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Terra de quem?

Alec Luhn - FOREIGN POLICY

21 Junho 2014 | 16h 00

Diferentes imagens dos rebeldes pró-Rússia, entre defensores de uma Ucrânia Oriental independente e senhores da guerra marcando território

Evgeniy Maloletka/AP
A woman holds a map of Ukraine divided into two parts, the eastern carrying the name Novorossia, or New Russia, during a rally in support of peace in Donetsk, eastern Ukraine, Wednesday, June 18, 2014. Hundreds of miners went on a protest walk through the streets of central Donetsk on Wednesday, trying to express support for a peaceful resolution to the eastern Ukraine conflict, ongoing for almost four months. (AP Photo/Evgeniy Maloletka)

Numa recente tarde ensolarada em Donetsk, Vadim Kerch atendia num escritório escuro do ex-QG do serviço de segurança da Ucrânia, ocupado desde o mês passado por um grupo de rebeldes que chamam a si mesmos de Exército Ortodoxo Russo. Kerch é um de seus dois comandantes.

Um morador local pedia ajuda. No fim de maio, homens armados que disseram fazer parte do levante pró-Rússia tomaram seu carro na cidade vizinha de Makeyevka e em seguida telefonaram para saber quanto ele estava disposto a pagar para tê-lo de volta.

Entre as chamadas no celular, Kerch disse ao solicitante que fosse logo ao ponto. Um dos seis rebeldes armados com Kalashnikovs reunidos num círculo bagunçado em torno da escrivaninha informou que ao menos 46 veículos tinham sido requisitados em Makeyevka. Finalmente, Kerch prometeu ainda naquele dia devolver o carro ao reclamante. “Hoje é um dia de encheção, não de guerra”, brincou.

Quando manifestantes pró-Rússia ocuparam o edifício do governo regional de Donetsk, em abril, diferentes grupos e unidades rebeldes disputaram cada um dos 11 andares. Desde então, esses grupos irregulares foram eclipsados por três facções armadas poderosas: o Exército Ortodoxo Russo, o Batalhão de Vostok e a Oplot. Cada uma delas é construída em torno de um comandante influente que investe seu tempo não apenas na guerrilha contra as forças de Kiev, mas também na administração de uma justiça austera e na detenção de civis, às vezes para usá-los em trocas de prisioneiros. Cada grupo tem centenas de homens, incluindo voluntários russos, e armamento pesado. Numa visita recente à base do Vostok, vi quatro veículos de combate, dois canhões antiaéreos, granadas impulsionadas por foguetes, e mísseis superfície-ar.

Seriam esses comandantes a espinha dorsal de uma Ucrânia Oriental independente e em ascensão ou senhores da guerra de poder cada vez maior, preparando seu território para o que quer que venha a seguir?

Até agora, a operação “antiterrorista” de Kiev para retomar o leste da Ucrânia uniu os líderes rebeldes na defesa das autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk. Eles veem o novo governo de Kiev como um fantoche americano, dominado por ultranacionalistas e “fascistas”, e pedem à Rússia que envie soldados.

O Ministério da Saúde da Ucrânia disse na semana passada que pelo menos 270 pessoas morreram no leste do país desde o início da operação militar, em abril, embora esse número já tenha aumentado para pelo menos 330. Mas os esforços do presidente Petro Poroshenko para impedir a violência, incluindo a promessa de um cessar-fogo se os rebeldes concordarem em depor suas armas, podem em breve testar quanto esses comandantes estão dispostos a se subordinar a uma autoridade superior. Ainda não se sabe com clareza a quem eles são leais - ao governo russo, a algum oligarca local, às repúblicas populares ou simplesmente a si mesmos.

Dos grupos, o Vostok é o mais bem preparado para a batalha, liderado por Alexander Khodakovsky, um homem ponderado de cbeça raspada e cavanhaque que já comandou uma unidade das forças especiais. A terceira das grandes forças armadas de Donetsk é a Oplot, organização cívica e clube de artes marciais mistas que defende um estilo de vida saudável e o nacionalismo pan-eslávico, transformado numa milícia em Donetsk sob o comando de Alexander Zakharchenko, um ex-mecânico sarcástico com barriga de cerveja e pele bronzeada.

