Louis MONIER | PAGOS
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Um mestre da razão: uma homenagem ao filósofo francês Gilles-Gaston Granger

Um dos principais nomes da epistemologia do século 20, o professor francês ajudou a criar a faculdade de filosofia da USP

José Arthur Giannotti, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2016 | 16h00

No início de 1950, fui assistir à minha primeira aula lá na Rua Maria Antônia. Entra na sala um professor de altura mediana, rosto redondo e sorridente e logo começa falando francês. Fazia parte daquela missão estrangeira de várias nacionalidades, que viera ao Brasil para fazer funcionar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, espécie de espelho de todo o saber, que haveria de ajudar velhos e novos institutos paulistas a se integrar numa verdadeira Universidade.

Éramos 10 alunos no primeiro ano, e quatro se entusiasmaram de tal forma com as aulas do professor Gilles-Gaston Granger que terminaram lhe pedindo que continuasse suas lições por mais dois anos. Mais tarde ele me disse que foram as aulas mais prazerosas desta sua primeira estadia no Brasil – depois disso houve muitas outras.

Foi assim que mergulhamos na epistemologia francesa, marcada por George Ganguilhem, Gaston Bachelard e Jéan Cavaillès, mas enriquecida com excursões na lógica matemática. Esta, naquela época, ainda estava encruada na França, depois da perda de seus maiores lógicos, Cavaillès e Lautman, fuzilados pelos alemães.

Granger trabalhava na sua tese de doutoramento, “Pensée Formelle et Sciences de L’homme”, demarcando aquele terreno que haveria de cultivar toda a vida. Por certo, com grandes transformações. No entanto, como bom discípulo de Aristóteles e de Kant, se perguntava como as estruturas formais do pensamento haveriam de se mobilizar e se ampliar e se modificar até capturar finuras dos comportamentos humanos. Um de seus melhores livros é “Essai d’une Philosophie du Style”, de 1968. Entendia por estilo a maneira peculiar pela qual um conteúdo é pensado e informado, mas seguindo formas que sempre haveriam de ter como paradigma estruturas matemáticas.

Para Granger, a razão é um processo humano objetivado, que só pode ser apreendido pela inspeção cuidadosa de seus produtos. Não é à toa que às vezes se dizia funcionário dela. Obviamente isso o leva ao Tractatus de Wittgenstein, que traduz em 1993. Particularmente interessava-lhe as relações entre este filósofo e as ciências, estando mais próximo do positivismo lógico do que dos wittgensteinianos de Oxford, que lhe pareciam ter sucumbido aos encantos do psicologismo.

É nessa fissura que eu mesmo me encontrei. Voltando para a Europa, Granger foi substituído por Claude Lefort, cujo primeiro curso foi sobre História e Existência, lidando sobretudo com Weber, Marx e Merleau-Ponty. Até então, para mim, Marx era apenas uma referência política; tomá-lo como um filósofo desarrumava o espaço onde ainda pensava. E com Marx veio o interesse pela fenomenologia husserliana, que trazia as estruturas lógicas para o campo da consciência transcendental e para o mundo da vida.

Em 1956, uma bolsa da Capes e do governo francês me permitiu estudar em Rennes, na Bretanha, onde Granger estava lecionando. Lá conheci Victor Goldschmidt que logo foi me dizendo, mas com a maior delicadeza possível, que meu tema de doutoramento, a definição, era demais abrangente, pois perpassava toda a história da filosofia. Afundei-me na lógica de Husserl e o próprio Granger me apresentou Jules Vuillemin, seu amigo íntimo, que, na Escola Normal, ministrava um curso sobre as Investigações Lógicas. E foi assim que fui para Paris, e foi assim que me tornei amigo daqueles filósofos franceses que fizeram minha cabeça.

Granger era ciumento, não via com bons olhos minhas viagens pela fenomenologia e pelo marxismo. Uma vez, já em Aix-en-Provence, apresentou-me como um discípulo que o traíra. Traição que reforçou nossa amizade, que solidificou a necessidade de estarmos juntos trocando experiências diversificadas, que aumentou o cuidado de um com o outro para evitar que um arranhão criasse uma distância entre nós.

A sólida formação que todos eles me deram me preveniu contra os deslumbres do pós-estruturalismo francês, que tentou, a meu ver, uma combinação impossível entre a “fenomenologia” heideggeriana e o estruturalismo de Ferdinand Saussure. Para Heidegger, o sentido se forma antes de linguagem, enquanto para Saussure unicamente pelas diferenças distintivas dos sinais constituindo-se em símbolos. Sem a garantia da diferença-identidade do ser e do ente, a formação da linguagem se dá sob a égide de um sistema de regras “previamente” dado. Granger pressentiu essa dificuldade e se agarrou à lógica formal, posicionando-se, assim, contra o novo estruturalismo. Visto que essa onda ainda está na moda, ele ficou fora dela – na França e no Brasil. Por ironia, ele sucedeu a Michel Foucault no Colégio de França. Não percebendo que Foucault foi maior que o pós-estruturalismo, pois, como afirmou o grande historiador Paul Veyne, ele revolucionou a própria história, Granger teve muita dificuldade em fazer, como é de praxe, o elogio de Foucault em sua aula inaugural no Colégio.

Gilles-Gaston Granger morreu em 24 de agosto deste ano de 2016, aos 96 anos. Deixa marca profunda, embora hoje pouco visível nos estudos filosóficos brasileiros. Este artigo tenta atiçar a lembrança do que ele significou para todos nós. Já no meu caso, sua importância é ainda maior, pois também me legou sua família, da qual aprendi a participar.

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