jogador na Copa do Mundo após perder a final para a Alemanha. E agora está sendo novamente contestado pelo rumor de que rejeitou o prêmio análogo na Copa América, após perder o jogo para o Chile. Se Messi joga pela Argentina sem vencer grandes campeonatos, decepciona sua nação; se anunciasse que estuda uma parada pela mesma seleção, se tornaria traidor. Da perspectiva de um argentino, não tem como fazer a coisa certa, e essa condição de tragédia é resultado de três condições diferentes entrelaçadas de forma particular.

Em primeiro lugar, o excepcional potencial de grandeza de Messi foi descoberto e amparado pelo Barcelona e, em troca, Messi tornou o Barça o mais emblemático time de futebol de nosso tempo. Sob o comando de três técnicos visionários, a pura posse de bola se transformou em sucesso graças à velocidade, à incrível habilidade de driblar e à pequena estatura de Messi, que juntas produzem uma probabilidade única de fazer gols. Mas trata-se de uma probabilidade que só se torna certa no Barcelona e ao longo de temporadas, e não necessariamente em jogos individuais, por mais decisivos que sejam.

Em segundo lugar, Messi parece uma personagem unidimensional. Após mais de metade da vida na Catalunha, não perdeu seu inconfundível sotaque argentino nem seu genuíno patriotismo. Não ser um temperamento exuberante também pode explicar a espantosa (e raramente mencionada) permanência de seu admirável desempenho atlético. Ao mesmo tempo, ser imune a camadas de alteridade em seu ambiente mais o priva da capacidade de atingir o máximo em momentos decisivos e de impor sua vontade num jogo muito disputado. É o melhor jogador de futebol do mundo, independentemente de estar no Barça ou na seleção argentina, mas em nenhum dos dois contextos é um “líder natural” (embora, dadas suas habilidades e sua idade, possa parecer insultante não fazê-lo capitão de qualquer time em que jogue). O brilho de Messi é um de muitos momentos, todos eles imprevisíveis, e sua eficiência é a soma de sua acumulação.

Se o que podemos chamar, num tom quase moralista, de “humildade” de Messi funciona em terceiro lugar como condição de sua grandeza atlética, de seu patriotismo e de sua incapacidade de moldar situações à sua vontade, essa humildade o torna excêntrico como protagonista masculino na história e nas mídias argentinas. Diferente da racionalidade ostentosa que domina o espaço público chileno e da cordialidade brasileira, protagonistas argentinos parecem impositivos: pensem em Perón e Borges, em Domingo Faustino Sarmiento e o papa Francisco - mas, também e sobretudo, em Maradona, que admira Messi e, no entanto, compreendeu que “embora Messi já tenha marcado muito mais gols” do que ele, seus “gols de então eram mais bonitos” - e mais decisivos.

Uma pessoa com a humildade de Messi, ao contrário, corre risco de não parecer nem apaixonado nem patriótico o bastante no mundo argentino - precisamente pela falta de excentricidade. Esta pode ser a razão da leve tragédia de Lionel Messi - e o que torna tão difícil imaginá-lo como capitão de uma seleção argentina conquistando a Copa do Mundo. 

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Mais conteúdo sobre:
messi seleção argentina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.