Uma pergunta de Faulkner para os EUA de Trump

Estarão hoje os Estados Unidos caminhando para um destino trágico, como tantos personagens implacáveis do escritor, ou terão seus cidadãos a sabedoria para provar que esse país merece sobreviver?

Ariel Dorfman, O Estado de S. Paulo

05 Novembro 2016 | 16h00

Este país merece sobreviver? Essa foi a pergunta feita publicamente por William Faulkner em 1955 ao saber que Emmett Till, um jovem negro de 14 anos, havia sido mutilado e morto numa cidadezinha do Mississippi pela ousadia de ter assobiado para uma branca – linchamento que se constituiu num fato fundamental na criação do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos.

Não esperava fazer tal pergunta nesta peregrinação literária que minha mulher e eu estamos fazendo a Oxford, Mississippi, onde Faulkner viveu a maior parte da vida e escreveu as obras-primas torrenciais que fizeram dele o romancista americano mais influente do século 20. Vínhamos planejando uma viagem como esta havia muitos anos, vendo nela uma ocasião para meditar sobre a vida e a ficção de um autor que me desafiou, desde minha adolescência chilena, a romper com todas as convenções narrativas e arriscar tudo como a única maneira de representar a múltipla fluidez do tempo, a consciência e a aflição, forçando-me a procurar expressar o que significa “estar vivo e saber isso a fundo” no meu Sul chileno, ainda mais remoto e perdido que o infeliz Sul de Faulkner. E, no entanto, essa pergunta acerca da sobrevivência dos Estados Unidos se me depara ao visitar o sepulcro onde descansa, há 54 anos, o corpo do grande escritor, e me acompanha quando caminhamos pelas ruas que ele percorreu. É uma pergunta que não pude evitar ao visitar Rowan Oak, a velha mansão que foi para ele o lar mais permanente.

Se o autor de O Som e a Fúria estivesse vivo hoje, quando sua pátria encara a eleição mais decisiva de nossa época turbulenta, em que um demagogo demente aspira, insolitamente, a ocupar a Casa Branca, não há dúvida de que, frente a “um momento incompreensível de terror”, ele voltaria a fazer essa dolorosa pergunta aos seguidores de Trump, desafiando-os a repudiar uma política de ódio. Faulkner faria isso, acredito, lembrando-se dos personagens dos próprios romances, que, possuídos por um excesso de raiva e frustração, acabam se autodestruindo e destruindo a terra que amam, incapazes de superar o passado obscuro e selvagem que herdaram.

Sem dúvida, haveria muito nos Estados Unidos de hoje que Faulkner não reconheceria. Ainda que tenha escrito sobre o dilema dos afro-americanos com notável inteligência emocional, descrevendo como os descendentes de escravos superaram “com orgulho inflexível e severo” a carga imposta por um sistema injusto e corrosivo, esse filho do Sul dos Estados Unidos, suspeitando de mudanças drásticas, pregava paciência e gradualismo para vencer as barreiras do racismo. Um homem que não chegou a ouvir o discurso de Martin Luther King em Washington, e a quem teria parecido inverossímil que alguém nascido da mestiçagem pudesse ser presidente, teria pouco a ensinar a esses Estados Unidos tão multiculturais e abarrotado de novos imigrantes. Igualmente difícil para Faulkner teria sido entender as mulheres do século 21, cuja emancipação e autossuficiência feministas jamais previu.

Entretanto, outros aspectos menos invejáveis dos Estados Unidos seriam tristemente familiares a Faulkner.

Teria ficado espantado – ainda que sem estranhar – frente à perigosa figura de Donald Trump. Em seu vasto e devastador universo fictício, Faulkner já havia criado uma encarnação sulista de Trump, embora em escala menor: Flem Snopes, um predador voraz e inescrupuloso, com “olhos da cor da água parada”, que chega ao poder por meio de mentiras e intimidação, enganando e zombando dos ingênuos que se julgam mais espertos que ele. Flem e seu clã representavam para Faulkner aqueles seus concidadãos que “a única coisa que conhecem e na qual acreditam é o dinheiro, não dando a mínima para o modo como o conseguem”. Se uma caterva como a dos Snopes chegasse a proliferar e tomar as rédeas do governo o resultado seria, segundo Faulkner, catastrófico. As últimas pesquisas indicam que semelhante apocalipse eleitoral, salvo uma surpresa do tipo Brexit, é cada vez mais improvável, mas o simples fato de que um ser tão patológico e amoral seja um candidato viável teria enchido de asco e pavor o autor de Absalão, Absalão!

Os adeptos de Trump provocariam hoje uma reação muito diferente de Faulkner. Embora ele fosse, para seu tempo, politicamente liberal e progressista, esboçou com carinho e humor as vidas daqueles que hoje constituem – peço desculpas pela generalização, sempre reducionista – o núcleo central dos partidários de Trump: caçadores e patriotas que temem uma conspiração que venha a tomar suas armas de fogo; homens pouco informados que se aferram a uma virilidade ameaçada e a tradições atávicas; moradores de comunidades rurais ou economicamente deprimidas que se sentem ultrapassados pela maré incontível da modernidade, indefesos frente a uma globalização que não podem controlar. Faulkner sempre condenou o preconceito racial e a paranoia desses seus conterrâneos desorientados, mas nunca se mostrou superior a eles, concordando sempre com aquilo que desejavam fervorosamente então e desejam hoje: o respeito a sua plena dignidade humana. Faulkner teria compreendido as raízes da antipatia dessa gente à qual tinha tanto apego, a inquietação irracional de muitos americanos de raça branca ante o assédio a sua identidade e privilégios.

É isso que torna hoje tão valiosa a voz de Faulkner.

A simpatia manifestada por esse romancista insigne e sofisticado pelos colonos pouco educados, religiosamente conservadores, de seu imaginário condado de Yoknapatawpha, o fato de preferir a companhia dessa classe popular e menosprezada às tertúlias e ao elitismo abstrato de intelectuais sofisticados fazem dele o emissário ideal para abordar os apoiadores de Trump com uma mensagem contra a intolerância e o medo, uma mensagem que vem de além da morte e não tem o menor traço de paternalismo ou desdém.

Ao contemplar o pequeno e frágil escritório de Faulkner em Rowan Oak, onde escreveu o discurso que pronunciou na formatura de sua filha Jill no colégio local, ouço o eco dessas palavras tão pertinentes a seu país atual. Exortou os companheiros de classe da filha a se tornarem “homens e mulheres que nunca se rendam ao engano, ao medo ou ao suborno”. Disse-lhes, e o reitera obstinadamente a seus compatriotas em 2016, que “temos não apenas o direito, mas o dever de escolher entre a coragem e a covardia”, exigindo que “nunca tenham medo de levantar a voz em defesa da honestidade, da verdade e da compaixão, e contra a injustiça, a mentira e a avareza”.

Cairão os Estados Unidos no abismo e no desconsolo?

Estará hoje esse país caminhando fatalmente para um destino trágico, como tantos personagens implacáveis de Faulkner, ou terão seus cidadãos a sabedoria para provar, de forma contundente e avassaladora, que, efetivamente, seu país merece sobreviver? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

ARIEL DORFMAN É ESCRITOR, AUTOR DE ALLEGRO, ENTRE OUTROS LIVROS, E VIVE COM A MULHER NOS ESTADOS UNIDOS E NO CHILE

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