CARLO ALLEGRI/REUTERS
CARLO ALLEGRI/REUTERS

Terrorismo GoPro

Em um mundo globalmente unificado, os atentados recentes na França filiam-se antes à lógica da sociedade do espetáculo que à tese caduca do ‘choque de civilizações’

Gabriel Zacarias, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

Imaginemos um terrorista “típico”, um jihadista islâmico de barba longa trajado de túnica e turbante, decidido a subjugar o Ocidente em nome do Profeta, mas que, em vez do tradicional Kalashnikov, empunhe um “pau de selfie”. A imagem poderia ter saído da mente de um dos caricaturistas do Charlie Hebdo, brutalmente assassinados no dia 7. Mas essa caricatura não teria sido um retrato tão fantasioso dos algozes. No carro dos irmãos Kouachi, responsáveis pelo ataque ao jornal francês, encontrou-se, além de molotovs, uma câmera GoPro. Um dos reféns que escapou à invasão do mercado kosher em Porte de Vincennes, ocorrida dois dias após o ataque ao Charlie Hebdo, testemunhou que o terrorista Amedy Coulibaly também estava munido de uma câmera GoPro durante o ataque. A existência de imagens ainda não foi confirmada pela polícia, mas sabemos que outro vídeo de Coulibaly chegou a ser postado na internet. O vídeo, embora amador, foi cuidadosamente editado. Ao longo da peça, Coulibaly usa ao menos quatro figurinos diferentes, procurando encarnar a imagem clichê do jihadista, quer em sua dimensão militar - com colete à prova de balas e fuzil - quer em seu aspecto religioso -, sentado em pose de recolhimento com túnica branca e turbante. 

O uso de vídeos por parte de terroristas não é decerto uma novidade, tendo sido um método frequente de reivindicação de autoria de atentados. Evoluíram com o tempo, transformando-se em verdadeiras peças de propaganda, cada vez mais bem elaboradas, e crescentemente difundidas na internet. É curioso que homens que manejam métodos tão modernos de propaganda possam ser vistos ainda como representantes de um mundo arcaico. E que ainda haja teóricos que julguem pertinente falar em “choque de civilizações” em um mundo globalmente unificado em torno dos mesmos processos de produção e consumo de mercadorias e imagens. Os atentados recentes na França são mais uma vez a prova da caducidade da clivagem Oriente/Ocidente. Os autores dos ataques são todos nascidos e crescidos na França e, a julgar pelos testemunhos de amigos e parentes citados na imprensa francesa, possuíam hábitos inequivocamente ocidentais. A própria ideia de um ataque ao semanário satírico já estava na cultura popular francesa. Em canção coletiva de 2013, o rapper Nekfeu pedia “um auto de fé contra esses cachorros do Charlie Hebdo”, provocando uma polêmica que o rapper amador Chérif Kouachi não deve ter ignorado.

Apesar disso, os acontecimentos em Paris foram tratados como um “11 de Setembro” francês, um ataque islâmico vindo de fora e arquitetado por organizações terroristas do Oriente Médio. Se os fatos resistem a essa narrativa, alguns parecem sugerir que mudemos os fatos. Assim, em texto publicado no New York Times de 18 de janeiro, a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, que nunca foi muito afeita à realidade, aponta como uma “imperiosa necessidade”, como primeira medida a ser tomada, a anulação da nacionalidade francesa dos jihadistas. Transformar terroristas já mortos em apátridas dificilmente vai ser de alguma serventia à polícia francesa, mas pode ajudar muito aos teóricos do “choque de civilizações”. A ideia subjacente a tal proposta é a de que o pertencimento etnorreligioso teria sido mais importante para os terroristas do que o pertencimento nacional. Cai-se mais uma vez no lugar comum de que os muçulmanos recusam a assimilação da cultura francesa por manterem-se atrelados a uma cultura originária de base religiosa. A ideia de que existiria uma forma de pertencimento sobreposta à identidade nacional não é inteiramente falsa. Mas, ao contrário do que normalmente se afirma, isso não se deve a um déficit de modernidade. Não se trata da reminiscência de uma forma de coletividade tradicional, anterior aos Estados nacionais, mas sim do desenvolvimento de uma forma de identificação mais moderna do que o nacionalismo. 

