KAI PFAFFENBACH|REUTERS
KAI PFAFFENBACH|REUTERS

Tolerância na torcida

Na atual crise de imigração na Europa, o futebol mostra sua vocação para o multiculturalismo e ajuda a encolher o nacionalismo

Christian Schwartz, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2015 | 16h00

Nos relatos sobre aquele que já está sendo considerado o mais crítico fluxo de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra, a reincidência de uma cena em particular - primeiro numa estação de trem da Hungria onde um grupo de sírios eram impedidos de embarcar, depois numa estação de trem da Alemanha onde outro grupo de migrantes conseguiu chegar - chamava a atenção: as duas pequenas multidões de desesperados esperançosos entoavam em coro: “Alemanha! Alemanha!” Se o cenário fosse, em vez de um campo de batalha por sobrevivência e futuro, uma arena futebolística, com toda a carga simbólica das disputas de vida ou morte a que não raro se entregam as torcidas de clubes e seleções, aqueles refugiados talvez se sentissem mais em casa do que jamais se sentirão na vida real do país que, com alguma sorte, lhes dará asilo.

E, de fato, ao lado das imagens trágicas e dos números alarmantes (350 mil pessoas lançando-se à mortífera travessia do Mediterrâneo, 800 mil pedidos de asilo só na Alemanha, apenas em 2015), algumas das primeiras mãos estendidas aos refugiados foram as de representantes de clubes e torcedores alemães. Os torcedores, em ação coordenada nos estádios, onde exibiam mensagens de boas-vindas. Os clubes, com medidas mais concretas de integração: o Borussia Dortmund, por exemplo, reservou parte dos lugares de seu estádio para que 220 refugiados assistissem a uma partida, enquanto o Bayern de Munique colocou crianças refugiadas para entrar em campo com os jogadores - mesmo Bayern que anunciou que vai oferecer comida, aulas de alemão e abrigo nos alojamentos de suas categorias de base, além de uma doação de ¤ 1 milhão. 

Felizmente, o que tem prevalecido nesses episódios é a vocação do futebol para o multiculturalismo. Apesar de francamente globalizado, ou precisamente em reação a isso, o mundo da bola acolhe e estimula pertencimentos locais, comunitários. E, ao relegar o nacionalismo - discurso primordial na discriminação a imigrantes - a segundo plano, até pela presença maciça e fundamental de jogadores estrangeiros nos elencos, os clubes europeus e suas torcidas se convertem em potenciais ilhas de tolerância no debate público sobre imigração na Europa. O que, claro, não deve implicar que se feche os olhos ao paradoxo - ou, novamente, ao caráter reacionário - de manifestações de racismo e perversões neonazistas abrigadas em algumas dessas mesmas torcidas. 

Mas o fato a destacar aqui é, sem dúvida, a adesão em coro daqueles refugiados à nação da qual desejam fazer parte, como que se somando ao uníssono apoio das arquibancadas à seleção atual campeã do mundo. E haverá simbolismo mais poderoso daquilo que se deseja para os filhos? (o melhor, sempre?) Ao mesmo tempo que campo fértil para a mobilidade social, - seja internamente, em qualquer país com ligas profissionais estabelecidas, seja na seara da exportação de jogadores, embora apenas uma minoria conquiste, de fato, uma vida melhor - também em termos simbólicos o futebol é pródigo quando se trata de reinventar-se, tanto para quem joga quanto para quem torce. 

Na Copa do ano passado, por exemplo, dentre os convocados para as 32 seleções, cerca de 100 jogadores (um a cada dez, aproximadamente) defenderam nos estádios brasileiros uma camisa que não era a de seu país de nascimento. Não mais do que cinco times tinham no elenco apenas jogadores nascidos em seu território nacional - o Brasil entre eles; todos os outros contavam com naturalizados, ou seja, acolhiam ali novos cidadãos pelo que eram, por seus talentos, e não por direito nato (ou quem sabe divino). 

Ora, o mundo moderno é, por definição, esse mundo da liberdade individual. Não se casa mais com alguém escolhido de antemão pela família, nem se é obrigado a seguir a profissão do pai. Não seria, então, natural que se escolhesse também a que país se quer pertencer?

Antes que a comparação pareça leviana, admita-se que nem sempre a questão é de escolha. E a maioria dos sírios e afegãos hoje tentando desesperadamente chegar a um porto seguro na Europa talvez jamais tivesse cogitado a nacionalidade por adesão. O que se costuma esquecer com facilidade é que simplesmente não existe algo como uma primeira nacionalidade “por natureza”.

Na célebre teoria das “comunidades imaginadas”, em que trata em particular do mundo pós-colonial, o historiador britânico Benedict Anderson defendeu que as nações se consolidam a partir da emergência de um fenômeno próprio das modernas sociedades capitalistas: a leitura simultânea, numa língua comum, de jornais e romances por um número crescente de concidadãos. O gesto sincronizado da leitura de jornal - e veja-se a semelhança com o torcer por um time ou por uma seleção - os lançaria numa “realidade” imaginada que é a refração de acontecimentos de interesse comum no raio de alcance da língua de determinada comunidade.

