Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO
Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO

Um senhor passageiro: 15 km de percurso pela cidade e pelas ideias de Tom Zé, num ônibus em SP

Quinze quilômetros e duas horas e meia de percurso pela cidade e pelas ideias de Tom Zé, 80 anos recém-completados, em um ônibus da SPTrans

Vitor Hugo Brandalise, Impresso

17 Dezembro 2016 | 16h00

O passageiro toma assento no ônibus e, mal recosta a cabeça, uma pancada firme no vidro lhe interrompe as ideias.

– Ô, Cidadão! Ô, Senhor Cidadão! – berra um transeunte, rapaz baixinho, saltitando num ponto de ônibus da rua Dr. Homem de Melo, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. O garoto saca o celular pra bater foto, mas terá de se contentar com a lembrança boa, pois o veículo já parte, a botar fumaça nos miolos da cidade – nas palavras deste passageiro que acaba de cruzar a roleta e que, nem parece, completou há pouco 80 anos.

Tom Zé dá um tchau ao rapazote, solta um “rá, rá!” e, acomodando-se no banco, explica de onde veio a canção Senhor Cidadão, de 1972. “Crítica da pesada a quem se deixa definir só pelo trabalho, aos que elevam a carreira ao maior dos bens. Foi uma percepção que me marcou muito quando cheguei a São Paulo”, diz, sobre a faixa de Se o Caso é Chorar, terceiro disco do compositor baiano. “Os versos da abertura são do Augusto de Campos, ele mesmo recita... Mas, olhe. Deve ter passado alguma entrevista comigo na TV ontem, que é quando me reconhecem e falam comigo mais na rua.”

Modéstia dele, e ainda mais em Perdizes, bairro onde vive desde a década de 1970. Por aqui (mas não só), suas histórias são conhecidas. No ônibus da linha 875A da SPTrans, Perdizes-Aeroporto, numa tarde de novembro, a mulher do banco de trás estica o pescoço e o interpela:

– Tom, é ali o jardim que você fez? – pergunta, apontando o quintal de um prédio de 13 andares.

– É, mas não cuido mais dele. Virou um bosque, as árvores taparam o sol e não cresce mais nada.

Durante anos, ele dividiu a cantoria com o ofício de jardineiro (dois salários mínimos) num prédio vizinho à sua casa, e muito se falou disso, que lhe serviu de terapia em tempos de ostracismo e que o fazia se aproximar de sua Irará natal. Agora no ônibus ele reforçou a importância daquele verde (“me levava pra longe dos problemas”), e explicou que teve de parar quando a sombra tomou o jardim. “Nem grama nasce mais”, disse, arregalando os olhos, “um problema sério”.

O coletivo entra na Cardoso de Almeida, passa perto da PUC, sobem uma dúzia de universitários. A estudante de Direito Naira França, de 19 anos, a caminho de uma aula de redação no Paraíso, dispensa o lugar livre lá atrás pra ficar em pé perto do Tom, escutando o papo. Faz bem a Naira, pois é raro que Tom Zé circule por aí de ônibus hoje – diferente do que fazia até meados dos anos 2000, quando pegava esta linha para “renovar as ideias” e “ficar quietinho, ouvindo as conversas”, em busca de inspiração. Melhor aproveitar o momento para embarcar nas voltas (nos corredores, nos engarrafamentos) do pensamento do artista – ouvir os ecos do Tropicalismo dos anos 1960, do amargor do esquecimento de duas décadas, da volta por cima nos anos 1990. Entre um solavanco e outro, escutar um “pós-doutor em Música Popular Brasileira”, como o definiu o cronista Alberto Villas, ou, simplesmente, “um gênio”, para David Byrne, dos Talking Heads, que o redescobriu. De Perdizes ao aeroporto de Congonhas são 15 quilômetros, percorridos de busão, ou seja, há tempo de sobra.

Subimos e descemos as ladeiras do bairro, enquanto Tom relembra os dias em que ônibus não servia para inspirar, mas para transporte. Nos anos 1960, pegava o coletivo no Anhangabaú ao lado de Caetano Veloso e prosseguiam até Cidade Ademar, mais ao sul, onde vivia o amigo Gilberto Gil. “Estar perto de Caetano sempre foi uma coisa muito agradável, a gente ficava uma hora e meia preso um junto do outro até lá, pra bater papo com o Gil”, diz, e emenda o tipo de reflexão que sentar junto dele no ônibus proporciona: “Mas curiosa era a volta, na direção bairro-centro. Parecia que a cidade se fechava, os prédios todos juntos, sem nenhuma divisão de bairro, e esse bloco ia crescendo, aumentando, aumentando, parecia que iria barrar o ônibus. Lembrei de como Euclides da Cunha descreveu o litoral brasileiro em Os Sertões, que parecia que o continente, com a Serra do Mar encostadinha no oceano, dizia: ‘Aqui não entra ninguém!’. O mesmo fazia esse centro, até que o ônibus encontrava um buraco no concreto e invadia a cidade. Mas o tempo todo parecia dizer: não entre!” Ao baiano do Recôncavo que chegara havia pouco a São Paulo, poderia parecer mau sinal, mas ele não encarou assim. “Comentei com Caetano que esse bloco maciço parecia confirmar o mau humor das pessoas em relação à cidade, e isso ajudou a consolidar a ideia de falar de um lugar que todos amam odiar.”

