Elliot Landy/Landyvision/The New York Times
Elliot Landy/Landyvision/The New York Times

'Tarântula' mostra faceta literária de Bob Dylan

Livro conta com textos considerados pelo músico muito longos ou complexos para serem incluídos nas letras de suas canções

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado

22 Abril 2017 | 16h00

Tarântula, de Bob Dylan, que já havia sido publicado no Brasil em 1986 pela editora Brasiliense, na tradução de Paulo Henriques Britto, ganha agora uma nova edição, organizada pela Planeta, e uma nova tradução, assinada por Rogério Galindo. 

O livro retorna em boa hora. Depois de o artista norte-americano ganhar o Nobel de Literatura no ano passado e das polêmicas sobre a concessão do prêmio, muitos ficaram curiosos para conhecer melhor, ou com um outro olhar, a obra de Dylan.

Tarântula traz à cena um escritor extremamente radical, “Bob Dylan expressando o inexpressável”, como se lê na introdução da edição inglesa do livro, reproduzida nesta nova publicação no Brasil. Portanto, não pense o leitor que encontrará no livro uma narrativa clara e objetiva como muitas letras compostas por Dylan. Segundo o artista, Tarântula era aquilo que ele não podia cantar, talvez por ser longo ou complexo demais. 

As histórias do livro são narradas como se o escritor estivesse em transe ou dormindo, parecem uma série de anotações desencontradas, como se ele estivesse esboçando apenas um rascunho, algo ainda inacabado: “enquanto passam ventos negros e brancas sextas-feiras, eles lavam água & guincho de selva & lenny imune à matemática, ele, o charlatão gorduroso”.

Acompanha também a nova edição um texto de Bob Markel, o primeiro editor do livro, publicado originalmente em 1971 pela Macmillan; nele, Markel conta que, quando Bob Dylan apresentou o texto à editora, era, de fato, um trabalho em andamento. Dylan iria “fazer mudanças” no texto antes de sua publicação. Mas Tarântula acabou não sendo modificado. Depois de algum tempo, o escritor resolveu publicá-lo como estava. 

É interessante pensar na ideia de um livro rascunho. Segundo Ricardo Piglia, “os rascunhos podem ser lidos como literatura potencial, são modos de imaginar o que pode ser um relato. Linguagem em potência”. E, prossegue Piglia, “muitos escritores parecem ter trabalhado com essa potência”. Seria talvez o caso de Joyce, mais especificamente em Finnegans Wake; e de Georges Perec, entre outros tantos. Dylan, sempre atento às vanguardas, deve ter-se inspirado nessa possibilidade de linguagem ao optar em publicar seu livro “rascunho”, característica que faz com que ele esteja sempre em processo e expresse sempre a possibilidade de continuar de outro modo, como afirma Piglia a respeito dos rascunhos de forma geral. 

Piglia lembra que se pode escrever ótimos manuscritos e péssimos textos finais. Talvez nunca venhamos a conhecer o texto final de Tarântula, mas seu “rascunho”, a meu ver, já lhe garante um lugar especial na literatura. 

Embora Bob Dylan tenha considerado Tarântula um romance, ele é um livro híbrido, composto de uma série de contos, uma ópera, um poema, uma fábula etc., que tratam sobre assuntos cotidianos diversos: “‘feliz ano-novo, elmer & como vai sua esposa, cecile’ & isso garantiu que eles entrassem na festa... lá dentro, Burt ficou zangado com um palito de dentes na nuca olhando o médico & embora o carteado por si só fosse sensacional, a Moça Flor perdeu a camisa”. 

O cotidiano de Dylan, no entanto, é entremeado de um discurso político, que reflete as preocupações e os anseios do final dos anos 1960, mas ainda bastante atual nos dias de hoje: “fiquei bebum demais noite passada. devo ter bebido/ demais. acordei hoje de manhã com/ a cabeça na liberdade & minha cabeça que parecia/ a polpa de uma ameixa... estou planejando/ discursar hoje sobre a brutalidade policial. venha se você conseguir escapar”. Ou: “todos sabem de sobra a essa altura que as causas das guerras são grana & ganância & instituições filantrópicas/ a dona de casa não está. ela é candidata ao congresso”. 

Dylan também se vale, para compor seu livro, de mistura de línguas, como em Incorrigível e Maria Lugar Nenhum – MARIA POR QUÉ LLORAS? & eu te dou minhas doze meias-noite –; e de onomatopeias, de sons de guitarra, como se quisesse acompanhar com ela as palavras do texto: “broa betty, ébano diabrete ba-ba-blam, ba-bam! bandida teve um bebê ba-ba-blam, ba-ba-blam!”.

Tarântula é composto também de um emaranhado de citações e referências que sempre fazem o tradutor se perguntar, como o fez Rogério Galindo, se valeria à pena ou não colocar uma nota em cada uma delas. 

Vale ressaltar que muitos contos vêm acompanhados de uma carta, assinada por diferentes remetentes ao longo do livro. A linguagem das cartas é clara e seus autores parecem trazer à tona a sua versão dos fatos ali narrados. 

*É autora do livro 'Ascensão: Contos Dramáticos', da editora Armazém

Tarântula

Autor: Bob Dylan

Tradução: Rogério Galindo

Editora: Planeta

136 páginas

R$ 36,90

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