Photo: Joao Caldas F¬? | DIV
Photo: Joao Caldas F¬? | DIV

Um tom abaixo: por que as pessoas ainda ignoram a música clássica produzida em seu tempo?

Por que as pessoas, afinadíssimas em outras formas de arte,ainda ignoram a música que é produzida em seu tempo?

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2016 | 17h00

Impacta e faz pensar a excelente montagem de Vermelho, peça do norte-americano John Logan, em cartaz até dezembro no teatro do Tuca, em São Paulo. A montagem é meticulosamente construída, dos cenários e iluminação certeira à direção segura de Jorge Takla e esplêndida atuação do duo Fagundes, pai e filho, Antonio e Bruno. É, com certeza, o melhor dos mundos. Boa dramaturgia, ótimas performances e um tema mais atual do que nunca. Você sai do Tuca, cujas paredes contam tantas histórias de resistência cultural à ditadura, com muitas perguntas, pertinentes, sobre as angústias e impasses das artes modernas, ditas de vanguarda.

O tema não poderia ser mais instigante. O pintor norte-americano Mark Rothko (1903-1970) recebe, em 1958, uma encomenda: os arquitetos Mies van der Rohe e Philip Johnson lhe adiantam 20% do equivalente, hoje, a US$ 2 milhões por um conjunto de pinturas murais para a sala mais exclusiva do restaurante Four Seasons, no edifício Seagram, na Park Avenue, a mais luxuosa de Manhattan. Rothko, então com 55 anos, já era reconhecido como um dos grandes do expressionismo abstrato, ao lado de Pollock. A peça de Logan recria a gestação das obras e suas dúvidas estéticas e ideológicas que se dissipam após um jantar no Four Seasons. Horrorizado pela função de papel de parede “para ricaços se encharcarem de comida e bebida” que suas pinturas teriam, Rothko devolve o sinal e recusa a encomenda.

Direto ao ponto. Comprava-se, na encomenda milionária, o prestígio do pintor radical, à espera da crescente valorização de suas obras no mercado de arte. Mesmo de difícil aceitação junto ao grande público, as artes plásticas constituem excelente investimento a médio e longo prazo.

Confesso que decidi assistir a Vermelho só por causa da música. Sabia que, em Nova York, Rothko teve como amigo Morton Feldman (1926-1987), compositor de vanguarda, parceiro preferencial de John Cage. Imaginei uma trilha sonora com as peças de Feldman. A comunhão criativa entre eles era muito forte. Rothko ficou conhecido pelos chamados “campos flutuantes de cor”, na expressão de Jonathan Harris. Outro crítico, B. H. Friedman, escreve no prefácio ao livro com escritos do compositor que “a música inerte de Feldman assemelha-se ao Rothko que havia descoberto: uma superfície ‘não precisava ser ativada por uma vitalidade rítmica de um Pollock para se manter viva, [MAS]poderia existir como um estranho e vasto relógio de sol monolítico’”. Ou seja, para telas com sensação mínima de movimento, é ideal a música estática de Feldman.

O compositor diz que aprendeu com Rothko seu método criativo (e os dois com Matisse): “É algo que todo estudante de arte conhece. Chama-se ‘plano pictórico’. Apliquei-o a meus ouvidos, ao plano auditivo (...) trabalho como um pintor, na medida em que observo o fenômeno e o torno mais espesso ou diluído (...) sou a única pessoa que trabalha desse modo, é algo similar ao que Rothko faz, é simplesmente uma questão de sustentar essa tensão ou imobilidade. Encontramos isso em Matisse, a ideia completa de imobilidade. É como algo congelado e ao mesmo tempo vibrante”.

Logo depois que Rothko se suicidou em 1970, um casal [MAS]miliardário [/MAS]de texanos convidou Feldman para compor a música para a “Capela Rothko” que construíram em Houston, obedecendo às instruções do pintor. Horrorizado com uma pesquisa apontando que os frequentadores de exposições ficam em média 7 segundos diante de cada quadro (o tempo de um selfie hoje), o pintor queria fazer do espectador um fiel numa capela. Vale fazer no YouTube – ao som da música de Feldman – o passeio virtual pela capela octogonal que comporta 14 murais em preto.

Música e artes plásticas em profunda comunhão, portanto. Dito isso, tomei um susto no Tuca, porque Antonio e Bruno trafegam a peça inteira ao som de uma trilha sonora supercomportada, com Mozart e Schubert. Saí intrigado. Afinal, Rothko seria um ouvinte ideal para a música de seu amigo Feldman. Teria sido erro da montagem? Difícil. Sente-se a preocupação com cada detalhe. Percebe-se o fino trabalho de pesquisa. O programa, por exemplo, não é luxuoso, mas é perfeito do ponto de vista pedagógico de introdução ao mundo da pintura abstrata no século 20, contextualiza o universo artístico no qual viveu Rothko. O diretor Jorge Takla disse que escolheu Mozart e Schubert porque descobriu que Rothko gostava de pintar ao som dessa música. Sua escolha, portanto, foi corretíssima. Aí desabei. Rothko, amigo de Cage e Feldman em noitadas em Manhattan, conhecia a música do amigo, tão estática quanto sua pintura. E repetia o costume de usar a música clássica, não a contemporânea, mas a música clássica do passado, como música ambiente para criar o novo. E, ao mesmo tempo, recusava-se a deixar sua pintura também existir como mera decoração visual de um restaurante.

A melhor exposição deste paradoxo é a de Edward Said em suas conversas com Daniel Barenboim no livro Paralelos e Paradoxos (Companhia das Letras). A música, ao contrário das demais artes, está fora da moldura cultural do cidadão bem informado. É o sujeito antenadíssimo, mas ignora a música do seu tempo. Música clássica, para ele, é sinônimo de “spa” sonoro.

A grande sacada foi mesmo de Feldman, que deu uma de papagaio de pirata de Rothko. Em artigo para o livro Cem Anos de Música no Brasil (Editora Andreato), o dublê de músico e filósofo Vladimir Safatle mata a cobra e mostra o pau. Afirma que a música de vanguarda norte-americana sacou que, para pular para dentro da moldura do cidadão bem (in)formado, precisava pegar carona no expressionismo abstrato. Igual a Steve Reich e Philip Glass, logo depois, bebendo no minimalismo das artes visuais e levando-o para a música.

E aqui, como alterar tal situação? Imitando iniciativas corajosas como a de Fagundes. Ancorado na superexposição permanente da TV, encena obras inquietantes como Vermelho, em vez de se lambuzar em pecinhas caça-níqueis. Nem a incentivos Fagundes recorre. É sua filosofia de trabalho desde os tempos da sua Companhia Estável de Repertório.

Os grandes nomes da música clássica deveriam bancar de vez em quando um projeto mais contemporâneo, aliando-se a grandes nomes de outras artes para alavancá-los. Só assim a tribo da música contemporânea conseguirá pular pra dentro da moldura do cidadão culturalmente bem (in)formado.

JOÃO MARCOS COELHO, JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, É AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL), ENTRE OUTROS LIVROS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.