Um spasso para Paôla

'Área gourmet' pode ser mais chic que cozinha; grill, mais charmoso que churrascaria; e o nome Geovane dar mais status do que Pedro. Mas no alpinismo social linguístico é sempre bom checar grafia e pronúncia

Sírio Possenti, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2012 | 03h11

Carlos V costumava dizer que falava espanhol com seu Deus, italiano com seus cortesãos, francês com suas damas e alemão com seus cavalos.

As entradas mais tradicionais para falar das línguas, especialmente em sociedades letradas e supostamente detentoras de alta cultura, são duas: a da correção e a da expressão clara do pensamento.

Usuários valorizados são os que falam "corretamente", que seguem a "gramática", mesmo se incapazes da análise mais elementar. Aceitam os manuais da época, sustentados por políticas editoriais, e secundados, com maior ou menor sucesso, pelo aparelho escolar. Uma das consequências dessa maneira de ver uma língua é a avaliação negativa de qualquer forma de expressão marcada, embora alguns traços de outras variedades sejam aceitos - eventualmente bem aceitos, como na literatura. Enfatizo que as formas mal avaliadas podem tanto ser as populares (nós pega os peixe) quanto, eventualmente, as eruditas, quando avaliadas como ultrapassadas ou incompreensíveis, como a linguagem dos juristas, dos acadêmicos e das bulas, ou desnecessárias ou meramente "novidadeiras", como os estrangeirismos e certas inovações lexicais, em geral ligadas a profissões ou áreas (alavancar, inicializar).

Isso tudo mostra que não basta ser correto, "tem que comunicar". Ou seja, espera-se, que a linguagem seja correta, mas também que seja clara e fale das coisas como elas são. Deve-se evitar distorções e até eufemismos.

Acontece que é simplesmente impossível falar sem produzir outros efeitos além de mostrar-se um cidadão ajustado e razoável (no sentido cartesiano). Qualquer pessoa que fala também produz uma imagem de si (como se fosse um holograma, na feliz metáfora de Auchlin). Quando alguém fala, logo se "vê" que se trata de alguém calmo ou animado, racional ou exaltado, antiquado ou moderno, correto ou capaz de violar regras, de ousar, seja emitindo um palavrão, seja um estrangeirismo, seja um termo técnico ou gírio (no Supremo, um advogado que fazia uma "sustentação oral" (!) perguntou se Lula por acaso seria um "pateta", o que chamou atenção naquele colendo e egrégio tribunal...).

Há modas linguísticas, digamos, às quais falantes aderem porque lhes parece, um pouco difusamente, que expressam, ou representam, um modo de ser que lhes soa interessante, adequado, que significa, de alguma forma, "olha eu aqui, não sou qualquer um".

Palavras estrangeiras desempenham esse papel de maneira mais clara (os nobres russos não falavam francês?), mas qualquer variedade da língua pode fazer isso, ora de forma marcada, para cima ou para baixo, ora de forma só aparentemente neutra.

Nomes de prédios ou de espaços, sejam de serviços ou comercias, denotam mais ou menos claramente um desejo dos ocupantes de parecerem assim ou assado. Chamar a uma divisão da casa ou apartamento de espaço gourmet, em vez de churrasqueira ou cozinha, é apenas um exemplo. Convenhamos, uma residência parece mais moderna se tiver um espaço gourmet, uma churrascaria parece bem melhor se for grill, um salão de beleza tem mais charme se for um spasso beleza, mesmo se quem ajudou nas placas ou o dono ou dona não se deu conta de que queria chamar aquilo de spàzio (custava olhar um dicionário?).

Prime, personalité, stand up, baked potato boutique, pocket, retrofit, talk show, coffee break, offshore (ZECA'S BAR...)... Sabe Deus a quantas expressões pretensamente charmosas ou modernas estamos expostos todos os dias em quase todos os lugares.

As línguas - e as variedades de cada uma - são imaginariamente associadas a certas qualidades. Francês soa chique (personalité), alemão parece sério e capaz (Das Auto), o inglês é tecnológico (toda a informática) e sólido (tower). O italiano é associado à boa vida (cuccina).

Em boa medida, tudo isso é verdade e cafona. Ou também cafona. Pode-se lamentar o fato, pregar a substituição dessas formas por outras, que sejam "nossas", supostamente neutras, mas pode-se também aproveitar o fato de que ocorrem para tentar conhecer os porões da sociedade, aquilo a que aspira: uma espécie de inconsciente social.

Se "Das Auto" vende, isso indica que queremos qualidade, se spasso beleza parece melhor que salão de beleza, deve ser porque charme interessa (a gente não quer só comida...), se não queremos chamar nossos filhos de Pedro e Paulo, mas de Maicon ou Geovane, se pronunciamos erradamente Paola (Paôla) achando que não somos qualquer um, se fomos levados a encher os nomes dos filhos de y, k, e th, tudo isso certamente revela problemas, de cultura, entre outros, mas também indica que o patamar atual é insatisfatório, que o trivial não satisfaz. Pobres desejam deixar seu estado, remediados querem subir e ser notados, os do patamar "superior" querem ser globais. Não é o que lhes dizem a toda hora que devem ser?

Às vezes, o sonho vem do povão, do jogador de futebol que veio de baixo, e que por isso usa um cordão de ouro. Mas a classe média não é inocente. Uiliam pode ser nome de pobre que sonha deixar de sê-lo, "cófi bleik" é uma hipercorreção que denota que se deixou de ser "caipira", mas "Paôla" é equívoco de quem tem algum lustro, cujo sonho é que a filha seja chique, que o nome revele o sonho dos pais.

SÍRIO POSSENTI É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LINGUÍSTICA/INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM DA UNICAMP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE QUESTÕES PARA ANALISTAS DE DISCURSO (PARÁBOLA)

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