Trumpalhadas

De como o Partido Republicano passou 2015 cavando uma trincheira para combater a maioria da população que deseja governar

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

Duas Hillary Clintons se encontraram, na semana passada, num sketch do Saturday Night Live, o mais antigo programa de comédia da televisão norte-americana. Uma cena de sonho do SNL, como é conhecido o show em sua quadragésima temporada, juntou a Hillary candidata de 2008, vivida naquele ano pela popular comediante Amy Poehler, com a Hillary de 2015, vivida por Kate McKinnon. Hillary-Kate diz a Hillary-Amy: “Só posso contar quem está liderando entre os republicanos se você se apoiar em algo para não cair”. Hillary-Amy resiste, Hillary-Kate dispara: “Donald Trump!”, e a Hillary de 2008, derrotada por Barack Obama, cai dura no chão. A claque de riso explode. As duas se abraçam e Hillary-Amy grita: “Ó, meu Deus, nós vamos ser presidente!”

Só uma vez, ao longo da história, o Partido Democrata conseguiu um terceiro mandato consecutivo na Casa Branca, com Franklin Roosevelt, em 1940, mas era um momento histórico excepcional, na Segunda Guerra e com o país emergindo exausto da Grande Depressão. Sete anos depois, uma emenda constitucional proibiu a eleição de presidente dos Estados Unidos por mais de dois mandatos.

A cinco semanas do início das primárias eleitorais, a surpreendente liderança do bilionário cuja candidatura foi inicialmente ridicularizada pelo establishment republicano ainda precisa provar seu fôlego em votos. E há indícios de que, nos cenários de batalhas iniciais, Iowa e New Hampshire, no corpo a corpo que requer minúcias como voluntários para bater de porta em porta e tirar gente de casa para votar, a campanha de Donald Trump carece de disciplina e organização.

Mas, para republicanos que não vivem mentalmente aprisionados pelo festival de besteira extremista em que se transformou a campanha presidencial mais longa entre as democracias ricas, Donald Trump é apenas o reflexo caricato de um problema existencial. Fora dos Estados Unidos, o estardalhaço do candidato e a desproporcional atenção que lhe confere a mídia sugerem uma representatividade que não se traduz na população geral. E isso, para sermos justos, não é um problema de Donald Trump, mas sim do partido em que ele se diverte em atemorizar.

O conceituado pesquisador eleitoral Stanley B. Greenberg lançou recentemente o livro America Ascendant, a Revolutionary Nation’s Path to Addressing its Deepest Problems and Leading the 21st Century (América ascendente, o caminho de uma nação revolucionária para lidar com os seus problemas mais profundos no século 21), cujo título pomposo não deve desencorajar os interessados em transformações demográficas do eleitorado norte-americano.

Greenberg teve entre seus clientes Bill Clinton, Al Gore, Tony Blair, Nelson Mandela e, em 2012, o prefeito Eduardo Paes, do Rio de Janeiro. É um democrata, mas a empresa de consultoria da qual é sócio assessora clientes corporativos em pesquisas apartidárias. Greenberg vê os republicanos imobilizados por uma contrarrevolução que vai levar ao resultado festejado no sketch de comédia das duas Hillarys. Ele aponta para a revolução tecnológica, a inovação em energia e o multiculturalismo permitido pela imigração como fontes não só de liderança dos Estados Unidos como de favorecimento do discurso político progressista.

Um paralelo histórico apontado pelo autor foi o massacre do democrata Walter Mondale por Ronald Reagan nas urnas em 1984. A vitória de Bill Clinton sobre George Bush pai, em 1992, foi permitida não apenas por um deslocamento para o centro como por uma batalha pela identidade democrata durante a campanha, muito antes da convenção para indicar o candidato.

O Partido Republicano, ao contrário, passou 2015 cavando uma trincheira para combater a maioria da população que quer governar. Defende combustíveis fósseis, quer desregular Wall Street, condena o casamento gay, sabota os direitos reprodutivos da mulher e se mostra cada vez mais hostil à imigração num país em que as minorias raciais já formam 40% da população. Nas grandes cidades, como Nova York e Los Angeles, mais de um terço dos habitantes não nasceu nos Estados Unidos, e em Miami eles são maioria folgada.

Perdido na barulheira ideológica, diz Greenberg, está o fato de que os republicanos dominam Estados onde vivem apenas 25% dos norte-americanos. Sua linha de defesa é a América rural e religiosa num momento em que pesquisas mostram o crescimento do secularismo e da urbanização acentuadamente entre os millennials, a população de 18 a 34 anos, para quem o futuro do meio ambiente é uma preocupação cada vez mais real, não negociável com demagogia ideológica. Mais de dois terços destes millennials estão morando nas cinquenta maiores cidades americanas.

Se o extremismo niilista de Donald Trump jogar o Partido Republicano nos braços de um ideólogo conservador como o anti-imigrante filho de cubanos nascido no Canadá, Ted Cruz, Greenberg acha que uma derrota em novembro pode forçar a direita a um reagrupamento como o que permitiu a emergência de Bill Clinton. Mas, espere aí, o partido republicano não tem acesso a pesquisadores demográficos igualmente competentes? Claro que sim. Mas a cúpula do partido, depois de duas décadas orquestrando conservadorismo social a seu favor, parece ter perdido o controle do processo, algo vastamente demonstrado nos rios de dólares que encheram em vão os cofres de campanha do mais moderado Jeb Bush. O problema vai além do fato de evangélicos estarem hoje no controle da maior facção do partido.

O sucesso de Donald Trump até agora reflete em parte o enorme ressentimento com a reeleição de Barack Obama, resultado, na visão dos trumpistas, de uma traição por parte da liderança republicana que coroou Mitt Romney em 2008. Os fãs de Trump são, na maioria, brancos de meia idade, com renda mais baixa do que a média do país e menos escolaridade. Pertencem ao segmento da população que tem futuro incerto na economia no século 21. A campanha republicana está brigando por espólios do passado, e um passado, diga-se de passagem, cada vez mais distante. Talvez, quando voltar ao presente, tenha futuro para oferecer aos eleitores.

LÚCIA GUIMARÃES JORNALISTA E COLUNISTA DO CADERNO 2. VIVE EM NEW YORK DESDE 1985 

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