Uma nova cara alemã: hoje refúgio para imigrantes, a Alemanha entende a força que tem?

Há um ano, a Alemanha acolhia milhares de refugiados e afastava a imagem de país austero e rigoroso; prestes a receber uma nova onda de imigrantes, seus líderes ainda têm de explicar o que oferecerão a eles

Jochen Bittner, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2016 | 17h00

Em algum momento durante a noite de 4 de setembro de 2015 – exatamente um ano atrás –, a chanceler Angela Merkel tomou uma decisão simples e histórica. Como não queria se tornar responsável por violência e possíveis mortes na fronteira de seu país, ela ordenou ao governo alemão – e, por extensão, à sociedade alemã – que aceitasse milhares de refugiados que haviam sido obrigados a rumar para o oeste pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban.

Quando os trens de refugiados pararam na estação principal de Munique, residentes da cidade não apenas os saudaram. Centenas de pessoas foram à estação de trem para receber os passageiros com sanduíches, água, ursinhos de pelúcia – e com uma sensação de alívio. Qualquer receio da chegada de uma horda de imigrantes foi dissipada pela percepção dos cansados e agradecidos refugiados. Eles pareciam confusos enquanto os alemães os aplaudiam como se fossem corredores de maratona que haviam finalmente cruzado a linha de chegada.

As fotos dessas chegadas, e de outras recepções de refugiados nos dias que se seguiram, se tornaram símbolos da “Willkommenskulturs” alemã, uma cultura de boas-vindas. Embora as calorosas recepções tenham ficado conhecidas assim, na realidade, não expressam estritamente uma cultura. As amostras arrebatadoras de ajuda e humanidade desses momentos foram mais demonstrações espontâneas. Mas uma demonstração do que, exatamente? A resposta para essa questão pode dar uma pista do quanto essas boas-vindas podem durar.

Em retrospectiva, os primeiros dias da “Willkommenskultur” diziam mais sobre nós mesmos do que sobre eles, fornecendo alívio aos alemães em três frentes: alívio de um sentimento de impotência em meio à miséria humana no Oriente Médio em um momento em que a Alemanha estava finalmente se sentindo mais confortável com sua posição de poder dentro da Europa; alívio da crença contemporânea, nascida da crise da dívida grega, de que os alemães teriam o coração endurecido; e alívio da suspeita histórica de que os outros viam os alemães como um povo perigoso e xenófobo.

Considere esse primeiro ponto: aqui está o líder indiscutível da Europa, o país que havia sobrevivido à crise financeira com força suficiente para socorrer os países parceiros sob risco de falência. E ali estava a pior catástrofe humanitária da história recente, logo ali, na periferia da Europa, feita sob medida, parecia, para demonstrar os limites do poder alemão.

Os efeitos da matança, a própria morte, havia alcançado a costa do continente: apenas dois dias antes de Merkel tomar a decisão de abrir as fronteiras, as imagens do corpo afogado do garoto Aylan Kurdi, de 3 anos, encontrado nas areias de uma praia turca, haviam chocado o mundo. O cadáver era uma acusação, e exigia ação.

A população alemã estava tensa. Embora Berlim tivesse emprestado bilhões de euros para a Grécia, as condições associadas ao pagamento foram tachadas de “o diktat alemão”. Jornais gregos retrataram Merkel usando um uniforme nazista. A Alemanha era cada vez mais descrita como uma austera diretora de um órgão burocrático, não amada e excessivamente rigorosa, que tentava impor sua ética protestante do trabalho a qualquer preço. Quando os refugiados chegaram em Munique, os alemães tiveram a chance de corrigir essa imagem distorcida. Olhem, as imagens diziam, nós somos generosos! Nós nos compadecemos de vocês. Nosso patriotismo é altruísta.

Mais que tudo, em um sentido mais profundo, setembro de 2015 trouxe a oportunidade de realizar um outro momento de definição nesse longo movimento histórico da Alemanha, de deixar de ser o maior exemplo de inimigo do mundo livre, para se tornar uma nova terra de liberdade. Sim, muitos migrantes são atraídos para a Alemanha por causa de seu sistema de segurança social relativamente generoso. Mas há mais. Muitos alemães aceitaram o fluxo massivo de imigrantes para o seu país como a confirmação mais forte de que a Alemanha havia se tornado um dos lugares mais respeitados e acolhedores do planeta. Por ingênuo que possa parecer, nós nos vemos procurados não por refugiados – mas por fãs.

O suspiro coletivo de alívio no país era palpável. É certo que a imagem de centenas de refugiados muçulmanos cantando “Alemanha! Alemanha!” enquanto embarcavam nos trens em Budapeste causava ansiedade ao redor de muitas mesas de jantar nas famílias alemãs. Mas também é certo que essa mesma imagem causa um forte sentimento de redenção a muitos outros. Claro, existem aqueles alemães que põem fogo em casas de refugiados. Mas esses bandidos apenas incentivaram a maioria a se esforçar ainda mais para mostrar a benevolência que consideram típicas da sua nação.

Talvez a melhor – e certamente a mais engraçada – expressão dessa nova, autoconfiante germanidade foi um popular vídeo de música gravado pelo comediante Jan Böhmermann. Em uma música heavy metal, ele explica o que significa “ser alemão”: “Acorde, Alemanha, Bela Adormecida. Você ouve o chamado para cumprir seu dever? O mundo está completamente doido. É por isso que você está de volta para ajudar, minha querida!” O comediante está dizendo que a Alemanha se tornou, mais uma vez, uma potência mundial – mas, agora, é uma força para o bem; um super-homem, e não um nietzschiano homem superior.

Mas, se você suspeitar que a Alemanha se movimentou rapidamente do alívio para a hipocrisia, você não está de todo errado. Se esse “poderio alemão” puder ser visto como uma forma dura de soft power – abrindo suas portas para refugiados e implantando missões humanitárias –, então o país ainda tem de trabalhar para entender exatamente quais são as implicações disso.

Por si só, ajudas humanitárias não são um substituto para as demandas da política externa, o tipo de demanda que a Alemanha encara cada vez mais constantemente. A próxima crise de refugiados já paira sobre a África, e, com a cultura de boas-vindas alemã já começando a esfriar, a próxima onda de migrantes não deve ser recebida com os mesmos aplausos. Há um ano, a Alemanha mudou. Mas, um ano depois, seus líderes políticos ainda têm de explicar melhor quais são as feições desse novo país.

JOCHEN BITTNER, JORNALISTA ALEMÃO, É EDITOR DE POLÍTICA DO JORNAL SEMANAL DIE ZEIT

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