University of Chicago
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Troca de cartas entre Leo Strauss e Eric Voegelin é compilada em livro

'Fé e Filosofia Política' mostra que as conversas dos pensadores iam da metafísica aos temas mundanos

Martim Vasques da Cunha*, Colaboração para o Estado

04 Novembro 2017 | 16h00

Em 1710, o filósofo irlandês George Berkeley afirmou que “ser é ser percebido” (esse est percipi [aut percipere]). Era o princípio de uma metafísica idealista, mas sem saber ele também resumiu o comportamento da classe intelectual nos últimos 300 anos. Quem faz parte desta casta cumpriu tal atitude: enganar o distinto público, dando a impressão de que ela parecia saber alguma coisa, quando, na verdade, não sabia de nada.

Na contramão desta tendência, tivemos os exemplos dos alemães Eric Voegelin (1901-1985) e Leo Strauss (1899-1973), que, entre outros scholars (como Eric Weil e Michael Polanyi), mostraram que o conhecimento produzido por eles era o fruto de que ser verdadeiro é a única coisa importante.

Uma amostra do trabalho desses dois gigantes do pensamento político do século 20 chega finalmente às mãos dos leitores brasileiros com a publicação da troca de cartas entre ambos no volume Fé e Filosofia Política – A Correspondência de Leo Strauss e Eric Voegelin, 1934-1964 (É Realizações, trad. Pedro Sette-Câmara, 287 págs.).

O vislumbre de ler esta “aventura da conversação” é inigualável – e por dois motivos. Em primeiro lugar, o período no qual ocorreu a conversa epistolar. Foram justamente nesses anos críticos, tanto para os dois estudiosos como para o resto do mundo, que a crise espiritual do Ocidente atingia seu ápice – e a filosofia política parecia chegar a um impasse por não conseguir articular o pandemônio que então dominava a nossa sociedade. Strauss e Voegelin tentaram entender o que acontecia, sem reduzir arbitrariamente a natureza humana e, o mais importante, sem chegarem às soluções fáceis (e, em geral, erradas) das ideologias políticas, seja o nazismo, o comunismo, o liberalismo, o pluralismo, o conservadorismo e outros “ismos” que pululam por aí.

O segundo motivo é que temos a certeza de que, apesar de serem dois colossos da filosofia, eles eram, antes de tudo, seres humanos. Discutiam os únicos assuntos importantes para a nossa convivência em sociedade: fofoca e metafísica, não necessariamente nessa ordem. Para a sua satisfação mundana, o leitor encontrará material de sobra em relação às maledicências proferidas por Voegelin e Strauss sobre os intelectuais que aplicavam o princípio de Berkeley na vida do espírito. E, sem dúvida, aqui, o troféu desta categoria vai para a famosa carta na qual o autor de A Nova Ciência da Política (1952) simplesmente desanca, numa surra verbal, o que ele realmente pensava sobre a obra de Karl Popper, em especial o clássico A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), que afirmava que Platão seria o precursor dos regimes totalitários do século 20. Para Voegelin, defensor da filosofia platônica como o caminho correto para a recuperação do intelecto após a tragédia da 2ª Guerra Mundial, o austríaco era “uma pedrinha que eu preciso o tempo todo ficar chutando para fora do caminho”, uma vez que Popper seria “filosoficamente [...] inculto, um brigão ideológico”, “um intelectual fracassado”, e, para terminar a lista de insultos primorosos, um “patife, impertinente e palhaço”. Imagina-se Leo Strauss lendo esta carta com um sorriso sardônico e, como era outro aficionado por Platão (conforme notamos em seus essenciais Da Tirania [1948/63] e A Cidade e o Homem [1964]), mostrou-a ao colega Kurt Riezler para impedir a nomeação de Popper na Universidade de Chicago – o que de fato aconteceu. Afinal, quem nunca aplicou o aforismo de George Berkeley nesta vida, mesmo com a melhor das intenções?

Mesquinharias à parte, a correspondência também tem sua boa dose de discussão sobre metafísica – e política. Para os dois, ao contrário do que pensava a maioria dos seus pares, essas esferas jamais estiveram separadas e sim conectadas pela tensão que sempre existiu entre fé e razão. Contudo, era exatamente neste ponto que os colegas discordavam entre si. Na perspectiva de Strauss, a revelação judaico-cristã não dialogava com as virtudes racionais descobertas por Sócrates, Platão e Aristóteles, enquanto que, na visão voegeliana, ambas seriam estruturas fundamentais (e, mais, permanentes) da natureza humana que decifrariam o que o filósofo de Colônia chamava de “experiências extremas” – como a busca por um sentido na vida, o julgamento da consciência no momento da nossa morte e a esperança de imortalidade e, enfim, paz após este “vale das sombras”.

Em todo caso, o que os unia era o fato de que eles se viam como verdadeiros profetas. Eram sentinelas que não se importavam se prediziam a destruição ou a salvação do mundo, e sim apenas o inesperado, o “humanamente imprevisível” – aquilo que falava somente pelo e para o espírito de uma presença já perdida entre nós.  E isto, numa época na qual o lema de George Berkeley ainda ecoa nos corredores da nossa elite intelectual, não é pouca coisa.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória – Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-EAESP

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