Um brinde à suavidade: o melhor de Gene Wilder não está na comédia histérica, mas em seus silêncios

O melhor do ator, que morreu essa semana, surge quando ele deixa a loucura de lado e age com quietude e uma sutil gentileza

Lawrence Downes, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2016 | 17h00

Uma discreta confissão sobre Gene Wilder, cuja morte na segunda-feira marcou um início de semana realmente melancólico, mas também levou a muitos momentos gratificantes lembrados no YouTube: apesar de adorar o seu trabalho, os papéis e cenas pelos quais ele é mais lembrado – como o tímido histérico, o neurótico próximo ao colapso, o louco raivoso – nunca me disseram muito.

Ou seja, sempre achei que um pouco do mais enlouquecido Wilder, de filmes como Primavera para Hitler (1968) ou O Jovem Frankenstein (1974), funcionava muito bem. Sim, ele conseguia ser histérico, imbecil, ou ambos ao mesmo tempo, podia ser um personagem deprimido, e também divertido. Mas o que sempre me deixava deslumbrado – e mais propenso a ficar histérico também – era quando Gene Wilder deixava de lado a loucura e comandava a tela com sutileza, como fazem os grandes atores cômicos.

Pense na cena do filme de Woody Allen Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar (1972), em que, no papel de um médico de Manhattan, Gene se encontra pela primeira vez com Daisy, que logo se tornará o amor trágico da sua vida. A atração fatal do homem pela ovelha se torna rapidamente evidente na maneira que ele, como Dr. Ross, acaricia as bochechas felpudas do animal, seus dedos se movendo lentamente, o olhar distraído, a voz sussurrante e tímida na presença de tal beleza ovina.

Dr.Ross: Alô Daisy. Sou... bem... sou o Dr. Ross. (Pausa). Doug.

Posteriormente, a sós em seu consultório:

Dr. Ross: Oi, querida. Sei que tudo isto deve parecer muito estranho para você. Sim, você, que veio das colinas da Armênia, e eu de Jackson Heights, Nova York.

Sua honestidade é ainda mais massacrante quando o amor proibido se depara com a condenação inevitável: a mulher ultrajada, o detetive particular, o processo de divórcio, a queda em desgraça, o colapso nervoso e a digressão, vivendo na rua, bebendo numa garrafa – oh, ironia – de sabão líquido Woolite (para lavar roupas de lã).

Interpretando um outro beberrão pacífico, Waco Kid, reminiscente de Cleavon Little, em Banzé no Oeste (1974), Gene tem uma serenidade que não corresponde com a idiotice absurda do filme. É como se ele estivesse numa dimensão paralela, inexplicavelmente – mas de modo maravilhoso – ocupando o mesmo filme de Slim Pickens e Harvey Korman.

O momento que melhor captura esse lado mais sutil e doce de Gene que tanto admiro está em Loucos de Dar Nó (1980), onde ele e Richard Pryor interpretam dois amigos indigentes, Skip e Harry, tomados por engano como ladrões de banco e que acabam em uma prisão em Angola.

Eles estão em um bar em Nova York, acabaram de perder seu emprego e pensando no que fazer, quando tem início uma briga entre um chofer de taxi e um passageiro por causa do pagamento da corrida. Enquanto os dois homens se pegam no bar, o personagem de Gene, Skip, observa, tristemente.

Skip: Vê o que esta cidade faz para as pessoas? Elas precisam de espaço para respirar. Necessitam de um pouco de amor. De afeição.

Harry: O sujeitinho precisa do seu dinheiro. E o grandão de uns tabefes.

Skip: Os dois precisam é de alguém que converse com eles gentilmente. Com compaixão. É isso que eles precisam.

Harry: Tá falando sério? O quê?

Não para estragar a cena, mas em seguida Gene, numa tentativa ingênua e louca de interferir no conflito, mostra o que é possível conseguir com bondade, respeito e um alicate. É simplesmente hilário, e um dos incontáveis momentos cinematográficos em que Gene mostra o melhor de sua gentileza sutil. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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