BRUNO POPPE/FRAME
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Um luar na Casa da Morte

Ao viver dias de treva, Etienne Romeu jogou luz sobre a selvageria da ditadura militar

Diego Moura, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2015 | 16h00

Quando caísse a noite, a Lua estaria exatamente na metade de sua metamorfose cíclica, partindo do quarto crescente em direção ao intenso brilho da fase cheia. Se as nuvens não atrapalhassem, até o fim da semana, ela se exibiria lá do alto, para quem quisesse ver. No entanto, para a bancária Inês Etienne Romeu haveria apenas escuridão. E dor. Naquele 5 de maio de 1971, a noite veio muito mais cedo para ela, por volta das 9 horas da manhã. Os tentáculos da ditadura militar, coordenados pelo temido delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Sérgio Paranhos Fleury, eclipsaram a vida de Inês por 96 dias. O único brilho ao seu alcance seria o dos olhos furiosos de seus torturadores, na forma de múltiplos choques, chutes, estupros. Inês, a guerrilheira, fora presa em São Paulo como terrorista e seu destino era a Casa da Morte, em Petrópolis.

“Inês era minha guru”, se emocionou com um leve sorriso a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci. Cabelão curto todo penteado para cima, estilo Dilma Rousseff, e vestindo terno preto, cuja formalidade só era quebrada por uma infinitude de bolinhas brancas, Eleonora também já combatera nas trincheiras da “subversão”. Ela compunha o painel Violência e Gênero, organizado pelas Comissões Nacional e Estadual da Verdade de São Paulo, em março de 2013, no auge dos trabalhos de redescoberta do passado. “Ela continua sendo uma pessoa muito generosa, sobreviveu à Casa da Morte. Foi ela! Através do seu sofrimento. Conseguiu lapidar esse sofrimento, fazendo a denúncia.” Um silêncio preenche o auditório Paulo Kobayahi, na Assembleia Legislativa de São Paulo.

A Casa da Morte, insuspeito sobrado residencial que pertencia ao empresário alemão Mário Lodders, em Petrópolis, funcionou como instituição de extermínio e detenção clandestina do Centro de Informação do Exército (CIE) na década de 1970. O tenente-coronel reformado Paulo Malhães chamou-a de “centro de conveniência”, já que a principal função do lugar não era obter informações dos prisioneiros, mas sim transformar “subversivos” em colaboradores do regime. Pelo menos 22 pessoas passaram por lá, todas condenadas à morte sem direito de defesa. Apenas Inês sobreviveu.

Seus algozes queriam que ela virasse a casaca e passasse a colaborar. Fizeram com que ela assinasse papéis e até gravasse uma fita, na qual dizia que colaborava em troca da liberdade e de dinheiro. Ameaçaram. Caso rompesse o pacto, seria morta, presa para o resto da vida. Mesmo a irmã, que nada tinha a ver com política, sofreria. Em novembro de 1971, a família conseguiu que a justiça reconhecesse sua prisão, quando ela passou a cumprir pena no presídio Talavera Bruce, em Bangu, Rio de Janeiro. Lá amargaria mais oito anos de cárcere até a libertação com a Lei da Anistia. Deixou de ser detenta para se tornar a última presa política brasileira, pesando pouco mais de 30 quilos. Sobreviveu aos choques, espancamentos e 4 tentativas de suicídio: jogou-se na frente de ônibus, tentou cortar os pulsos e até vidro moído das ampolas de injeção engoliu, para se ver livre daqueles tormentos.

Apesar de tudo, na casa da irmã, em Fortaleza, Inês logo se recuperou e começou a estruturar a ampla denúncia que faria à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para revelar todos os detalhes sobre a Casa da Morte que conseguira guardar na memória: nomes, apelidos e características físicas de torturadores, identidade do proprietário do imóvel, planta do local e até mesmo o número de telefone da residência. “Muito cuidadosa e muito zelosa da tarefa dela. Compartilhou isso com pouquíssimas pessoas”, recordou-se com orgulho na voz Eleonora. “Nós não teríamos nenhuma pista dos companheiros e companheiras assassinados se Inês não existisse.”

As mais de 20 páginas do depoimento de Inês Etienne também narraram em detalhes as torturas sofridas por ela durante os 96 dias em que esteve trancafiada em Petrópolis. O deputado Adriano Diogo (PT), que presidia a mesa, convidou a historiadora da Unicamp Margareth Rago para ler ao público as palavras ditadas por Inês e datilografadas pelo escrivão, hoje amareladas pelo tempo. Começou. “A certa altura, o dr. Roberto me disse que eles não queriam mais informação alguma. Estavam praticando o mais puro sadismo, pois eu já havia sido condenada à morte e ele, dr. Roberto, decidira que ela seria a mais lenta e cruel possível, tal o ódio que sentia pelos ‘terroristas’”, leu Margareth. “O ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus...” A voz dela afinou. O choro veio vindo de mansinho. “... e verificar se o ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo. Esse mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período fui estuprada duas vezes pelo ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros...” Não conseguiu mais. Os olhinhos fundos da historiadora se encheram d’água, sob uma chuva de aplausos molhados.

Não bastasse todo o sofrimento até ali, Inês nunca esteve tranquila. Desde que saiu da cadeia, dizia ser perseguida, contaram os amigos. Ninguém dava muito crédito, até 10 de setembro de 2003. O caso é bastante nebuloso: o porteiro do prédio onde morava, em São Paulo, foi avisado por ela de que um marceneiro viria a casa para execução de um serviço. O homem chegou e ficou por lá 45 minutos. No dia seguinte, a empregada de Inês achou a patroa agonizante no chão e paredes ensanguentadas. Mesmo com o laudo médico indicando um trauma craniano por “múltiplos golpes”, o 77º Distrito Policial de São Paulo registrou o caso como “acidente doméstico” e nunca identificou o suposto marceneiro. Entre uma sessão e outra de fisioterapia tentava recuperar os movimentos e o raciocínio de outros tempos.

“Se eu morrer, quero que todas as circunstâncias da minha morte sejam esclarecidas, ainda que demande tempo, trabalho e sacrifício, menos em minha memória, mais em nome da honra do País em que nasci, muito pela decência de minha Pátria e de meus compatriotas”, sentenciou a mineira Inês Etienne Romeu em seu depoimento à OAB, no ano de 1981. Depois de 34 anos de sua fala reveladora, Inês respirou pela última vez. Sob a honra do Brasil democrático, da decência da Pátria e de seus compatriotas, enfartou enquanto dormia, na noite da última segunda-feira, 27, aos 72 anos, como informaram os jornais. Sem censura. 

/COLABORARAM MURILLO CHAMUSCA E THIAGO DE OLIVEIRA

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