Adriana Vichi/Companhia das Letras
Adriana Vichi/Companhia das Letras

'Trilogia do Adeus' traz drama familiar de maneira delicada

Livros de João Anzanello Carrascoza contam histórias de pai e filhos com toque de autoficção em caixa com três volumes

André Sant’Anna*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

15 Abril 2017 | 16h00

Lindo.

A Trilogia do Adeus, de João Anzanello Carrascoza é linda. A beleza da obra já começa pela caixa que reúne os três volumes e pelo tratamento gráfico dos livros: Caderno de um Ausente, Menina Escrevendo com Pai e A Pele da Terra.

Mas bonito mesmo é o que está escrito. Tão lindo que a gente fica o tempo todo sentindo medo de que a coisa caia para o melodramático, para o piegas. Ingredientes para isso não faltam, já que a trilogia fala de amor e morte, fazendo com que os três narradores vivam suas histórias intercaladas sempre no fio da navalha, entre o sublime e o ridículo. Mas é tamanha a honestidade do que é dito durante o caminho sobre a lâmina, tamanha a verdade do texto, tamanha a percepção do que há de mais profundo na alma humana, que a beleza toma conta de tudo, inclusive do que é triste. 

Os três narradores da Trilogia do Adeus são gente de caráter.

Quem narra/escreve em Caderno de um Ausente é João, o pai de Bia, que deixa em um caderno de anotações, seu testamento afetivo-filosófico para a filha recém-nascida, temeroso de que não possa acompanhar o crescimento dela, já que a diferença de idade entre os dois é grande – 53 anos. No Caderno, João também conta um pouco da história de sua família.

Menina Escrevendo com Pai é uma espécie de resposta que a filha escreve ao Caderno de um Ausente escrito por João. Nessa narrativa, Bia, aos vinte anos de idade, fala de suas experiências de vida com o pai mais velho, suas memórias de família, a ausência da mãe, além da proximidade de João com a morte. Vida que esvai.

Para fechar a trilogia, Mateus, filho mais velho de João e meio-irmão de Bia, escreve um diário da viagem que faz com o filho, cujo nome é João como o do avô, pelo Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Ao contrário de Bia, Mateus cresceu distante do pai e, depois de se separar da mulher, não quer se distanciar do filho. 

As histórias da família de João chegam a ser banais, se é que amor e morte podem ser considerados banais. Só que a Trilogia do Adeus não é uma literatura de boas histórias. Mais importante do que os acontecimentos, a literatura está no discurso mental, no modo de pensar dos narradores mexendo com o modo de pensar do leitor. 

A Trilogia do Adeus tem uma literatura que produz pensamento. Literatura de quem pensa no outro, de quem enxerga o outro.

O João é, antes de tudo, um cara legal. E o João personagem deve ser muito o João autor. Até onde a trilogia de João Anzanello Carrascoza é uma autoficção? 

Procurar a resposta para esta pergunta é ainda mais um jogo que a leitura dos livros nos propõe. Porque o jogo de se colocar na mente de um pai e na de seus dois filhos, e pensar sinceramente pela psique dos três, soando absolutamente verdadeiro, é para quem carrega todos os lados dessa trindade dentro de si. João Anzanello Carrascoza é João, é Bia e é Mateus também. 

O primeiro beijo de uma adolescente; um bebê vivendo a plenitude do amor materno sem saber que a mãe morrerá, sem saber que tudo morrerá; uma bolha no pé depois de uma longa caminhada; os conselhos chavões de uma empregada doméstica; um albergue de estrada; o nada. Do cotidiano mais banal nasce o pensamento mais profundo, tomado pelo amor, pela bondade, pela poesia, pelo reconhecimento da própria insignificância e da própria exuberância. 

Em tempos de descrença filosófica quase absoluta no ser humano, é preciso ser um artista revolucionário, um rebelde total, para escrever um livro onde um pai deixa bons conselhos a uma filha, onde uma filha aceita os bons conselhos de um pai que é pai de um pai que quer participar de qualquer maneira da vida do filho – o João que é neto do João, todos filhos de João.

Com toda certeza, me sinto o resenhista mais piegas do mundo ao querer elogiar tanto um livro tão cheio de amor e morte, ao sentir tanto afeto por esses personagens que podiam ser minha tia, um vizinho, ou aquele sujeito que está todo dia ali no boteco da esquina bebendo café. 

Me sinto muito piegas ao usar determinados adjetivos. Mas a delicadeza poética na trilogia de João Anzanello Carrascoza me enche de coragem para ser piegas e para ser humano.

São três livros lindos. 

*André Sant'Anna é escritor, roteirista de publicidade, cinema e TV, além de autor dos livros 'Sexo e Amizade' e 'O Brasil é Bom', ambos pela editora Companhia das Letras

 

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