A teoria de Anderson, originalmente pensada como explicação da emancipação simbólica de territórios coloniais no século 19, encontra eco no fenômeno das narrativas pós-coloniais e imigrantes surgidas no final do século passado: o pós-colonialismo, movimento importante a partir dos anos 1980 na literatura e mesmo no cinema, tipicamente encena a história do imigrante a vagar por subúrbios de metrópoles que ama e odeia, como Londres, Paris ou Berlim, as quais por sua vez o aceitam, mas ao mesmo tempo hostilizam, negando-lhe visibilidade e identidade. Ele não é mais paquistanês ou indiano ou norte-africano ou turco, e tampouco recebe o tratamento que um “autêntico” inglês, francês ou alemão mereceria. Mas pode, sim, ser personagem de romances e filmes, ou se projetar como protagonista das narrativas de clubes e seleções de futebol.

Na arena futebolística, a Inglaterra, por exemplo, na mesma década de 1980, assistia à novidade de jogadores de ascendência caribenha começando a chegar com mais frequência ao selecionado nacional. A França, por sua vez, encontrou o auge dessa narrativa na seleção campeã mundial em casa, em 1998. Também a Holanda abraçou em campo sua herança como colonizadora. E há, por fim, o caso notável da Alemanha.

Ainda às vésperas da Copa de 2014, a revista especializada The Blizzard - biscoito fino para apreciadores de ensaios e grandes reportagens sobre o mundo da bola - trazia um texto de Uli Hesse tratando do quanto tem mudado, em anos recentes, o futebol alemão. Hesse ouviu inúmeros profissionais e especialistas, entre os quais o ex-jogador Bastürk. Nascido na Alemanha e destaque em clubes do país, o meio-campista optou por defender a seleção da Turquia, com a qual chegou a uma semifinal de Copa do Mundo, em 2002. “Se a gente olha para 10 ou 15 anos atrás”, observa Bastürk, “era quase impensável que jogadores com background estrangeiro jogassem pela Alemanha. Agora tudo mudou, virou multicultural.”

Eis aí uma versão alemã recente da narrativa pós-colonial (ou simplesmente imigrante, já que não existe, nesse caso, uma relação direta colonizador-colonizado, como na Inglaterra ou na França, mesmo na Holanda): nas palavras de Hesse, a narrativa de um “novo futebol alemão - emocionante, divertido, moderno”. E “multicultural”. 

O que Bastürk vem reforçar: “Muitos da terceira geração (netos dos imigrantes originais) se sentem mais alemães do que turcos. Todos os meus sobrinhos e sobrinhas falam alemão muito melhor do que falam turco”. Ao que se poderia prontamente acrescentar que, muito provavelmente, leem e escrevem apenas em alemão, o que não deixa dúvida quanto a qual comunidade imaginada pertencem pela língua “literária”. “Que mais e mais jogadores com esse background de migração agora escolham representar a Alemanha”, completa Bastürk, “é normal, na verdade. Tinha que acontecer.”

A questão de fundo é a preponderância, ou não, da etnia como fator de nacionalidade no mundo moderno. E outro historiador britânico, Eric Hobsbawm, assim como Benedict Anderson, encara esse elemento como “protonacional”. Vale reforçar, não se trata aqui de negar o frequente cunho racista de manifestações em defesa da exclusividade no pertencimento a nações. O negro Mario Balotelli, um italiano de pleno direito, segue pagando um alto preço por envergar a camisa da seleção de seu país. E, na observação do professor gaúcho Luís Augusto Fischer, “talvez a Itália (como seleção de futebol) seja o último reduto da perversa fantasia da pureza racial”.

Mas vale constatar que, dado o estabelecimento duradouro de instituições políticas (o Estado, principalmente), econômicas (no mercado, trata-se mais de classes que de “raças”) e simbólicas (o letramento e as mídias), não sobra muito espaço real para a exclusão por critérios meramente étnicos. Meramente, claro, pois as expulsões de imigrantes ilegais, sendo antes políticas, ainda assim adotam o racismo como critério de seleção. Porém, esse não é critério a priori para a formação da nação, uma questão sobretudo cultural. “Nacionalidades não são mais primordiais ou monopolistas”, resume Nicola Miller, outro estudioso dos nacionalismos contemporâneos.

A Europa que hoje tenta acolher algumas centenas de milhares de refugiados, com a mobilização de seus clubes e torcedores nessa missão, é terreno fértil para a construção permanente de comunidades imaginadas que são também locais. No dia a dia dessas comunidades, o futebol se expressa mais em termos de “comunitarismo” que de “nacionalismo”, conforme observa o historiador Hilário Franco Júnior: “O nacionalismo futebolístico tem recuado à medida que cresce a percepção de que a emoção e a mobilização cotidianas estão nas comunidades mais do que no denominador comum a elas, que é a nação”. 

Que soma de culturas constituirá uma cultura nacional no século 21? É essa pergunta, tão contemporânea, que permite às pequenas multidões ora despejadas em estações de trem alemãs sonhar, enfim, com uma nova vida. Enquanto aprendem a torcer por Borussia ou Bayern, pois o coro para os jogos da seleção, ao que parece, já veio ensaiado: “Alemanha! Alemanha!”

CHRISTIAN SCHWARTZ É DOUTOR EM HISTÓRIA SOCIAL (USP/CAMBRIDGE), JORNALISTA E TRADUTOR

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