Keiny Andrade/Estadão
Keiny Andrade/Estadão

'Temos que repensar completamente a política para essa era', diz Thomas Friedman

Autor de 'Obrigado Pelo Atraso' analisa o mundo do ponto de vista da tecnologia, economia e mudanças climáticas

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2017 | 16h00

Em Obrigado Pelo Atraso, o jornalista Thomas L. Friedman, três vezes vencedor do Pulitzer, analisa o mundo atual sob três aspectos: tecnologia, economia e ecologia. Todos esses âmbitos vêm se acelerando: há meio século, o processamento dos computadores dobra a cada dois anos rigorosamente; a globalização chegou a um ponto em que o mundo não está mais apenas interconectado, mas sim interdependente; as mudanças climáticas vêm se agravando nas últimas décadas. A conclusão? Precisamos fincar raízes para sobreviver ao ritmo de vida contemporâneo. Sobre o livro, Friedman concedeu entrevista ao Aliás:

Você é otimista em relação às possibilidades da tecnologia e globalização, mas pessimista sobre as mudanças climáticas. Qual é o balanço geral?

Normalmente, o pessimismo está correto e o otimismo, errado. Mas todas as grandes mudanças na história foram feitas pelo otimismo. A tecnologia é sempre uma faca de dois gumes, ela pode construir e destruir. Tudo depende de quais valores você implementa nela. Perguntei a um amigo, o físico Amory Lovins, se ele era otimista ou pessimista, ao que ele respondeu: “Nenhum. São apenas duas formas de fatalismo.” 

As instituições estão preparadas para reagir às transformações no mundo?

Algumas estão e algumas não. Isso depende de liderança. Quando o mundo fica tão rápido, pequenos erros de navegação têm consequências imensas. Se você tiver um mau líder, pode ficar tão longe dos trilhos que a dor de retomar a eles pode ser enorme. 

Quais habilidades o trabalhador do futuro terá?

Por séculos, nós trabalhamos com nossas mãos. Então, no último século nós trabalhamos mais com nossas cabeças. Eu acredito que no próximo século nós trabalharemos muito mais com nossos corações. Portanto, onde as pessoas combinem empatia com amplo conhecimento técnico, aí é que os melhores empregos estarão.

O ritmo de vida contemporâneo fez com que os riscos do fracasso se tornem maiores?

É difícil saber, porque lembre-se que muitas pessoas viviam em uma pobreza abjeta há um século. Houve um tempo de trabalhos de habilidades medianas com alto salário. O que mudou é que o mercado mediano está saturado. Ainda existem salários altos, mas eles exigem alta capacitação, e salários baixos para quem tem pouca capacitação, mas os empregos medianos com salários bons foram majoritariamente dominados por máquinas e software.

Como o ritmo de vida acelerado interfere na fruição da arte e da cultura?

Esse é um ponto interessante. Uma das minhas citações favoritas no livro, também de Dov Seidman, é: “Quando você aperta o botão de pausa em um computador, ele para; quando você aperta em um ser humano, ele começa a funcionar.” É aí que se começa a refletir, repensar, reimaginar. Esse livro celebra tudo o que é antigo e lento, tudo que você não pode fazer download, mas que tem que fazer upload de um ser humano a outro. Entre pais e filhos, professores e alunos, governo e governados, arte e artistas.

A tecnologia tem melhorado a vida das pessoas mais pobres ao mesmo tempo em que aumenta o abismo entre elas e os mais ricos. Como resolvemos isso?

Quando o mundo muda tão rapidamente, teremos três mudanças climáticas de uma só vez: no clima ambiental; no clima da globalização, com o mundo indo de interconectado a interdependente; e no clima tecnológico. Temos máquinas capazes de analisar, otimizar, processar, customizar e automatizar quase tudo. Quando se passa por essas mudanças, o que se quer é resiliência e propulsão. Temos que repensar completamente a política para essa era. Falo pelo meu país aqui, mas nossos partidos políticos nasceram para responder às questões da revolução industrial. A questão relevante que os partidos têm que resolver é como aproveitar o melhor dessas três acelerações e como proteger as pessoas do pior delas. Esse é o real desafio da política hoje: como ter mais resiliência e propulsão nessa era de acelerações. 

Os tempos modernos mataram o ócio criativo?

Vou contar uma história. Eu estava em uma viagem pelo Oriente Médio, e perdi meu celular. Por dois dias, fiquei sem telefone. E passei um excelente tempo. Eu não tentava fotografar qualquer coisa que visse. Eu não olhava para uma tela, eu conversava com a pessoa ao meu lado. E não senti falta nenhuma.

Quando todos os serviços forem executados por máquinas, o que nós faremos?

Ainda não chegamos a apreciar todas as coisas criativas que seres humanos podem fazer ou desejar um pelo outro. Podem haver tantos empregos do coração... Nunca subestime a criatividade humana e coisas que vamos fazer como humanos. Sempre que eu leio um estudo que diz que em 2050, 48,7% dos empregos terão sido extintos, eu penso: “Sério? Não 48,6%, nem 48,8%. Quer dizer, quem sabe o que teremos em 2050? Tudo o que eu sei é que seres humanos são infinitamente criativos.

Obrigado Pelo Atraso

Autor: Thomas L. Friedman

Tradução: Cláudio Figueiredo

Editora: Objetiva

560 páginas

R$ 69,90

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