Trash-food

Escândalo da carne golpeia McDonald’s e KFC na China e diz muito sobre controles sanitários locais

Rachel Lu , FOREIGN POLICY

26 Julho 2014 | 16h00

“A carne está verde”, disse um empregado frente a uma câmera escondida. “Ela fede”, emendou outro, entrando na conversa. A validade da carne congelada em questão havia expirado havia sete meses, em novembro de 2013, na ocasião dessa conversa. Mas a peça foi cortada e embalada e uma nova data de validade colocada: junho de 2015. 

A gravação da conversa é uma das provas incriminatórias reveladas por um repórter da Dragon TV, com sede em Xangai, e encobertas pela Shanghai Husi Food, unidade da norte-americana OSI Group, de Illinois, fornecedora global de importantes cadeias de fast-food. (O Osi Group fornece carne para o McDonald’s na China desde 1992 e para a Yum!Brands, empresa matriz proprietária da KFC, desde 2008.)

O escândalo que rapidamente se seguiu envolveu as operações na China do McDonald’s e do KFC, duas cadeias de restaurantes muito populares, o primeiro com 2 mil estabelecimentos no país e o segundo com 4.400. Várias agências de notícias estatais se precipitaram sobre o que ficou conhecido como o escândalo do “yang kuaican” - ou fast-food estrangeiro -, e a estatal Xinhua consagrou uma seção especial ao que chamou de “escândalo da carne estragada”. Um artigo no Global Times, jornal oficial, citou pesquisa online realizada por um website não especificado indicando que 68% dos entrevistados “jamais frequentariam” novamente o McDonald’s, o KFC ou o Subway. O blogueiro Song Zude chegou a convocar toda a população chinesa a se unir e dizer não ao “trash-food” estrangeiro.

Mas os apelos de Song provavelmente serão ignorados. Ao contrário da intensa apreensão manifestada pela mídia estatal, muitos consumidores chineses parecem relativamente indiferentes ao assunto.

Pelo menos foi o que pareceu logo após a notícia. Repórteres do China News Service, serviço noticioso estatal, encontraram as lanchonetes do McDonald’s e do KFC em Pequim lotadas um dia depois da notícia. Um homem com sobrenome Lei disse a um repórter que, na verdade, estava “mais confiante na qualidade do produto oferecido pelo McDonald’s agora que ele está no meio de uma tempestade publicitária”. Similarmente, segundo a Henan Radio, em Zhengzhou, cidade de 8 milhões de habitantes na Província de Henan, os restaurantes do McDonald’s e do KFC tinham longas filas e poucos lugares. Um gerente do McDonald’s disse ter lido as notícias sobre o escândalo, mas “não se sensibilizava mais com esse tipo de coisa”.

A triste realidade é que os consumidores chineses não confiam em nenhum estabelecimento do gênero e dão mais credibilidade a uma empresa estrangeira quando se trata de controle de qualidade, haja escândalo ou não. Ma Xian, investidor imobiliário, escreveu no Weibo, maior plataforma de microblogs da China, que não pode “boicotar o tio McDonald’s ou KFC porque a comida também não é confiável em outros restaurantes, ou é até menos segura”. Tong Guangcan, advogado com escritório em Jiangsu, concordou: McDonald’s e KFC ainda são muito melhores que as barraquinhas de rua que utilizam “óleo de cozinha usado como se fosse novo”.

Grande parte da ira dos chineses é contra os órgãos de inspeção do Estado. Nos últimos meses as autoridades vinham prometendo “fiscalização severa” na segurança alimentar e revisão das leis do país a respeito. Mas esse último escândalo contradiz tais garantias. Em resposta à Televisão Central da China, Weibo postou os comentários sobre o escândalo. Um dos mais lidos dizia: “Confiamos inteiramente na mídia para revelar problemas de qualidade. A agência fiscalizadora poderia muito bem ser fechada”. Mesmo o Global Times, num editorial em língua inglesa publicado dia 22 afirmando que as cadeias de fast-food estrangeiras na China precisam de uma “nova atitude”, admitiu que as autoridades de vigilância sanitária são “fracas”. 

McDonald’s e Yum! pediram desculpas aos consumidores, mas isso não impediu que o valor de suas ações despencasse. A OSI China publicou também um pedido de desculpas afirmando que a administração está “chocada” com a notícia e acredita ter sido “um incidente isolado”. 

Os restaurantes do McDonald’s e do KFC na China devem sofrer algum prejuízo com essas notícias. As vendas do Yum! caíram 40% depois de nota veiculada em 2012 de que seus frangos estavam encharcados de antibióticos e os negócios ainda estão se recuperando. Mas com certeza a empresa sobreviverá. Não só porque a culpa já se generalizou, mas porque essas redes de fast-food oferecem aos chineses algo mais que os pratos. Como escreveu um usuário do Weibo, “não importa: os banheiros do McDonald’s e KFC são de utilidade pública e não podemos viver sem eles”.

Enquanto consumidores chineses continuarem batendo à porta dessas cadeias de lanchonetes, seus donos podem dormir tranquilos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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