Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Tiago Ferro expõe em tom ficcional a dor real da perda da filha

Em 'O Pai da Menina Morta', autor trabalha com tragédia que o acometeu para fazer autoficção

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

14 Abril 2018 | 16h00

O Pai da Menina Morta, romance de estreia do escritor, editor e pai paulistano Tiago Ferro, constitui um experimento em que a voz narrativa (e autoral) vai se espraiando como que a formar um rizoma (um mosaico) de memórias e angústias, lirismo e dúvida. Caminhando sempre pelo interstício que enreda realidade e ficção, a dimensão da realidade ficcional acompanha o hibridismo da obra, conforme depreendemos da possível chave interpretativa que o labirinto do autor-personagem Tiago Ferro propicia: “Ele pensa em árvores que crescem se enrolando no tronco de outras árvores”. 

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O núcleo irradiador da experiência não se constitui a partir da vontade e do destemor de uma personagem aventureira que, ao se descentrar pelo mundo, se descobre subjetivamente enriquecida ao fim da jornada. Ao romance de formação, o autor-personagem contrapõe o luto (a fratura da experiência) como o marco para a sua deformação que tateia como um romance, já que, como nos revela Tiago Ferro logo na primeira página de sua obra, “Minha filha morreu no dia 26 de abril de 2016”.

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As noções de descontinuidade e abismo nos ajudam a configurar um roteiro de leitura entre fragmentos díspares que, ao longo da obra, vão se sobrepondo como a mimese do mais profundo trauma: “Eu não quero ser O Pai da Menina Morta. Eu sempre serei O Pai da Menina Morta. Não estou procurando ou exigindo qualquer tipo de justiça. Eu simplesmente aceito a dor aguda na ausência. No vazio. Nós também somos feitos de espaços em branco. Nosso corpo não é uma massa densa. É preciso lembrar disso. (...) Eu sinto profundamente cada um desses espaços. São abismos internos”. 

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Ainda que ele não exija qualquer tipo de justiça, os momentos mais instigantes da obra são aqueles em que o inconformismo diante da morte de uma criança que sequer pôde esboçar seus sonhos exige, sim, explicações do núcleo (supostamente) vazio e indiferente do cosmos: “Por que o coração parou? Qual a causa? Lázaro realmente ressuscitou? Por que Jesus perdeu tempo transformando água em vinho em vez de salvar uma criança?” 

A tese da realidade de sua “esposa” Lina e a antítese da ficção de Alice e do Chapeleiro Maluco, de Alice no País das Maravilhas (1865), de inglês Lewis Carroll, faz com que a síntese própria à realidade ficcional (e transcendental?) expanda a vida para além dos limites que estabelecemos como o fim do universo: “Alice: Chapeleiro, nunca mais vamos nos ver. Chapeleiro: Vamos, sim. No palácio dos sonhos. Lina: Mas aí não é realidade... Chapeleiro: E quem foi que disse isso?” 

Sintomaticamente, uma foto do primeiro homem a singrar o espaço sideral, o cosmonauta soviético Iuri Gagarin (1934-1968), desponta (precisamente à página 42) como um raio em céu azul em meio aos parágrafos desconexos pela saudade da filha. A bordo da espaçonave Vostok 1, Gagarin orbitou ao redor da Terra durante 108 minutos. Ao atingir a altura máxima de 315 km, o cosmonauta teria exclamado a seguinte frase tão singela quanto absoluta: “A Terra é azul!” Como Gagarin configura um verdadeiro marco para o imaginário de nosso autor-personagem, nós bem poderíamos imaginar um breve diálogo entre Tiago Ferro e o cosmonauta: 

Tiago Ferro: Você viu minha filha no espaço azul, camarada Gagarin?

Cosmonauta Iuri Gagarin: Olhei para todos os lados, mas não vi Deus...

Tiago Ferro: Tem certeza, camarada? Você chegou a vasculhar o pó das estrelas sob o tapete persa da Via Láctea?

Lembremos que Gagarin se torna o primeiro homem a singrar o cosmos em uma quarta-feira, dia 12 de abril de 1961 – a filha de Tiago Ferro faleceu em 26 de abril de 2016, uma terça-feira. [É como se o Chapeleiro Maluco sussurrasse para o pai da menina morta: “Nada como um dia após o outro, meu caro”. Ademais, prossegue o Chapeleiro em sua maluquice, ninguém notou que 61 (o “nascimento” do cosmos) é o inverso de 16 (a morte da filha)? Se é assim, Tiago – perguntam o Chapeleiro e Alice em coro –, por que 16 não poderia desaguar em um novo 61?]

Imaginemos, por fim, uma (im)provável réplica ao seguinte trecho de autoria do escritor norueguês Karl Ove Knausgård que o autor-personagem escolheu como epígrafe de O Pai da Menina Morta: “Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para.”

Tiago Ferro: Será? 

*É doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa na Northwestern University 

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