Gianni Cipriano/The New York Times
Gianni Cipriano/The New York Times

Uma bienal de Veneza sobre arte, com política contida

Após Brexit e eleição de Donald Trump, evento mantém pauta voltada para a arte

Rachel Donadio, The New York Times 

13 Maio 2017 | 16h00

A Biennale de Veneza de 2015, com curadoria de Okwui Enwezor, às vezes parecia um manifesto político, com leituras de O Capital, de Marx, e obras que falavam de mudança climática, colonialismo e crise de refugiados no Mediterrâneo. A curadora da mostra deste ano, Christine Macel, tem outra meta: pôr os artistas e a prática artística no centro da Biennale. 

Para Macel, curadora-chefe do Centro Pompidou de Paris, a 57ª Bienalle, que será aberta nesta semana, é “uma exclamação, um grito apaixonado pela arte e pelo artista”. Ela acrescentou que esta Biennale “foi desenhada com artistas, por artistas e para artistas”. 

Mas, em tempos como este, de Brexit e eleição do presidente Donald Trump, ascensão do populismo e retorno do nacionalismo, intensa fermentação política e incertezas na Europa e além, terá uma curadora de Biennale condições de focar na arte pela arte?

Quando perguntei isso na semana passada, Christine Macel respondeu que sim, pois é nisso que acredita e é assim que trabalha. “Sou muito ligada em política”, afirmou, caminhando pelos jardins da Biennale. “Mas nem tudo em arte tem de ser sobre política, que é apenas uma de suas dimensões.”

Macel batizou sua exposição de Viva Arte Viva. A mostra se estende do antigo pavilhão italiano ao Arsenal, um espaço cavernoso onde eram construídos navios, e aos jardins em trono. Macel não supervisiona os trabalhos nos 86 pavilhões nacionais deste ano: cada um fica a cargo de um curador escolhido pelo próprio país. 

Viva Arte Viva começa com uma pergunta metodológica: que significa ser artista hoje? A mostra reúne 120 artistas, 103 dos quais participam pela primeira vez da Biennale. 

Macel optou por conceder o Leão de Ouro, pelo conjunto da obra, à artista performática e feminista pioneira Carolee Schneemann, cuja obra, incluindo seu vídeo bacanal Meat Joy, de 1964, força os limites entre dança e arte visual. “Quis prestar tributo a alguém que mudou a definição de artista”, disse a curadora.

“Há muita gente aqui que eu não conheço, e isso é bom”, avaliou Robert Storr, curador e ex-diretor da Yale School of Arte, que foi curador da Biennale de Veneza de 2007. Um dos desafios do cargo, afirmou, é “dar o tom sem ter necessariamente um tema”. 

A Bienalle de Macel ocorre num ano de intensa atividade para a arte mundial, seguindo-se à Whitney Biennial, dominada por debates sobre raça, e à Documenta, neste ano dividida pela primeira vez entre Atenas, Grécia, e sua nativa Kassel, Alemanha.  

Os pavilhões nacionais da Bienalle devem provocar debates sobre a própria ideia de pavilhão nacional. Mark Bradford, por exemplo, está no pavilhão dos Estados Unidos com uma instalação que questiona como representar um país que, segundo ele, não o representa mais. 

Quando Macel foi curadora do pavilhão francês na Biennale de Veneza de 2013, ela escolheu um artista não francês – o albanês Anri Sala, que morava em Berlim – e seu vídeo Ravel Ravel Unrvael, no qual dois pianistas tocam o Concerto de Piano para Mão Esquerda, de Ravel, feito pelo compositor para um pianista que havia perdido a mão na 1.ª Guerra Mundial. 

Ravel Ravel Unravel é uma boa amostra do gosto e pensamento filosófico, poético e estético de Macel, mas com um toque sutil de política: o trabalho aborda a inimizade em tempo de guerra entre França e Alemanha (Anri Sala também tem uma obra na Viva Arte Viva). 

O Pavilhão de Artistas e Livros explora a prática artística expurgada do contexto arte/mercado. A Biennale é uma mostra, não uma feira de arte, embora atraia um número de galeristas que promovem festas em iates. Nesse pavilhão, Olafur Eliasson criou uma instalação que opera como um workshop, na qual migrantes de Veneza acendem lâmpadas. 

Macel reuniu no website da Biennale vídeos de cada artista participante, permitindo aos visitantes familiarizar-se a distância com a mostra. Num projeto paralelo, ela pediu aos artistas que falem de alguns livros que os inspiraram, “como num exercício de autobiografia”. 

De volta aos jardins da Biennale, Macel parou para conferir um trabalho do artista húngaro Attila Csorgo, escolhido por ela como fecho de Viva Arte Viva: uma pequena máquina que projeta numa tela um símbolo do infinito – queria que a exibição terminasse com uma nota poética, espiritual. 

Antes, eu havia perguntado o que ela esperava que as pessoas levassem da Biennale. “Para mim, o pior seria se saíssem indiferentes”, foi a resposta. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

Mais conteúdo sobre:
Arte

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.