ESTADAO CONTEUDO
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Tempo de contar a lavra: o livro desconhecido de Mário Chamie

Um dia depois da morte de Mário Chamie, em 2011, saía da gráfica seu último livro, que nunca chegou a ser lançado. Hoje, num momento de redescoberta do poeta, há planos de finalmente apresentar ao público sua obra desconhecida – um ensaio ambicioso, em que o escritor explica por que, para ele, seu livro mais importante, Lavra Lavra, é para a poesia o que o Grande Sertão é para a prosa

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2016 | 17h00

É preciso respeitar o tempo, este senhorzinho que, não tem jeito, está sobre tudo e sobre todos. No caso de Mário Chamie, foram 50 anos: entre escrever Lavra Lavra – seu mais importante livro, publicado no início de 1962 e laureado com o Jabuti do ano seguinte – e revisitá-lo em uma autoapreciação crítica, quase uma explicação da própria criação poética.

Três meses foi o tempo entre o contrato com a editora, envio de originais, edição, revisão, checagem das provas e publicação. Mas veio o 3 de julho de 2011 e a morte levou o poeta. Não houve tempo, portanto, para que criador abraçasse criatura. Chamie foi internado em uma sexta-feira, partiu em um domingo, vítima de câncer – tratava um tumor no pulmão havia um ano. Só na segunda, dia 4 daquele julho de 2011, é que a tiragem de mil exemplares de Um Roteiro de Lavra Lavra sairia da gráfica RR Donnelley, em Osasco, na Grande São Paulo. “Se eu tivesse enviado um dia antes para o prelo, ele teria ao menos visto o livro pronto. Ficou tão bonito...”, lamentaria o editor Francisco Moura Duarte para a cineasta Lina Chamie, única herdeira do poeta.

Duarte, atualmente com 84 anos, segue à frente da Funpec Editora, de Ribeirão Preto, no interior paulista. A luxuosa edição de Um Roteiro de Lavra Lavra, com suas 304 páginas em papel chamois bulk dunas, 80 miligramas por metro quadrado, capa dura e sobrecapa bem-acabada, jamais foi distribuída, conforme ele confirmou ao Aliás. “Mandei a cota combinada com o Mário, de 100 exemplares, para a filha dele. E presenteei alguns amigos. O resto está aqui, tudo encaixotado”, contou.

Trata-se do sexto livro do poeta editado pela casa do interior paulista – entre os anteriores, está Horizonte de Esgrimas, terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura (hoje Oceanos) de 2003; e Pauliceia Dilacerada, terceiro lugar no Jabuti de 2010. “Seus livros já vinham ‘prontos’, arrumadinhos e sem problemas”, confidenciou Duarte. “O processo de edição costumava ser rápido, portanto. Mas tem uma coisa: o Mário não admitia erros e nem que o livro fosse porcaria. Era muito exigente.”

Filho de imigrantes sírios, Chamie nasceu na pequena Cajobi, interior do Estado, em 1933. Como sua cidade não tinha escola com ensino médio, mudou-se para São Paulo aos 14 anos. Na capital paulista estudaria Direito – formou-se em 1956 pela Faculdade do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP) –, se tornaria o professor “Chamusquinha”, assim apelidado pelos seus alunos – por 50 anos, até a morte, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) – e jamais deixaria de ser aquilo que o tempo se encarregou de consolidar: poeta.

Um poeta que surgiu ao público em 1955, com a publicação de Espaço Inaugural, pelas Edições Leia. Mas cavou seu lugar na história, pleiteando resistir ao próprio tempo, com Lavra Lavra, sete anos mais tarde. Editado pela Massao Ohno, casa do cultuado editor homônimo que viveu entre 1936 e 2010, o livro lançou os pilares do movimento literário conhecido como poesia-práxis, “uma ruptura polêmica e agressiva com o grupo concretista”, conforme pontuou a professora Tereza Ramos de Carvalho, doutora em Literatura pela Universidade Federal de Brasília (UnB). “Em vez de considerar a ‘palavra-coisa’ (como os concretistas), considera a ‘palavra-energia’, isto é, aquela que gera outras palavras no contexto do poema.”

“Suas experiências são interessantes como tentativa de manter a tradição do Modernismo, sem renunciar ao espírito de vanguarda”, disse sobre a práxis, à época, o intelectual Antonio Candido, o principal crítico literário brasileiro vivo. Duas semanas atrás, quando o convidei a comentar sobre Um Roteiro..., Candido, com a sabedoria dos seus 98 anos, afirmou que preferia nada dizer, “porque meu tempo (de crítico) já passou”.

“Não resta dúvida de que Lavra Lavra se tornará um marco na história da poesia brasileira. Finalmente chegamos à prática da nova concepção de poesia”, afirmou em 1962 o poeta Murilo Mendes (1901-1975). “Cada poema tem ao mesmo tempo uma linha de rigidez e de elasticidade.”

Para mim, também foi preciso tempo. Um ano entre conhecer o nome de Chamie, citado sem muita explicação na apostila da escola de minha pequena Taquarituba natal, em 2001, e finalmente encontrar sua obra na biblioteca da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, onde cursei Jornalismo. Mais cinco até conhecê-lo, em março de 2007, quando fui enviado para reportar histórias da Academia Paulista de Letras (APL), instituição da qual o poeta fazia parte.

Reconheci Chamie entre os acadêmicos ainda durante o tradicional café da tarde que precede as reuniões de quinta-feira. Tomei coragem de abordá-lo ao fim da sessão. Bastou mencionar seu Lavra Lavra para que ele, entre orgulhoso e simpático, não mais olhasse para o relógio, esquecesse o tempo, e se empolgasse a conversar como se eu merecesse uma palestra privada.

