Claire Folger
Claire Folger

Trilhas sonoras usam música erudita para evocar sentimentos

Desde clássicos de Visconti a filmes do último Oscar, trilhas levam emoção às plateias

João Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado

29 Abril 2017 | 16h00

A música tem o poder de marcar todos os momentos importantes de nossas vidas. Clichê? Pode ser. Mas não dá pra negar. Algumas transcendem esta condição subjetiva e assumem um significado coletivo ao longo do tempo. Em qualquer latitude do planeta. 

O Adágio, segundo movimento do Quarteto de Cordas nº. 2 de Samuel Barber (1910-1981), tocado na versão para cordas no velório do presidente Franklin Delano Roosevelt em 12 de abril de 1945 em Washington, transformou-se em símbolo permanente de uma dor solidária. Que quer dizer isso? É a dor que sentimos quando uma figura pública de gênio morre. Sentimos nós, em nossa condição anônima, sente a humanidade, num sentido coletivo. O Adágio também foi tocado na morte do cientista Albert Einstein dez anos depois, em 18 de abril de 1955; e foi regido por Leonard Bernstein no velório de John Kennedy, brutalmente assassinado em 22 de novembro de 1963. No cinema, aparece em O Homem Elefante, O Óleo de Lorenzo e Platoon, entre outros filmes.

Outra música que adquiriu status simbólico como ícone de perda coletiva traumática, e não por acaso também para cordas, é o Adagietto da Quinta Sinfonia de Gustav Mahler (acrescido apenas de uma etérea harpa). Adagietto é mais do que um Adágio curto; é um andamento um pouco menos lento do que o Adágio propriamente dito. Celebrizou-se desde que foi utilizada no filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti, de 1971. Este transformou o escritor do romance de Thomas Mann num compositor. Lance de gênio. O Adagietto mostrou a essência da trama: a melodia é a de um dos Rückert Lieder, comovente canção que leva o título Eu me Despeço do Mundo.

Os instrumentos da família das cordas traduzem de modo pungente nossos sentimentos mais profundos. De novo não por acaso, violinos, violas, violoncelos e contrabaixos foram escolhidos como meio musical preferencial de duas belas trilhas sonoras – as melhores da safra 2016/17 do Oscar: a de Manchester à Beira-Mar e a de Jackie. Perderam. Uma delas, ao menos, permanecerá durante muito tempo em nossas mentes e ouvidos.

É a de Jackie, tecida com música original composta por Mica Levi. A inglesinha de 30 anos, filha de um violoncelista, tem o apelido de Micachu. Estudou na Guildhall School. Sua música pode ser chamada de pós-moderna, porque utiliza linguagem tonal. Mas isso não tem a menor importância. Micachu consegue um milagre. Cria uma música original para cordas que junta a dor pessoal, no caso de Jackie pela perda traumática do marido, com a dor coletiva da perda do presidente dos Estados Unidos. Tudo por meio de uma figura melódica que já aparece nos primeiros momentos do filme: um glissando descendente em acorde cheio de violinos, violas, cellos e contrabaixos, primeiro no registro mais agudo, depois no mais grave. O glissando é um recurso muito usado pelos compositores para fazer as notas escorregarem de uma para outra. A sensação é de pura vertigem, como de um corpo caindo. Pois esta figuração obsessiva acompanha a trama centrada nos quatro dias vividos por Jackie desde o tiro que abateu John Kennedy. O toque final de sensibilidade ficou a cargo do diretor chileno Pablo Larrain, que aumenta propositalmente o volume da música. Ela não comenta. Ela “é” o trauma duplo, pessoal e coletivo, do começo ao fim.

A experiente canadense Lesley Barber, 54 anos, optou por outra via, menos original mas igualmente bem-sucedida, em Manchester à Beira-Mar. Aqui a tarefa era expressar a dor mais profunda do ser humano, a de quem se culpa pela morte da família. Casey Affleck é um morto-vivo. O clima de luto é permanente, o desespero mudo é perene. O uso de músicas que estão no inconsciente coletivo de todos funciona só como anestésico. Embala o morto-vivo tentando trazê-lo de volta à vida – o que não acontece até o final do filme. Assim, a música caminha em sentido contrário. Acaba estetizando o sofrimento do personagem por meio de músicas maravilhosas, como trechos do oratório O Messias, de Haendel. Até ao célebre Adagio de Albinoni Barbey recorre. E o único tema original é angelical, quer recalcar o trauma. Em Jackie, a música é o trauma. E da música de Mica Levi eu jamais vou esquecer. Em todo caso, agradeço a Lesley Barber ter me permitido curtir de novo a incrível soprano Dawn Upshaw cantando a ária Lorsque Vous N’aurez Rien à Faire da ópera Chérubin, de Massenet. E juro que não entendi os maravilhosos Ink Spots e Ella Fitzgerald cantando a otimista I’m Beginning to See the Light nos créditos finais.

Em todo caso, todo mundo tem sua música marcante. Para mim, o prelúdio das Bachianas Brasileiras no. 4 sempre provocará de novo a visão do caixão do maestro Eleazar de Carvalho exposto à visitação no Teatro Municipal de São Paulo em 12 de setembro de 1996 com seus músicos da Osesp prestando-lhe o tributo final. Mas esta é uma experiência minha, pessoal. Qual a sua?

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e autor de 'A Democracia das Madeiras' (Livreto-DVD, Selo Sesc)

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