Um traço característico da modernidade é o de produzir novas formas de pertencimento que não são mais determinadas pela inserção concreta numa coletividade. Como notara o historiador Benedict Anderson, as nações modernas foram grandes “comunidades imaginadas”. O desenvolvimento da indústria cultural e dos novos meios de comunicação ensejou, porém, novas formas de identidades simbólicas, e comunidades imaginadas passaram a se tecer em torno a produtos culturais (como os fã-clubes de celebridades, ou as torcidas organizadas de times de futebol). O aparecimento da internet tornou esse processo mais evidente, permitindo que as comunidades se instalassem no âmbito virtual. Não por acaso, a primeira rede social de sucesso, o Orkut, era estruturada em “comunidades”. A contemporaneidade parece, assim, ter dado razão a Guy Debord, autor de A Sociedade do Espetáculo (1967), que já nos anos 1960 havia percebido que a imagem adquirira uma função de mediação das relações sociais. O espetáculo veio ocupar a terra arrasada deixada pelo avanço do capitalismo, que rompera os elos sociais tradicionais. A vida em comum deixou de se estabelecer a partir das relações diretas e a identificação simbólica passou a ser determinada por um conjunto de representações que não emana mais da prática cotidiana. Daí essa identificação poder ser transversal às reais diferenças geográficas e sociais. 

O terrorismo na França deve ser entendido nesse mesmo quadro. O que move os jihadistas do Ocidente não é o pertencimento a uma comunidade de imigrantes arraigada na tradição da religião islâmica. Essa ideia é falsa. A França recebeu grande parte de seus imigrantes entre as décadas de 1950 e 1970, período em que passara por intenso desenvolvimento econômico. Os muçulmanos dos quais se fala hoje são na verdade filhos e netos de imigrantes, nascidos e crescidos na França, muitas vezes em ruptura com os preceitos religiosos dos pais. Esse era o caso dos responsáveis pelos ataques recentes, que tinham um perfil que poderia se confundir com o de muitos jovens de periferia, em qualquer grande cidade capitalista. Fumavam, bebiam, escutavam rap; o fracasso escolar e a dificuldade de ascensão social os levaram ao crime comum e ao encarceramento. Não haviam herdado os costumes religiosos dos pais e não eram adeptos de práticas tradicionalistas. Um novo interesse no islamismo só foi despertado em Chérif Kouachi pelas imagens da invasão no Iraque, e esse acabou preso em 2005 quando ambicionava partir para o país para combater os norte-americanos. Já Coulibaly, que jamais pisara no Oriente Médio, dizia em seu vídeo ter “jurado fidelidade ao califado desde sua proclamação”, referindo-se ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EI) que se autoproclamou um califado em junho de 2014.

O EI se tornou hoje a grande pátria do jihadismo espetacular. Jovens de toda a Europa e também dos Estados Unidos partem em direção à Síria para engrossar suas fileiras. Em proporção a sua população muçulmana, a Bélgica, por exemplo, oferece cem vezes mais soldados ao EI do que o Egito. E não se trata de um simples retorno às origens por parte dos filhos de imigrantes. Segundo a polícia francesa, 22% desses jihadistas são recém-convertidos. Nada disso pode ser explicado pela suposta manutenção de moldes tradicionais de pertencimento religioso. Ao contrário, o que encontramos aqui é o mesmo fenômeno de identificação espetacular, o pertencimento sendo construído pela adesão imaginária a uma comunidade que existe prioritariamente como representação. As imagens subjetivas produzidas pelas câmeras GoPro não são apenas parte de uma “guerra de imagens”. Elas são também necessárias porque experiências motivadas por uma identificação imaginária já são subjetivamente vividas como uma emulação da imagem. O espetáculo desemboca aqui numa inversão extrema, não se tratando mais de filmar o vivido, mas de viver a imagem. Mais uma vez, não há aqui nenhum choque de civilizações. Em muitos pontos os novos jihadistas são semelhantes aos atiradores loucos que se tornaram comuns nos países mais ricos do Ocidente. À época do massacre da escola de Columbine, nos Estados Unidos, muito se discutiu sobre a possível influência dos jogos de videogame sobre os atiradores. Hoje, o EI utiliza câmeras GoPro acopladas aos fuzis precisamente para produzir imagens de propaganda semelhantes às dos jogos de tiro em primeira pessoa. Diferentemente do puro simulacro do entretenimento, a jihad vende uma perversa promessa de realidade. 

O slogan publicitário da GoPro, “Seja um herói”, poderia ser também o da nova jihad. Uma heroicização que a cobertura dos ataques só faz crescer, apresentando os assassinos como homens destemidos capazes de pôr de joelhos uma nação. A voz dissonante havia sido até então justamente o Charlie Hebdo, que em diversas ocasiões havia captado o ridículo dos jovens jihadistas europeus. Talvez o verdadeiro motivo que fez do Charlie um alvo não tenha sido a propalada interdição de representar Maomé, mas sim a necessidade de preservar a imagem grandiloquente e heroica da jihad. 

GABRIEL ZACARIAS É DOUTOR EM ESTUDOS CULTURAIS PELAS UNIVERSIDADES DE PERPIGNAN (FRANÇA) E BÉRGAMO (ITÁLIA) COMO MEMBRO DO PROGRAMA ERASMUS MUNDUS, DA UNIÃO EUROPEIA. VIVE EM PARIS

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