É o mote da música São, São Paulo em que Tom fala dos 8 milhões de habitantes da capital paulista de então, que “se agridem cortesmente” em uma “aglomerada solidão”. Foi seu primeiro grande sucesso, com o qual venceu o Festival de Música da TV Record, em 1968, e ganhou fama no país todo. “Eram versos fortes naquele tempo. Dizer que amava São Paulo era uma ousadia, uma coisa inesperada, assombrosa. O esperado era falar mal. Sabia, Naira?”, conta. “Ih, olha o Minhocão ali!”

Numa parada sob o viaduto, sobe uma figura familiar aos que chacoalham de ônibus pela cidade.

– Pessoal, primeiramente, muito obrigado pela atenção e colaboração de todos vocês.

Tom Zé observa atento o esperado desenrolar.

– Entregarei nas suas mãos um produto de primeira qualidade. As deliciosas balas Frutella. Aí estão, com vocês. Contendo nove balas, pessoal, com validade para 2017.

O artista tem um olhar maroto. Não compra nada, mas parece lembrar de algo. “Olhe, quando eu desconfiei que ia cantar na TV a primeira vez... Senti um terror cósmico. Me apavorei porque no passado tinha travado ao cantar pra uma namorada. E aí estava certo de que aconteceria de novo”, conta. “Então tive a ideia de ir numa feira de rua em Irará ver uns caras que vendiam remédio. Eles transformavam a praça toda em palco e plateia. É como esse rapaz fez agora. Transformou o ônibus em plateia. Decorei o que eles faziam, a improvisação, brincavam com o padre que passava na feira, com o cachorro, a mãe com a criança no colo... Davam vida à estrutura. Foi um aprendizado que levei comigo.” Tom se volta ao vendedor.

– Puxa, ninguém comprou, é?

Naira se apieda daquilo e leva a Frutella pra aula de logo mais (“produto de primeira, R$ 2,50 por aí, mas na minha mão só R$ 1”).

O coletivo deixa a sombra do Minhocão e embica numa área que bem poderia servir de repasso geográfico das principais músicas ligadas a São Paulo compostas por este oitentão. À direita, o antigo hotel Hilton – aquele que, na inauguração, brigou com o Edifício Itália por ciúmes, na música de 1972. À esquerda, a pouco confiável Angélica, a piedosa Consolação, a vaidosa Augusta, como ele as definiu, na canção de 1973. “Ih, a Augusta elegante da época com certeza já se aposentou. Com tantos prédios que saíram na rua, não quer saber de mais nada, não tá nem ligando”, comenta ele.

Não há canção de Tom Zé sobre a Avenida Paulista, mas esse ponto do trajeto o faz recordar de quando quase desistiu da música. Era o auge do esquecimento vivido nos anos 1970-1980, e depois de um concerto desastroso em Praia Grande (“ninguém entendeu minha música, e nem eu entendi a plateia”), ele quis voltar a Irará, onde teria emprego como frentista.

– Naira, cheguei em casa chorando e falei pra minha mulher, a Neusa, que não dava mais. Ela concordou, nunca tinha me visto daquele jeito.

A garota leva a mão ao coração, mas Tom a tranquiliza. “Foi a quarta ou quinta vez que meu anjo da guarda evitou que eu voltasse a Irará. Essa vez da Praia Grande foi a que cheguei mais perto de partir de vez, e o que impediu foi o David Byrne, que me procurou querendo me lançar lá fora.” Eram fins dos anos 1980 e, impressionado com o disco Estudando o Samba (1976), Byrne foi à TV perguntar “Que país é esse, que tem um artista assim e tão poucos conhecem?”. A compilação The Best of Tom Zé, do selo de Byrne, foi o único álbum brasileiro a aparecer entre os 10 discos mais importantes da década nos EUA. A partir do olhar de fora, Tom era redescoberto no Brasil.

– Nas outras vezes em que estive pra voltar pra Irará, acontecia alguma coisa na última hora que me salvava. Em uma delas foi o Caetano, que me viu aborrecido e disse: “olha, você aqui em Salvador se aborrece e não acontece nada. Vamos pra São Paulo, que lá você até vai se aborrecer, mas alguma coisa pode acontecer”. Foi a minha vinda. Escapei de novo do posto de gasolina em Irará.

