UMA LAMA SÓ

Cinco anos depois, o que ficou do acidente com os mineiros no Chile? “A mineração foi modernizada; o problema foi tratá-los como heróis, cada um se sentia muito pequeno por dentro”, diz nesta entrevista Héctor Tobar, autor do livro que inspirou o filme "Os 33"

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2015 | 16h00

 

 

Na crônica dos desastres anunciados, nada figura na memória recente como o desmoronamento na mina em Copiapó, no deserto chileno do Atacama. Na tarde de 5 de agosto de 2010, vários mineiros relataram roncos da montanha dentro da mina de cobre e ouro, aberta 120 anos antes. Mas o gerente Carlos Pinilla não deu ouvido aos seus comandados, embora tenha se apressado a voltar à superfície. Os 33 atingidos pelo desabamento de uma rocha na mina San José passaram 69 dias presos a 680 metros de profundidade, em cavernas estreitas, quentes e úmidas. Nos primeiros 17 dias, quando as equipes de resgate não sabiam que eles estavam vivos, as vítimas enfrentaram o terror de novos desmoronamentos e a morte por fome. Os dias restantes, acompanhados momento a momento, monopolizaram a atenção do público em todo o mundo.

O filme Os 33, que estreou em outubro no Brasil, com Antonio Banderas no papel de Mario Sepúlveda, líder dos mineiros, e Rodrigo Santoro no do ministro chileno de Minas e Energia, foi recebido com reserva pela crítica nos EUA.

Já o livro Na Escuridão (Objetiva), de Héctor Tobar, lançado recentemente no Brasil e que inspirou o filme, foi saudado como uma narrativa esplêndida do drama de Copiapó. Tobar é um americano filho de gualtemaltecos que ganhou o Prêmio Pulitzer pela cobertura dos distúrbios raciais em Los Angeles, feita para o jornal Los Angeles Times. Conhece bem a América Latina e chefiou o escritório do L.A.Times em Buenos Aires na década passada. Também é o aclamado autor de dois romances em que explora a vida latina nos Estados Unidos, The Tattooed Soldier e The Barbarian Nurses.

Nos três anos que passou colhendo depoimentos e escrevendo a narrativa, Tobar teve uma visão privilegiada dos efeitos imediatos e retardados da sobrevivência depois de uma situação tão extrema. Ele conversou com o Aliás após a tragédia da mina da Samarco em Mariana, ocorrida na semana passada, que despejou 50 milhões de m³ de rejeitos de minério de ferro e manganês sobre o Gualaxo, afluente do Rio Doce, e que segue corrente abaixo. A enxurrada deixou pelo caminho uma lista de mortos, outra de desaparecidos e uma terceira de desleixos com questões ambientais e de segurança com a população que vive – ou vivia – nos arredores. Assim como no caso da Samarco, havia alertas sobre segurança na mina chilena, cujo funcionamento não foi monitorado como deveria pelo governo.

Os mineiros foram tratados como personagens de reality show, lembra Tobar. Mas serem chamados de heróis se tornou um fardo. Três semanas depois de emergir do inferno subterrâneo, o mineiro Edison Peña apareceu no David Letterman Show acompanhado de uma tradutora cujo histrionismo só reforçava o paternalismo da situação. “Absolutamente adorável,” proclamou uma reportagem sobre a aparição de Peña. Para toda história de perigo, privação e sobrevivência há o fácil bem-estar de quem nada enfrentou.

Como foi escolhido para escrever

‘Na Escuridão’?

Depois do resgate, os mineiros contrataram o maior escritório de advocacia do Chile, que entrou em contato com a William Morris Endeavor, uma das principais agências de talentos de Hollywood. Assim chegaram a mim. Alguns livros escritos às pressas foram lançados logo depois do resgate dos mineiros, mas ele queriam algo literário. O momento, 2011, era ruim no mercado editorial. Consegui US$ 85 mil de adiantamento por três anos de trabalho, uma quantia modesta. Já escrevi bastante sobre os trabalhadores latinos nas Américas. Além disso, a mineração é uma parte fundamental da identidade chilena. Fiz cinco viagens ao Chile de mais ou menos duas semanas cada. Deixava o gravador ligado horas seguidas, havia muitas lágrimas e também raiva.

Raiva dirigida contra o governo ou

contra a empresa mineradora?

Contra a empresa. O gerente-geral Carlos Pinilla, que não deu importância às queixas de tremores na montanha na manhã do dia do desastre, é a figura mais próxima de um vilão no livro. O jornalista chileno Carlos Vergara Ehrenberg relatou que o governo do presidente Sebastián Piñera começou a fazer pesquisa de opinião duas semanas depois do acidente, para apurar como o público via o papel do governo e dos donos da mina. O caso era também fonte de capital político, como foi o 11 de setembro inicialmente para Bush. As pesquisas revelavam opinião positiva sobre Piñera e seu ministro de Minas e Energia Laurence Golborne, e opinião negativa sobre os donos da mina, uma família chilena-húngara. Um momento crucial foi quando Golborne, que estava no Equador com Piñera na tarde do desastre e embarcou às pressas para Copiapó, caiu no choro ao vivo. Era um empresário sem experiência política e novo no cargo. O governo não acreditava, àquela altura, que o resgate seria possível. Naquele momento, o drama aumentou. O presidente mandou um representante de Santiago para tomar dos donos da mina o controle da operação.

