Teste de resistência

A Olimpíada do Rio serviria para unir um País cindido pelo processo de impeachment? Victor Melo, professor da UFRJ, desidrata essa ideia. Para ele, o potencial do evento é outro: reforçar a identidade da Cidade Maravilhosa, “berço do esporte no Brasil”. Resta saber se ela suportará as ressacas

Mônica Manir / RIO, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2016 | 16h00

Carioca convicto de quatro encarnações, sabedor do poder de sua cidade para fazer espetáculos, nem assim Victor Melo incorporou a ideia de que a Olimpíada do Rio vai amalgamar os ânimos que dividiram o País. “Sou historiador, não futurólogo, mas o passado mostra que megaeventos esportivos não acabam com tensões sociais.”

Quem vendeu essa conciliação foi o Comitê Olímpico Internacional (COI), logo depois de a Câmara passar ao Senado o bastão do impeachment da presidente Dilma. “Dizer que os Jogos vão unir o Brasil é coisa de quem está fazendo propaganda de seu principal produto”, diz o fundador e coordenador do Sport – Laboratório de História do Esporte e do Lazer, na UFRJ.

Nesta entrevista, feita em sua maior parte no câmpus da Praia Vermelha, Melo mais se preocupou em resgatar promessas não cumpridas da campanha olímpica, como a despoluição da Baía de Guanabara. Analisou ainda o clima de tensão com a queda de parte da Ciclovia Tim Maia, um dos legados dos Jogos. Também esboçou o cenário da política fluminense, clivada entre Freixos e Bolsonaros, e se aprofundou na memória esportiva da cidade, seu objeto de estudo por mais de 20 anos, que culminou em dois livros: Cidadesportiva (Relume-Dumará) e Rio Esportivo (Casa da Palavra).

Melo diz que o esporte brasileiro nasceu no Rio. Na paz, aberto ao diálogo, acompanhe os argumentos dele nas próximas linhas.

Nessa semana, o COI afirmou que os Jogos Olímpicos serão uma oportunidade de unir o povo brasileiro. Acha que eles têm esse potencial todo?

Tenho dúvida disso. A relação entre esporte e política não é linear. Claro que as pessoas vão festejar, mas não vão se esquecer do seu cotidiano. Não fizeram isso na Copa do Mundo, não fizeram nunca, aliás. Um exemplo foi a Olimpíada na Cidade do México em 1968, quando ocorreu o Massacre de Tlatelolco (a dez dias do início dos Jogos, cerca de 300 pessoas que protestavam contra a instabilidade política do País foram mortas pelas forças militares). O COI é uma empresa, e não há nenhum mal nisso. Mas, como tal, está destinada a fazer propaganda do seu principal produto. Esse espírito olímpico que tenta passar é muito mais esgrimido no campo do discurso do que na prática.

Mais que Olimpíada no Brasil, será a Olimpíada do Rio. Que discurso a cidade tem ouvido?

Primeiro, o de que será uma festa, e isso é muito provável de acontecer. O Rio sabe usar o espaço público, é por excelência o que a gente sabe fazer. Outro discurso é o do legado, e isso, na minha opinião, só aparece nas falas dos organizadores por pressão popular. Não há como negar que a cidade terá algum ganho de mobilidade urbana, mas acho que a gente perdeu a oportunidade de fazer mais e teremos problemas no futuro por causa dessa falta de cuidado. Flagrante disso é a despoluição da Baía de Guanabara, prometida desde a ECO-92 e um compromisso de campanha olímpica. Se é um legado que foi abandonado, sem maiores explicações, por que acreditar que os outros serão cumpridos?

O desabamento de parte da Ciclovia Tim Maia, obra entregue como legado dos Jogos, pode aumentar a cisma quanto aos frutos do evento?

Acho que, nesse clima conflagrado em que a gente está vivendo, a desconfiança aumenta. Vamos esperar a perícia, mas uma obra que custou quase R$ 45 milhões e que acabou de ser inaugurada não deveria cair na primeira ressaca, sendo que todo mundo sabe que aquela área é atingida por esses movimentos da natureza. Não é que a ciclovia não deveria ter sido feita, tinha de ter sido bem-feita. Não devemos jogar fora o bebê junto com a água da bacia, entende? E não podemos deixar que isso gere sucessivamente uma sensação de fracasso e pessimismo.

O humor do carioca já não estaria azedado diante dos problemas que o Rio vem enfrentando nas áreas de saúde, educação, mobilidade, segurança?

A população reconhece este momento delicado, embora sem noção clara do que é de responsabilidade federal, governamental ou municipal. Sabe que vai receber a Olimpíada com um aumento da violência, tanto do lado de quem está contra a lei quanto de quem supostamente deveria defendê-la. A falta de dinheiro afeta a saúde. Quase 70 escolas estão ocupadas. Um setor enorme do funcionalismo público não recebe salário ou recebe atrasado, e aposentados não têm perspectiva de receber os vencimentos. E nessa semana correu um boato de que, acabados os Jogos, a prefeitura fará igual ao Estado: não vai ter dinheiro para pagar salários.

Isso impactaria as pretensões políticas de Eduardo Paes?

