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Tema de documentário do Oscar, escritor James Baldwin desafiou tabus

Negro e gay, autor de 22 livros manteve a independência ideológica em meio à militância

Sérgio Augusto , O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2017 | 16h00

Não sei mais quem disse que a primeira palavra que lhe vinha à cabeça ao ouvir o nome de James Baldwin era “elegante”. Na maneira de escrever, acima de tudo, acrescento. Tão elegante e civilizado era, na prosa e no comportamento, que certa militância radical, exasperada com o seu desprezo pelo estereótipo do negro bicho-papão, incendiário e vociferante, estigmatizou-o como sicofanta dos brancos e traidor da raça; inclusive por escrito, como fez Eldridge Cleaver em Soul on Ice, equivocadamente.

Baldwin nunca foi o negro bem comportado da aristocracia intelectual branca, nem o negros dos negros mal comportados de Malcolm X. Em seu livro de ensaios mais contundente, The Fire Next Time (Da Próxima Vez, o Fogo, traduzido em 1967 pela Biblioteca Universal Popular), Baldwin elogiou a sinceridade de Malcolm X, mas rejeitou a violência e o separatismo proposto pelos black muslims (muçulmanos negros) e aconselhou-os a evitar cometer os mesmos atos de violência que os brancos cometeram com aos negros.

Tinha mais experiência naquela luta do que a maioria de seus “irmãos de cor”. Nascido e criado no Harlem, foi muito além de seus precursores, Richard Wright (autor do pioneiro Filho Nativo e também seu mentor nos primeiros anos de atividade literária) e Ralph Ellison, que depois de Homem Invisível nada produziu de valioso ou relevante.

Wright (a cujo “sociologismo excessivo” Baldwin fez reiteradas restrições) e Ellison não participaram ativamente do movimento pelos direitos civis, ao contrário do profeta mais visível da cultura afrodescendente americana em que Baldwin se transformou com apenas meia dúzia dos 22 livros que lançou, a partir de 1953. Na histórica marcha de Washington, em 1963, lá estava ele, paparicado até por celebridades do show business. 

Embora convivesse socialmente com brancos, odiava-os com justificável intensidade – ao menos por escrito –, e não escondia um certo desdém pelos negros, “possivelmente porque não produziram um Rembrandt”. Despontar no momento em que a psicanálise substituía o marxismo no metabolismo intelectual americano ajudou-o a diferenciar-se ainda mais dos epígonos de Frantz Fanon e livrar-se de muitos clichês revolucionários cobertos de limo e desilusões. Como fizera da cor da pele uma virtude existencial, passou a ser visto, até por morar em Paris e frequentar o Flore e o Deux Magots, com um “Albert Camus nègre”. 

O que tinha a dizer quase sempre o fez sob a forma de reflexão autobiográfica. Em ensaios, romances, contos e peças teatrais. Misturava com extrema habilidade o pessoal com o político, a ponto de torná-los indistinguíveis.

Por ser homossexual assumido, juntou sem esforço a questão do racismo e da homofobia (“uma maneira de controlar as pessoas, forçando-as a sentir culpa pelo que desejam e praticam”) em pelo menos duas obras ficcionais, Giovanni (Giovanni’s Room) e Numa Terra Estranha (Another Country), tocando adiante outro combate, iniciado no imediato pós-guerra por Gore Vidal e depois reforçado por Tennessee Williams, Edmund White e outros comprometidos com a militância gay, palavra que, aliás, Vidal e Baldwin, alérgicos a rótulos e mais interessados na luta política, desprezavam solenemente. 

Alguns cafajestes do Black Power chegaram a debochar da homossexualidade de Baldwin, apelidando-o de “Martin Luther Queen”; e é claro que todos eles engrossaram o coro dos que, em 1956, o pressionaram a desistir de publicar Giovanni (aqui traduzido pela Civilização Brasileira em 1968) e incinerar os originais. “Vai afugentar seus leitores”, profetizou um editor. Apesar de não ter um só personagem negro e qualquer alusão a racismo (Giovanni é o nome de um barista italiano por quem um jovem americano em Paris, chamado David, se apaixona), na verdade diversificou o público leitor de Baldwin. 

Se questionado a respeito, Baldwin dava sempre a mesma resposta: “Não é um livro sobre homossexualidade, mas sobre o que acontece com a gente quando receamos amar alguém”. Em outras palavras, um romance sobre a covardia emocional, curto e intenso, embora mais para a Françoise Sagan de Bom Dia, Tristeza do que para Gide e Gene, na avaliação de um crítico gay. 

Também narrado em estilo convencional – jazzístico só na intenção do autor–, Numa Terra Estranha tinha mais substância. Mexia com raça e sexo, relacionamento hétero e homossexual, amor inter-racial, abordava a fúria dos negros, a consciência culpada dos brancos, a loucura, a malaise urbana e o milieu artístico nova-iorquino. 

Eixo de toda a trama, Rufus, um decadente baterista de jazz negro que se apaixona por uma sulista loura e se joga da ponte George Washington, em Nova York, foi inspirado num amigo de juventude de Baldwin, que se suicidara da mesma maneira. E o ator Eric, primeiro namorado de Rufus, egresso de Paris onde vive há anos para um teorema amoroso envolvendo dois outros homens, é um alter ego do autor. Baldwin começou a escrever Numa Terra Estranha no final dos anos 1940, ainda em Manhattan, e só o concluiu em 1961, em Istambul. Publicaria pelo menos mais uma dúzia de livros antes de morrer, em dezembro de 1987, aos 63 anos, de um câncer no estômago, em sua pequena casa provençal em Saint-Paul-de-Vence. 

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