O fato é que, no Chile, a mineração

foi modernizada.

Sim, o Chile tem algumas das mais modernas minas do mundo. Essa mina de cobre e ouro, hoje fechada definitivamente, era de porte médio e já tinha sido fechada antes. O Congresso chileno foi muito crítico, não só quanto aos empresários como quanto à agência do governo que devia ter monitorado a mina. Quando ela foi reaberta, o governo não acompanhou como devia.

Como lidar, na produção de um

livro reportagem, com discrepâncias

nos testemunhos que colheu?

O que observei foram variações de percepção. O líder dos mineiros presos, Luís Urzúa, era muito passivo e pouco fez durante as duas primeiras semanas depois do desmoronamento, o que deixou seus colegas indignados. Já o herói da história, Mario Sepúlveda, também deixou os companheiros divididos. Teria ajudado ou criado problemas? Nas entrevistas, recordaram a degradação física das primeiras duas semanas. Seria muito difícil inventar histórias depois de passar 69 dias compartilhando o subterrâneo da mina. Um deles roubou biscoitos do suprimento de emergência e os outros 32 guardaram segredo sobre isso. Somente começaram a contar durante as minhas entrevistas. Outro segredo mantido foi a intensidade das brigas lá embaixo. Um me contou que adormecia com uma barra de ferro ao lado. Houve brigas, mas também momentos de irmandade, como um piquenique, narrado por Sepúlveda num celular.

Situações semelhantes inspiram livros,

narrativas na primeira pessoa que, por sua vez,

podem ser contestadas. Isto aconteceu depois

do 11 de setembro em Nova York, quando algumas façanhas contadas por um bombeiro foram

desmentidas por seus colegas.

Sobreviventes querem proteger suas memórias. Os mineiros faziam questão de deixar claro o quanto confiaram em Deus e como se apoiaram em orações. No Chile, eram tratados como estrelas de reality show. Havia a expectativa de que iriam enriquecer.

E isso não aconteceu.

Como 33 pessoas podem enriquecer depois de uma experiência como essa? Não sei o quanto ganharam com os direitos do filme e não perguntei. Uma minoria agora quer processar os advogados que os representaram, mas não conheço o mérito da queixa, não tenho opinião. Acho estranho uma firma de advocacia tão proeminente querer faturar à custa dos mineiros. Mas, dito isso, também acho estranho o fato de que nunca traduziram os contratos feitos em nome dos mineiros do inglês para o espanhol.

Não foi só no Chile que os mineiros foram

tratados como estrelas de reality show. Alguns

fizeram turnês, apareceram em talk shows americanos. Qual o custo de tanta atenção na mídia?

O maior problema foi o mundo tratá-los como heróis. Cada um se sentia, por dentro, muito pequeno. O que sofreram lá embaixo foi tortura. Ficaram presos mais tempo do que quaisquer outros na história. Passaram fome e alguns tiveram princípio de falha nos rins. A coisa toda era surreal. E aí começaram as pressões, parentes pedindo dinheiro emprestado, como nas histórias de gente que amaldiçoa ter ganhado na loteria. O mundo não os via como seres humanos feridos. A mulher do mineiro Raúl Bustos disse que o pior que podiam ter feito contra eles era chamá-los de heróis.

É comum os sobreviventes de um desastre que devasta o local de moradia ou trabalho fincarem o pé e sentir apego ainda maior ao lugar

?

Sim. No final, perto do resgate, Víctor Segovia, que manteve um diário dos 69 dias, revela sua tristeza, sabendo que nunca mais descerá na mina. “Eu amo a San José”, escreve. Ele preserva a mina e ataca os que não cuidaram dela. A mina era podre, mas era sua casa, onde ele passou quase 20 anos da sua vida. A mina era parte de sua alma. Um fator de recuperação de uma tragédia como a de Mariana, em Minas Gerais, é retomar tarefas do dia a dia. Logo após o resgate, os mineiros chilenos se sentiam perdidos. É importante voltar para sua casa e, se sua casa não existe mais, encontrar um lar. A rotina da família ajuda a curar a dor.

NOVEMBRO

Dilma Rousseff anuncia que o Ibama multará a Samarco em R$ 250 mi. De propriedade da Vale e da BHP Billiton, a mineradora é acusada de violar a lei no que pode ser

o pior desastre ambiental

do País.

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