Mas há outros senhores da guerra se fortalecendo. Igor Girkin, conhecido pelo nome de guerra Strelkov e acusado pelo governo ucraniano de ser agente da espionagem russa, controla a cidade sitiada de Sloviansk, onde jornalistas foram sequestrados e dois rebeldes de grupos adversários executados recentemente por ordem dele. Na região vizinha, Lugansk e várias outras cidades estão sob o controle do Exército do Sudeste, cujo fundador, Valery Bolotov, viajou recentemente à Rússia para se recuperar de uma tentativa de assassinato.

Várias outras cidades menores na região estão sob o controle de comandantes poderosos, de Igor Bezler - que foi tenente-coronel do Exército russo e teria atuado no serviço de espionagem - em Gorlovka, até um grupo de cossacos russos em Antratsyt. Bezler, conhecido pelo apelido de Bes (demônio), foi visto recentemente num vídeo no qual parecia executar dois agentes da espionagem ucraniana à frente de um pelotão de fuzilamento (alguns analistas dizem que o vídeo pode ser encenação).

Um momento simbólico da transição dos grupos desorganizados de homens armados com porrete para milícias bem armadas ocorreu no final de maio, quando membros do Batalhão Vostok expulsaram do prédio do governo regional de Donetsk todos os rebeldes que não fizessem parte do governo autoproclamado. Muitos viram nesse tenso impasse uma jogada do Vostok para se estabelecer como principal força em Donetsk, mas Khodakovksy disse que a “demonstração de força” foi um efeito colateral. De acordo com ele, o verdadeiro objetivo era castigar saqueadores que tinham levado bebidas alcoólicas e outros artigos de um supermercado.

Um surto de saques que atingiu o leste da Ucrânia nas semanas mais recentes posicionou os comandantes das milícias como árbitros definitivos de suas áreas. Strelkov chegou a ordenar o fuzilamento de dois de seus homens por “saque, assalto à mão armada, sequestro e abandono do posto de batalha”, de acordo com uma ordem de execução publicada na internet.

A zona rural do leste da Ucrânia é hoje um território sem lei cheio de postos de controle comandados por rebeldes pró-Rússia e forças do governo ucraniano, enquanto as cidades mantiveram certo grau de ordem. Mas os três comandantes das milícias de Donetsk afirmaram que a criminalidade está aumentando.

“Pegamos saqueadores todos os dias”, disse o comandante da Oplot, Zakharchenko. “Roubam carros, assaltam pessoas, furtam lojas, provocam.” A maioria dos policiais declarou lealdade à nova República Popular e não tem nenhum poder diante dos milicianos fortemente armados da região.

Kerch disse que os policiais foram desmoralizados pelo movimento rebelde. “A polícia está acostumada a lidar com criminosos, mas agora há muitas pessoas com metralhadoras pela cidade e é claro que nem todos pensam em primeiro lugar no bem da pátria”, disse ele. “Bandidos da República Popular de Donetsk que não estavam por aí antes passaram a usar os símbolos do grupo e assaltar pessoas.”

Para coibir tais atos, milícias rebeldes patrulham dia e noite. Em Donetsk, os infratores não são fuzilados, disse Khodakovsky, embora possam ser humilhados, como os dois mostrados num vídeo varrendo calçadas usando cartazes dizendo “sou um ladrão”. Mas Kerch disse que execuções podem vir a ocorrer no caso de uma guerra.

O surto de sequestros e detenções nas áreas controladas por rebeldes revela o lado mais sombrio da justiça dos vigilantes, incluindo a distribuída pelos comandantes rebeldes. Relatórios das Nações Unidas, da Organização pela Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e da Human Rights Watch indicaram que o número de sequestros no leste da Ucrânia está aumentando. Jornalistas, cidadãos locais e monitores da OSCE foram feitos reféns. A organização local de defesa dos direitos humanos, Prosvita, calculou recentemente que 200 pessoas estejam atualmente detidas em condições ilegais, número confirmado por Kerch. Zakharchenko disse que a Oplot mantém, sozinha, entre 40 e 50 prisioneiros.

