Marco Borggreve/The New York Times
Marco Borggreve/The New York Times

Tecnologia encontra arte em ópera 3D de Michael van der Aa

'Blank Out’, do compositor holandês Michael van der Aa é inspirada na vida da poeta sul-africana Ingrid Jonker

Nina Siegal, The New York Times

23 Setembro 2017 | 16h00

Como garoto soprano da companhia de ópera jovem dirigida pelo pai em sua cidadezinha, o compositor holandês Michael van der Aa uma vez acompanhou o velho até o relojoeiro que estava pintando um cenário para eles. O que viu foi uma revelação. 

“Nunca vou esquecer daquele ventilador com tiras de papel crepe penduradas e iluminadas por baixo com uma luz vermelha, o que criava uma fogueira. Compreendi que mesmo com recursos muito simples é possível fazer algo incrivelmente poético”, diz Van der Aa. 

Se sua inspiração para se tornar um artista de teatro nasceu daquela descoberta da simplicidade cênica, Van der Aa, hoje com 47 anos, fez a carreira por um caminho diametralmente oposto. Embora tenha escrito peças orquestrais e de música de câmara, ele se tornou mais conhecido no mundo da ópera. E, a sua já multifacetada forma de arte, ele adicionou experimentações de alta tecnologia com vídeos, filmes 3D e elementos retrô como gravadores de rolo – resultando em sequências como duetos com um cantor no palco harmonizando com outro artista que aparece em filme. 

A última ópera de Van der Aa, Blank Out, com a soprano Miah Persson (ao vivo no palco) e o barítono Roderick Williams (em filme 3D projetado simultaneamente, que a plateia vê por meio de óculos), estará no Park Avenue Armory a partir do dia 27, após sucesso de crítica em Amsterdã, Roma, Pequim, Helsinque, Hannover (Alemanha) e Lucerna (Suíça). 

A ópera é livremente baseada na vida e obra da poeta sul-africana Ingrid Jonker (1933-65). Como ela escrevia em africâner, que é parecido com o holandês, traduções de seus livros estavam disponíveis na Holanda antes de chegarem a outros países, e Van der Aa os leu quando jovem. A ópera inspira-se também nas próprias memórias de Van der Aa, mas os poemas de Jonker aparecem durante toda a peça, inteiros ou em fragmentos. 

Na enigmática obra, que deixa sem solução algumas partes de sua linha narrativa, Miah Persson faz o papel de uma mãe recordando o trágico afogamento do filho, enquanto Roderick Williams, no filme, é um filho que lembra o afogamento da mãe. A interpretação ao vivo de Persson é acompanhada de loops gravados por ela, que faz duetos com Williams, embora os dois estejam separados por tempo, espaço e diferença de mídia. A ópera é uma sombria narrativa no característico estilo de Van der Aa - um amálgama que funde elementos pop, eletrônicos e ambientais, como o chiado de uma fita cassete.

Blank Out é a segunda incursão de Van der Aa na combinação de 3D com ópera. A primeira foi uma parceria de 2013 com o romancista britânico David Mitchell, Sunken Garden – trabalho que, para alguns críticos, ficou melhor tecnicamente que musicalmente. Van der Aa nunca parou de mexer na obra e vai apresentar o que chama de “versão 2.0” em março, na Dallas Opera. O crítico Andrew Clemens escreveu no jornal britânico The Guardian que, comparativamente, Blank Out é bem melhor, embora mais modesta. Clemens considera a ópera um dos principais eventos de música clássica do ano.

“Os temas de Van der Aa são atemporais, inspirados na literatura, associativos e multifacetados”, disse Pierre Audi, promotor de eventos que levou a nova obra à Dutch National Opera e hoje é diretor artístico do Park Avenue Armory. “Ele não segue os parâmetros de um compositor tradicional e nunca temeu assumir riscos, desde o início da carreira.”

De fato, a carreira de Van der Aa é inusual. Antes de estudar composição, ele estagiou como engenheiro de som no Conservatório Real de Haia, fez um curso de direção de cinema na New York Film Academy e participou do Lincoln Center Theater Directors Lab. Audi elogia particularmente a habilidade de Van der Aa de introduzir filmes na ópera.

“Michel usa o filme como parte da composição e assim a música é também o que se vê, algo belo e incomum”, disse Audi. “Pode haver compositores que sejam também bons cineastas, mas Michel empenhou-se primeiro em ser cineasta para usar essa ferramenta na criação de músicas destinadas também aos olhos. Eu acredito que haja um grande potencial no que ele inventou”, acrescenta.

Van der Aa, no entanto, deixa claro que a complexidade de sua ópera não é um fim em si. “A obra não é sobre tecnologia, mas sobre perdas, sobre gerações, sobre os grandes temas da vida, e usa um vocabulário diferente para expressar tudo isso.” / Tradução de Roberto Muniz 

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