É provável que, nesta época, Chamie já pensasse em retomar, com olhar maduro, sua mais importante obra. Por certo, rascunhava. “Foi um trabalho ao qual ele se dedicou diariamente nos últimos anos”, relatou sua filha Lina, hoje com 55 anos. Mas seu método de produção não era cartesiano, não tinha hora para começar nem hora para acabar. Seu tempo de escritor era “um fluir contínuo”, disse Lina. Seu fazer criativo dispensava relógio de ponto, não se incomodava com horas extras. “Meu pai dizia que ou o sujeito presta ou é sistemático.”

No ensaio Um Roteiro..., o processo de Lavra Lavra é esmiuçado, escancarado, desnudado – tal e qual Edgar Allan Poe (1809-1849) disseca seu O Corvo em A Filosofia da Composição. “Acredito que tenha sido natural para ele escrever o livro. Quando surge aquela intuição de que o fim está próximo, vem a necessidade de revisitar a trajetória”, comentou a filha. É isso: antes de morrer, Chamie fez uma verdadeira autópsia na poesia em que ele mais acreditava.

“Daí porque Lavra Lavra e sua concepção criativa fogem dos parâmetros das tradições poéticas, em língua portuguesa, acumulados em seus sucessivos legados históricos. Legados da literatura literária, legados dos seus enxertos ideológicos, legados da inércia de um pensamento crítico, com variações mínimas no curso do tempo”, escreveu ele, em sua elogiosa autocrítica. Chamie tinha, para si, uma consciência de que seu livro mais importante vai galgar mais ainda um lugar no cânone da literatura brasileira. “Nessa linha de avaliação, peço ao leitor que me permita este registro: em termos de transubstancialização da fala em fluxo de linguagem, da fragmentação e formação neológica de vocábulos, da interação entre dicções prosódicas e ditados populares e da demonização épica das relações de poder no sertão/campo e no campo/sertão, Lavra Lavra está para a poesia brasileira assim como Grande Sertão: Veredas está para a prosa”, completou, comparando sua obra ao clássico de João Guimarães Rosa (1908-1967). “Guardadas, é óbvio, proporções e características cabíveis entre os dois livros. E, sobretudo, mantida a autonomia específica de cada um deles.”

Mas o poeta reconhecia que sua opinião estava longe de um consenso. Afirmou que “há abóboras e pequenos aristarcos de diferentes linhagens que refutam esse registro” e “outros que permanecem aquém da realidade práxis de uma poética superior”. “A essas opacas estirpes, meus votos para que sejam felizes em suas adormecidas posturas. Solidário, desejo-lhes que, no cocho de suas ruminações canônicas, pastem muito bem para todo o sempre”, anotou.

Cinco anos após a morte do pai, Lina acredita que há um tempo de assentamento, de consolidação, para que a obra de Chamie seja pesquisada, estudada, entendida e mais valorizada. O fato de o próprio acervo pessoal dele ter sido incorporado, há dois anos, à coleção do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) deve contribuir para isso. O processo de digitalização deve começar no primeiro semestre de 2017.

Se, quando o pai havia acabado de morrer, era impossível para Lina pensar em lançar Um Roteiro..., agora a ideia lhe parece mais palpável. “Na época, cheguei até a conversar sobre o assunto com algumas pessoas, mas não conseguimos. O resumo daquele momento é que a ausência dele era maior do que a presença”, disse. “Quem sabe no início do ano que vem, quando Lavra Lavra completa 55 anos...”

Em um pôster que se tornaria quadro e enfeitaria, até o fim, o corredor de seu apartamento nos Jardins, a foto de um Chamie ainda na casa dos 20 anos convidava para o lançamento de Lavra Lavra – dia 28 de fevereiro (de 1962), em um auditório na Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. Os drinques, conforme atesta o cartaz, seriam servidos a partir das 20h. Meia hora mais tarde vinha o momento para as “considerações” – as do poeta e as para o poeta – da obra. Desta vez, Lina pensa em algo que inclua um debate e uma homenagem à carreira do pai. “E que sua obra sobreviva ao tempo.”

Para celebrar os cinco anos da morte do então decano entre seus docentes, a ESPM realizou, em agosto, a Ocupação Mário Chamie, uma série de exposições e eventos em homenagem ao criador da práxis. Foi nessa ocasião, como convidada de honra do evento, que Lina imaginou pela primeira vez utilizar sua arte – o cinema – para também falar sobre o pai. “Nasceu ali meu olhar para a poesia dele enquanto objeto fílmico”, afirmou a cineasta. “Foi a primeira vez que eu vislumbrei um filme não sobre o meu pai, mas sobre a poesia do meu pai. Deu vontade de materializar isso.”

Este senhorzinho, o tempo. Que tudo resolve, a seu modo. Capaz de transformar luto em saudade, pode fazer com que a obra de um poeta permaneça viva – e tenha seus desdobramentos. Quem sabe Um Roteiro... deixe de ser uma coleção de livros encaixotados – e alguns exemplares guardados, há quase cinco anos, em estantes privilegiadas como a minha – e possa ser lançado, de fato. Quem sabe Lina filme a poesia de seu pai. Quem sabe. “É preciso respeitar o tempo” foi uma das primeiras frases que a cineasta disse, quase um mês atrás, ao aceitar conversar sobre o livro desconhecido de Mário Chamie, o livro que Mário Chamie escreveu mas não teve tempo para vê-lo pronto. O livro que existiu, existe – mas ainda precisa de leitores para existir, de fato, enquanto livro. Haverá tempo.

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