Vai depender de como ele vai gerenciar isso, o jogo político no Rio é muito confuso. Paes provavelmente fará um discurso no sentido contrário, tem pretensões de ser presidente da República, e acho que a mídia em geral seguirá numa linha celebratória, porque também tem interesse financeiro nisso. Mas, independentemente da sua veracidade, surgem esses muxoxos de quem vive uma turbulência enorme no cotidiano. Lembre que, passados os Jogos Pan-Americanos, tivemos a pior epidemia de dengue da história do Rio. Morreu gente pra cacete. E a prefeitura sofreu intervenção federal porque usou tudo o que tinha no Pan. No final não ficou nada pra gente, nada. Adoro festa, sou carioca. Agora, alguém paga esse preço, e somos nós.

Por que diz que o jogo político no Rio é confuso?

Falo do jogo político no Estado. Tem que lembrar que, desde 1836, a cidade foi independente do Estado, e isso até 1975, quando deixou de ser Guanabara para virar capital do Rio de Janeiro. O que acontece aqui é bem distinto do que acontece no interior. Além disso, ideologicamente, o Estado é clivado. O deputado estadual mais votado no País nas últimas eleições foi o Marcelo Freixo, do PSOL. Como deputado federal, quem recebeu mais votos do Estado foi o Jair Bolsonaro, do PSC. É dividido demais.

Na sua tese, você afirma que a identidade carioca passa pela prática esportiva. Continua assim?

Sim, ser carioca é também ser esportivo, no sentido de ter relações mais informais, se relacionar de forma mais espontânea. Mas avanço dizendo que o nascimento do esporte no Rio no século 19 é o nascimento do esporte no Brasil como um todo. Foi o argumento que a população encontrou para estabelecer uma relação com a modernidade. E a história do Rio é um pouco a história da Nação na medida em que fomos a primeira capital do Brasil independente. Meu trabalho é descortinar como os espaços esportivos se articularam na construção da Nação, seja na política, na economia, na cultura.

Qual o nosso primeiro esporte?

O turfe. O primeiro grupo esportivo do País foi fundado aqui em 1849. É o Club de Corridas. Em 1851, tem-se a criação da Sociedade Recreio Marítimo, primeiro clube de remo, mostrando mudança no perfil da cidade. Ela cresceu primeiro para o interior. As praias eram abandonadas, a relação com o mar era distante, como da população brasileira em geral.

Por quê?

Primeiro, por pudor. A exposição corporal era inaceitável. Segundo, por convicções religiosas, medo do mar. É a partir dos anos 1850 que o banho de mar se desenvolve como algo bom para a saúde. Ali começa certa sociabilidade nas praias, as pessoas passam a usar o mar também para entretenimento – uma influência dos britânicos, que tinham vindo com a família real e moravam à beira-mar, em Botafogo, o que era um ato de ousadia. Daí para o desenvolvimento de práticas esportivas foi rápido, mesmo porque tínhamos um dos portos mais importantes do mundo no século 19, o que acentuou o fluxo de comércio e cultura. O Rio funcionava como caixa de ressonância para todo o País.

 

Ele continuou ditando moda depois da mudança da capital?

Obviamente perdeu a centralidade econômica e cultural. Mas, como afirma o brasilianista Richard Morse, “só não tiro do Rio de Janeiro a centralidade sentimental do Brasil”. De qualquer forma, depois de 1960, a cidade continua um polo importante de lançamento de modas esportivas, como o surfe, que combina com o grande arquétipo do carioca, o cara que perde o trabalho, mas não perde uma onda. Isso cruza com movimentos contraculturais na cidade, como o uso de drogas, o sexo livre. E depois com os esportes na natureza. No mundo inteiro, quando as cidades crescem muito, se constrói uma idealização de natureza em oposição à cidade opressiva. Nessa época, todo mundo tinha uma samambaia. As pessoas fugiram pro campo, foram praticar montanhismo, voo livre.

E quando começa o culto ao corpo?

Começa na década de 80, com o boom das academias, que também tem no Rio um palco central. A ginástica é uma técnica de controle corporal. As pessoas têm de ser magras, fazer dieta. Isso não estava colocado nos anos 70, ali as pessoas tinham de ser felizes. As décadas sempre se alternam nas simbologias. Depois de uma década de muita loucura, a seguinte é conservadora. Aliás, estamos vivendo uma década péssima. Cada coisa que está voltando...

E qual é o perfil da contemporaneidade?

Vivemos um mosaico de opções. Tem a onda do tai chi, da ioga, da malhação braba e tem a mistura delas, a power ioga. Num lugar como o Rio, há possibilidade pra tudo isso, apesar do desenvolvimento das milhas domésticas. As pessoas estão ficando mais em casa. Daí a redução de uma tradição clubística. Ninguém sai de casa nem para ir ao clube. Os poucos clubes que restaram estão mal das pernas.

É o fenômeno dos condomínios?

Sim, mas os clubes são portadores de uma memória. E a memória de uma cidade também passa pela memória de como ela se divertiu e praticou atividade esportiva. Isso é tão importante quanto a memória política. Onde é que a gente fez esporte, não faz mais e por que não faz. Isso aponta para um projeto de futuro porque essa deterioração do tecido urbano incide também sobre a nossa possibilidade de diversão.

Pensando novamente no legado dos Jogos, eles podem aumentar a autoestima do carioca?

A autoestima do carioca já é alta demais (ri). Tem a ver com a construção da capitalidade. Por mais que tirem isso, é uma identidade forte. Mas ele também é muito cáustico com suas coisas. Vinicius de Moraes já dizia: “O carioca tem um humor adstringente como os cajus”.

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