'Tem que chegar lá para sentir'

'Tem que chegar lá para sentir'

Evelson de Freitas e Tiago Queiroz, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 16h00

Evelson de Freitas

Eu e o repórter Lucas Abreu Maia cruzamos o País para documentar os extremos da riqueza e da pobreza. E as duas são velhas conhecidas, pois caminham lado a lado. Há diferenças iguais, há semelhanças diferentes. Como entender essa tal de desigualdade social? Os números, os indicadores econômicos dão pistas, mas não bastam. Melhor ir beber na fonte. Estivemos em Westfália, um vilarejo “europeu” encravado no Rio Grande do Sul, e em Santa Rosa do Purus (AC), um ponto perdido na Amazônia a que só chega de avião – daqueles bem pequenos. 

Ao ouvir os nomes Westfália e Santa Rosa do Purus pela primeira vez não fui capaz de conceber uma imagem de como poderiam ser esses lugares. O que, para um fotógrafo, não deixa de ser fascinante: fotografar um lugar pela primeira vez é a possibilidade de se surpreender com o próprio olhar. Um lugar novo não permite preconceitos nem o planejamento de imagens. Tem que chegar lá para ver e sentir. 

Numa e noutra cidade, os olhares tímidos das pessoas se voltavam quase sempre para dentro dos próprios horizontes. E meu olhar ia com eles, tentando adivinhar um pouco de suas vidas através de suas casas e seus objetos. Cada qual contava uma história, como peças de um tesouro particular. As cores, as formas, o local em que cada coisa foi cuidadosamente colocada e cuidada. Podia ser o retrato dos filhos na parede, o armário de guardar comida, as flores falsas no vaso, ou as cascas de laranja verdadeiras penduradas no teto. Tudo ia me revelando a riqueza individual do imaginário dos donos. Às vezes, uma profusão atordoante de diferenças.

Assim, tentei olhar de maneira simples. E ao fotografar mirando as tantas diferenças, as individualidades, ficou claro pra mim que todos temos nossos tesouros, nossos retratos na parede, nossas coisas sobre a mesa. É na diferença que somos iguais.

'Acho que fotografei uma música'

Tiago Queiroz

“Ei, tio, fotografa a indiazinha, fotografa!”, pediu a criançada que brincava pelas ruas de terra vermelha e sem calçamento, no interior pobre do Maranhão. Eu aponto a câmera para a Lidiane de Barros de Souza, de 7 anos, e seu sorriso instantâneo me aquece a alma. Foram muitas lições aprendidas nesses dias entre os extremos do Brasil – as cidades de Fernando Falcão (MA) e Bonito de Minas (MG) – onde eu e a repórter Juliana Diógenes fomos aprender sobre a desigualdade do País.

Embora tão diferentes, encontrei semelhanças entre as cidades: as galinhas onipresentes nos quintais de terra nos fundos das casas, a falta de água que leva as mulheres (sempre elas, nunca os homens) a lavar a louça nos riachos e, acima de tudo, o espírito desarmado de uma gente que abre a porta de suas casas e de suas vidas aos forasteiros da cidade grande.

Na comunidade rural de Salobo, em Bonito de Minas, acho que fotografei uma música – o Luar do Sertão. Uma beleza silenciosa como as que Guimarães Rosa escolheu para ambientar suas histórias. 

Mas foi em outro vilarejo, Catulé, também em Bonito de Minas, que tive a maior lição da viagem. Na estrada de areia fofa e margeada por árvores retorcidas, éramos só nós e um carro de boi. Nada mais. Ao chegarmos, a cidade parecia igualmente quieta e ausente. Seguindo um murmúrio, encontrei uma porção de gente, homens, mulheres e crianças raspando mandioca para fazer farinha. Toda a população parecia estar ali, naquele quintal. Provei um pouco da iguaria. Muito boa, quentinha. 

Na minha lógica paulistana, de quem se habituou a achar que tudo está à venda, pergunto o preço da farinha. Quero comprar. “Ô moço, essa farinha não vendemos, não. Fazemos para comer.” Entendi melhor o que os sociólogos querem dizer quando falam que aqui existem muitos brasis.

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