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Um Napoleão de 20 bilhões de euros

Por que a França teme a interdição do foie gras: grandes interesses econômicos estão em jogo

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

30 Maio 2015 | 16h00

Em todos os restaurantes e cafeterias da sede da Comunidade Europeia em Bruxelas, um prato delicioso não mais aparecerá nas mesas dos senhores e senhoras da organização.

Se a União Europeia até agora não teve a coragem de proibir a cevagem de gansos e patos nos 28 países membros, pelo menos nos restaurantes e cafeterias da sede da União Europeia a decisão foi tomada: tanto pior para as bocas ávidas dos rechonchudos deputados. Nada de cevagem. Nem de foie gras. Será o caso de ver nesse modesto avanço um sinal premonitório de uma interdição, dentro de um mês ou de um ano, de toda a produção de foie gras?

O primeiro país a sofrer com tal perspectiva é a França, campeã do mundo na cevagem de gansos e patos: 20 mil toneladas de foie gras por ano, 30 mil empregos diretos e ¤ 20 bilhões de faturamento. Os outros produtores, como Hungria e China, são insignificantes.

A França fez do foie gras seu charme e seu orgulho. A ponto de afirmar que o foie gras é um indicador da identidade francesa, do mesmo modo que o queijo, a catedral de Notre Dame de Paris e Napoleão. 

Eu e muitos franceses não nos colocamos sob essa triste bandeira. Mas procuro meu consolo afirmando que, se sou francês, também sou um pouco “paulista”, pois a Câmara de São Paulo da mesma maneira decidiu banir o foie gras. 

Antes de ser francês, o foie gras fez um longo périplo, tendo surgido no início da História. Gansos e patos já eram objeto de cevagem no Egito antigo. Depois vieram os gregos e sobretudo os ricos romanos da antiguidade, que não recuavam diante de qualquer vilania para satisfazer seus enormes ventres e engordavam os gansos com figos (segundo Plínio, o Ancião). 

Foi por isso que o ganso engordado com figos recebeu o nome de ficatum, termo ainda hoje associado a ele. Assim, o fígado, que nos tempos primitivos de Roma levava o nome de jecur, tornou-se ficatum, depois figido e, em francês, foie (portanto, fígado).

Se a França se debate como um demônio para evitar a interdição do foie gras é porque grandes interesses econômicos estão em jogo. E também em nome da tradição. Mas, quando uma tradição, mesmo que suculenta, exige torturas hediondas dos animais, que se dane essa tradição. Lixo!

Por coincidência, no mesmo dia fomos informados de ter sido retomado em Bruxelas, mas desta vez pela Comissão Europeia, o debate sobre a experimentação animal nos laboratórios farmacêuticos e médicos.

A questão é mais complicada. A interdição do foie gras não tem alcance econômico e gastronômico. Confesso que não sinto piedade dos gordos ventres sem sua cruel iguaria. Mas, no caso da experimentação com animais, pelo contrário, o espírito vacila quando sabemos que, por exemplo, a luta mundial contra o Mal de Alzheimer não pode se passar sem tal recurso. Portanto, é um real debate que se anuncia, humano, filosófico e mesmo metafísico (qual é o sentido e a essência do animal na Criação? Que direitos o homem tem sobre os animais? A Bíblia tinha razão ao fazer do animal “um ser vivo” a serviço do homem?).

Como decidir? De um lado vemos o calvário de tantos humanos doentes e numa situação tão penosa, e de outro a hecatombe dos animais de laboratório: 500 milhões são mortos a cada ano, segundo entidades defensoras dos animais. “Não”, respondem os partidários da experimentação animal. Na Europa são apenas 12 milhões de animais por ano (bela nuança! Não seriam mais do que 6 milhões, ou 3 milhões, ou 300 mil...).

Se não bastasse matá-los, pratica-se também a vivissecção. Eles são esfolados vivos. Milhares de gatos são privados da visão e observados com o fim de aprimorar a medicina dos olhos. Sim, um horror!

Mas em contrapartida há homens e mulheres que não enxergam, que caminham na noite infinita. Sim, um verdadeiro debate.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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