– Que sorte a nossa, vizinho! – disse a Naira, também moradora de Perdizes. Depois de combinar um pastel de feira, faz uma selfie com ele e se despede. Salta sorrindo e mexendo no celular. “Rá, rá! Deve estar falando agora com alguma amiga, mandando a foto...”, diz o Tom, acenando.

A linha 875A prossegue pelo corredor da Avenida Jabaquara. “Aqui eu vinha cumprir promessa”, ele diz, indicando o Santuário de São Judas Tadeu. “Prometi a São Judas que 10% do que eu ganhasse daria às crianças da obra social. E aí quando eu voltava da Europa trazia o dinheiro aqui, vinha nesse ônibus até. E o padre veio com um papo estranho, que eu tinha que parar com aquilo...” Tom faz uma careta: “O padre achou que eu estava roubando aquele dinheiro! Isso foi lá por 1992, eu tocava mais fora do País do que aqui.”

O artista fica em pé, apoia-se no metal amarelo do encosto e pergunta ao cobrador:

– Quanto tempo falta pra chegar no aeroporto? Não é pressa, só tô curioso.

Falta uma meia hora. O ônibus para no ponto, sobe um engravatado, passa a catraca, reconhece o Tom Zé.

– Esse é o cara que inventou o “São, São Paulo, meu amor”. Tudo bem, Tom Zé?

O cantor diz que tudo bem e coça a cabeça. Confidencia: “Você sabe que hoje se alguém me pede no palco pra tocar essa música eu faço de conta que não ouvi? Fico desesperado que mandem cantar isso, porque agora é um porre da desgrama.” A cidade? “A música. Virou uma espécie de ode, a idade pesou muito sobre ela, perdeu o valor sígnico, como fala o Peirce (Charles Sanders Peirce, grande nome da semiótica), sobre o valor do signo e do que ele representa... O que naquele tempo era um susto dizer agora perdeu a carga.” O ônibus cruza a Saúde, o Tom complementa: “Se eu quiser falar do amor por São Paulo, vou ter de dizer outra coisa. São Paulo, meu amor já não mostra carinho nenhum, já perdeu.”

O que não expirou, diz ele, é a “agressividade cortês”, como ele cunhou o trato entre a gente estressada daqui. “Ah, isso continua. Nos últimos tempos a paisagem da agressividade partiu pra política, de um jeito que pega todo mundo. Tenho uma música que se chama Democracia (do álbum No Jardim da Política, de 2003) em que falo do medo das pessoas desse negócio chamado democracia. Eu estava num papo com alunos na porta da PUC, com uns três rapazes. Aí falei de como minha mãe e um tio sempre votaram no Maluf, e eu nunca contestei ou briguei. Democracia tem que começar dentro de casa. Aí os alunos ficaram calados. De repente um deles diz: ‘Ah, democracia assim já é demais!’”, ele relembra, e se exalta: “Democracia é só enquanto a pessoa não contraria a gente? Quando todo mundo faz o que eu faço? Isso é ditadura! Di-ta-du-ra!” A letra dessa música fala numa democracia “que escorrega” e que nos atira “no meio daquilo que mais receio” – que é isso? “O receio é de mostrar o ditador que existe em mim. O Brasil todo tá querendo meter a mão na cara do outro? Todo mundo agora quer virar ditador? O receio é esse.”

A essa altura o ônibus já se aproxima da Avenida dos Bandeirantes, estamos chegando lá. Para num sinal e, de novo, alguém pula e bate na janela. “Com certeza apareci na TV ontem em algum canal...” O busão faz a curva, aparece o aeroporto de Congonhas.

– Finalmente! – Tom se ajeita no assento, impaciente – Duas horas e meia, que viagem!

Mal saltou no ponto em frente ao aeródromo e foi interpelado por uma garota, que tirou foto. Deu outros dois passos e teve de atender a mais um pedido, do repórter: perdão por não lhe dar tempo de pensar, Tom, mas qual seria a crônica da viagem de hoje? Emendou de bate-pronto: “Olhe, parece que deixamos a população da cidade passar se esfregando em nós, como se deixasse um pozinho sobre a gente. Senti que ganhamos um pouco da humanidade, ou roubamos um pouco da humanidade deles. Do sofrimento e da força. Da resistência, né. Eu escreveria nessa direção.” Aí está. Se dizer “meu amor” já não serve, o prazer com que Tom Zé se deixa impregnar pela gente da cidade é outra forma de mostrar carinho por São Paulo – um bloco de concreto que, com toda a sua agressividade cortês, jamais o impediu de entrar.

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