Um membro da comissão eleitoral de Donetsk que preferiu se manter anônimo disse ter sido detido com três amigos três dias antes da eleição presidencial de 25 de maio, sendo mantidos por seis dias no porão do edifício do serviço de segurança que o Exército Ortodoxo Russo transformou em quartel-general. Eles foram interrogados, espancados e torturados com choques elétricos. O homem disse que seu principal interrogador tinha um forte sotaque russo.

Kerch disse que mantinha prisioneiros, incluindo dois “saqueadores” que tinham roubado o carro do morador de Makeyevka (segundo ele, o carro foi devolvido). O Exército Ortodoxo Russo também deteve Nikolai Yakubovich, ativista pró-Kiev e assessor do conselho de segurança da Ucrânia, trocando-o por prisioneiros rebeldes.

Dmitry Verzilov, membro da comissão eleitoral e vereador em Donetsk, disse ter sido detido por horas quando foi conversar com líderes rebeldes sobre reféns. Foi jogado no porão do edifício do governo de Donetsk, onde contou 83 prisioneiros. Um porta-voz da República Popular de Donetsk negou que houvesse prisioneiros no prédio.

Em outro indício da ausência cada vez mais completa de lei, Maxim Petrukhin, assessor do presidente da República Popular de Donetsk, Denis Pushilin, foi metralhado de um carro domingo em pleno dia, no centro da cidade. Pushilin disse que os responsáveis eram “agentes de Kiev”.

Líderes da República Popular de Donetsk disseram que cada milícia se encarregaria de supervisionar o policiamento e operações militares de determinadas áreas. Mas os comandantes dizem que ainda não há separação clara das responsabilidades, e todas as milícias continuam agindo como força da lei por conta própria. Suspeita-se que as três unidades principais de Donetsk trabalhem com o oligarca local Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia e aliado do ex-presidente Viktor Yanukovych. Milicianos impediram uma multidão furiosa de invadir a residência de Akhmetov, protegendo-a por dias. Os líderes das milícias disseram que seus homens apenas tentavam impedir a desordem.

Os laços das milícias com o Kremlin também são pouco claros. Mark Galeotti, professor de assuntos globais da Universidade de Nova York e especialista nos serviços de segurança russos, diz que Khodakovsky era conhecido como oficial do tipo “próximo de Moscou” nas forças especiais ucranianas, onde era notória a presença de agentes russos. Gromov, de Lugansk, foi fotografado recentemente com o nacionalista russo Vladimir Zhirinovsky, membro do Parlamento Europeu. Mas os três comandantes de Donetsk negaram ter elos diretos com o Kremlin e disseram ter obtido suas armas de instalações militares capturadas. Kiev acusou a Rússia de enviar homens e armas ao leste da Ucrânia, incluindo um par de tanques que teria atravessado a fronteira no dia 12 de junho. Os rebeldes dizem ter roubado os tanques de um posto militar.

Se os líderes militares da rebelião recebem dinheiro da Rússia, é provável que seja de oligarcas nacionalistas como Konstantin Malofeev, que já contratou os serviços do comandante Strelkov, de Sloviansk, e do primeiro-ministro da República Popular de Donetsk, Alexander Borodai, para sua firma, de acordo com reportagens do jornal independente Novaya Gazeta.

Os líderes das milícias de Donetsk dizem ser leais à República Popular de Donetsk, embora esse elo pareça informal e, em certos casos, tênue. “A República Popular de Donetsk não existe; tudo isso não passa de um projeto que não consigo compreender”, disse Khodakovsky. “Não votei no referendo (pela independência). Não escolhi isso. Havia apenas uma escolha: estar ao lado do meu povo ou estar contra ele. A Rússia é o meu país. Foi lá que servi no “exército. Meus parentes moram lá.” O objetivo final deles também é vago. Por enquanto, eles se mantêm unidos num conflito contra aquilo que enxergam como um governo injusto e agressivo em Kiev.

Embora Poroshenko tenha prometido conceder anistia aos rebeldes que depuserem armas, ele excluiu os que cometeram crimes graves. Os líderes milicianos podem esperar mais perseguição do que anistia caso Kiev retome o leste. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Alec Luhn, jornalista, americano radicado em Moscou, colabora com publicações como The Guardian, The Nation, Foreign Policy e The Moscow Times