Philadelphia Museum of Art/Divulgação
Philadelphia Museum of Art/Divulgação

Trotski, Frida Kahlo e Diego Rivera figuram em romance histórico

'Viva!', de Patrick Deville, explora cena mexicana da década de 1930 com personagens ilustres

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

11 Fevereiro 2017 | 16h00

O lendário lamento do general Porfírio Díaz – “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos” – sofreu uma ligeira mudança este ano. Deus continua longe do México, mas o diabo contíguo agora atende pelo antropônimo Donald Trump. 

Trump, o “muralhista”. Na mais branda das avaliações, sua obstinada cisma de erguer uma muralha ao longo da fronteira dos seus Estados Unidos com os Estados Unidos Mexicanos é uma ofensa à memória de Diego Rivera, Siqueiros, Orozco e outros expoentes do muralismo, a expressão artística mais representativa do país vizinho, no século passado. Insanidade igual não se via desde a construção do Muro de Berlim, que ao menos tinha a justificativa de uma guerra – a rigor, fria só de nome. 

A extravagância pode custar algo em torno de US$ 25 bilhões, segundo o Washington Post; oito vezes mais que o investimento dos EUA na fracassada guerra ao narcotráfico nos EUM. Por enquanto, é apenas um delírio em forma de decreto e provocação. Com mais de 3.000 km de extensão, a fronteira a ser murada já é protegida por uma cerca metálica e um complexo de segurança, apelidado “Big Pipe”, que inclui helicópteros e uma parafernália de gadgets eletrônicos para manter penetras à distância. 

O cineasta Josh Begley e a premiada documentarista Laura Poitras (Citizenfour) exploraram todo aquele trajeto num vídeo time-lapse produzido quatro meses atrás a partir de 200 mil fotos extraídas do Google Maps. O título é irônico: Best of Luck With The Wall (Boa Sorte com o Muro). Faz parte de um esforço coletivo de combate ao “muralhismo trumpista” cuja contribuição mais criativa, até o momento, é a instalação da cópia do painel Paseo de la Humanidad na fachada da Universidade do Arizona. 

Criada em 2004 por dois artistas mexicanos, Guadalupe Serrano e Alberto Morackis (1959-2008), a obra está exposta entre as duas Nogales (a cidade do Arizona e a de Sonora, limite do último avanço do Lebensraum ianque sobre o México, em 1919) e é uma das manifestações mais expressivas da “arte de fronteira”, a nova encarnação do muralismo do século passado. Com recursos narrativos, visuais e materiais totalmente diversos, o painel reinterpreta uma épica travessia (de Aztlán a Tenochtitlán), em tom nada celebratório no que diz respeito ao encontro das culturas mexicana e norte-americana. De um lado, signos olmecas, maias e astecas, uma penca de chiles, a Virgem de Guadalupe; do outro, o rosto da Estátua da Liberdade e um policial com um logo da Mastercard no lugar da cabeça. 

Lembra menos um obra de Rivera & Cia., com seus ícones revolucionários, do que um autorretrato que Frida Kahlo pintou em 1932, enquanto se entediava com a Detroit a que Rivera fora convidado para a execução de um mural. De pé sobre um marco fronteiriço com seu nome oficial (Carmen Rivera) gravado na base, vestido rosa e uma bandeirola do México na mão esquerda, Frida almejava transmitir menos o enfado da viagem do que a angustiante saudade que sentia do México e suas riquezas naturais, de suas flores e plantas, da cultura pré-colombiana, imageticamente contrastadas com as fumegantes chaminés de uma fábrica da Ford, sirenes e outros símbolos da pujança industrial e tecnológica dos EUA.

A polêmica em torno do muro coincidiu com um sempre renovado interesse mundial pelo México e sua mística. Intrinsecamente violento desde sua fundação, muito sangue rolou e continua rolando em suas terras áridas cobertas de poeira e cercadas de vulcão. Depois de perder mais da metade de seu território para “los gringos” numa guerra absurda, condenada por Lincoln e Thoreau, o México fez a primeira revolução popular do século passado e tornou-se, a partir da década de 1930, um porto seguro para exilados de toda sorte, nacionalidades e convicções políticas, uma espécie de Paris dos trópicos.

Em janeiro de 1937, Trotski desembarcou no porto de Tampico, rumo à capital mexicana, para um exílio que duraria apenas três anos e terminaria com o maior proscrito da revolução soviética assassinado no refúgio que Rivera e Frida lhe haviam providenciado no charmoso bairro de Coyoacán. Assim começa o belo romance histórico Viva!, do francês Patrick Deville, recém-traduzido pela Editora 34, cujo sucesso é o exemplo mais recente do fascínio que o México (e sua secular e multinacional procissão de exilados) exerce no mundo inteiro. 

À sua Revolução, em 1910, muitos gringos acorreram (John Reed, Ambrose Bierce), iniciando um ciclo de peregrinações, fugas e permanências que não terminou com o poeta Hart Crane, os romancistas D. H. Lawrence, Malcolm Lowry e B. Traven, a Mata Hari do komintern Tina Modotti, o surrealista André Breton, Antonin Artaud, Eisenstein, nem com a Geração Beat, nem com os personagens de Thomas Pynchon e Roberto Bolaño. Viva! passa por quase todos eles e os entrelaça com mestria, sem jamais perder o foco em Trotski. Patrick Deville é um Plutarco moderno, com invejável jogo de cintura. 

Seu livro termina com um exilado interno: Rafael Guillén, nascido em Tampico no ano (1957) em que Rivera e Lowry morreram. Depois de estudar filosofia na Cidade do México e táticas de guerrilha com os sandinistas (o general Sandino escondera-se no México antes de virar herói na Nicarágua), Rafael passou a chamar-se Jorge Nervaez e há 23 anos é conhecido como Subcomandante Marcos, porta-voz do Exército Zapatista. Terá ele algum plano para sabotar o muro de Trump ou aposentou-se de vez?

'Viva!'

Autor: Patrick Deville

Tradução: Marília Scalzo

Editora: 34

208 páginas

R$ 52

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