Uma senhora batuta

Porque a lição que vale é a seguinte: não existe música clássica ruim, você é que estudou pouco

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 02h03

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A BOA AULA COM... | Gaetana di Ricco

A mais exigente e presente fã da Osesp

 

ALEGRO ASSAI - Seu lugar fixo é no camarote mezanino. Não é o melhor

em termos de som, mas é de onde pode sentir o perfume dos músicos

 

Me chamam de Caetana. Mas meu nome é Gaetana. Com G. Gaetana Maria Jovino di Ricco. Raramente acertam, não me importo mais. Dizem que sou a fã número 1 da Osesp, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Nisso não erram. Sou, com muito orgulho. A acompanho há dez anos, duas vezes por semana no mínimo. Hoje vem em casa um repórter que quer saber mais dessa minha paixão. Se perguntar o que penso das mudanças na direção da orquestra, vou dizer. Estou com 77 anos, aposentada, viúva, dirijo minha vida. Não devo nada a ninguém. As mudanças foram dramáticas. Tínhamos um maestro que era a nossa alma (quando digo "nossa" me refiro à orquestra, pois me sinto parte), o John Neschling. Sei que no final ele extrapolou, andava desrespeitoso. O vi mais de uma vez gritar com os músicos como se fossem empregadas domésticas: "Vá afinar o seu instrumento! Vá já!" A mulher devia ter cuidado mais dele. Ninguém o levou a uma clínica, nada. E o Neschling não era assim. Foi o Conselho da Fundação Osesp que o tirou do prumo, porque ali ninguém entende patavina de música. O Fernando Henrique Cardoso, que preside o Conselho, sempre aplaude entre os movimentos. Palmas somente no final, isso é tão básico... Paciência. O Neschling perdeu o emprego e nós perdemos muito mais. Tínhamos uma tempestade na regência. Ficamos com a calmaria de um lago francês na montanha, o Yan Pascal Tortelier. Bom regente, mas não é um appassionato. Jamais foi ao cafezinho falar conosco.

 

UM SOPRO - O bonitão Dissenha. COLEÇÃO - Os programas são para ser lidos e anotados, ela ensina

PRESTISSIMO

Quando o repórter chega eu já estou pronta. Calça preta, camisa vermelha combinando com o batom e o esmalte das unhas, blazer branco e bolsa preta com desenhos dourados. Concerto requer capricho no vestir, embora nem todos deem a devida importância. Tenho visto muitos tênis na sala, tênis imundos. Algumas pessoas nem banho tomam, vão direto do trabalho. Como se dispõem a assistir a algo tão especial sem tomar banho? Concerto não é jogo de futebol. Hoje tem Mahler no programa, Sinfonia Nº 5 em Dó Sustenido Menor. Ninguém aguenta Mahler sem dedicação, disposição e uma boa ducha. Antevejo muitos cochilos na plateia. O público anda uma lástima ultimamente. Aos sábados e domingos, as agências de viagem despejam ônibus inteiros de turistas interessados apenas em contar depois que estiveram lá. Eles não vão pela música. A falta de tradição escolar abre esse vazio, que há de se fazer? Convido o jornalista para um café na esquina. Ele ensaia apanhar do sofá a mochila e eu digo não senhor, nada disso, já se foi o tempo em que o homem que me acompanhava precisava da carteira. Antigamente vocês achavam que se pagassem a conta estavam nos valorizando. Eu fiquei 33 anos casada e meu marido nunca me levou a um concerto. Dizia que música era um ruído como outro qualquer. Por isso digo que foi a Osesp, que comecei a frequentar em 1999, muito depois da morte dele, que me ensinou a viver. Na sala, observando o comportamento alheio, vi que não há mal em cumprimentar desconhecidos com beijinhos no rosto. Eu, que só estendia a mão, tornei-me grande beijoqueira.

ADAGIETTO

Hoje foi impossível me preparar para o concerto do jeito que gosto. Não ouvi as peças do programa de logo mais porque meu aparelho de som está no reparo. Quando me perguntam se toco algum instrumento, respondo que toco o melhor deles: CD. Tenho cerca de 300 títulos em minha coleção - exclusivamente de música erudita, obviamente. Criei um método muito bom de organizar os CDs, que ocupam diversas caixas de sapato sem tampa dentro de um armário. Em uma agenda de telefone, dessas com páginas dispostas em ordem alfabética, anoto os nomes dos compositores. Na frente escrevo os títulos das peças e o número do CD em que elas se encontram. No CD colo uma etiqueta com esse número. Parece complicado, mas eu entendo. Faço o mesmo com a coleção de programas da Osesp. Tenho todos, desde o primeiro, guardados em sacolas de papelão em cujas laterais anoto os anos com canetinha. Como são dez anos de paixão, tenho dez sacolas de programas mensais. São essenciais. Neles aprendo sobre o que vou ouvir, sobre quem vai reger ou executar, e deito minhas impressões pessoais. Dou três pontos de exclamação quando gosto muito de determinado movimento, por exemplo. Também descrevo as roupas e os trejeitos dos solistas, de onde vêm, se o autor está vivo ou já se foi, e a presença de instrumentos incomuns. Hoje, no Mahler, teremos chicote na percussão, informa o programa. Preciso ficar atenta, porque existem muitos tipos de chicote. É impensável ir à sala sem o programa da noite. Muitos vão, mas estes acharão tudo chatíssimo, ruim. Contudo, não existe música clássica ruim, você é que estudou pouco. Antes de sairmos, vou retocar o batom e quando volto o repórter está a olhar meus porta-retratos: um tem uma fotografia minha do tempo que eu era mais esguia; noutro está minha filha com meus três netos; no terceiro, sozinho num móvel com jeito de altar, fica o Neschling.

ANDANTE CON SPIRITO

Suspeito que o jornalista tenha ficado assustado quando eu disse que ia guiando. Ele esperava um chauffeur, certamente. Mas sou boa motorista. O trânsito pode passar em presto, prestissimo lá fora, eu vou sempre em gravissimo, no máximo em adagio. Meu automóvel tem nome: Fernando Dissenha, em homenagem ao primeiro trompete da orquestra. Não só porque ele toca meu instrumento preferido - que considero sublime representante do sopro da vida e do sopro da morte -, mas porque o Fernando é um artista de cinema. Que homem. Já mandei até fazer camiseta com foto dele. Usei a foto que estava no primeiro programa e precisei corrigir à caneta, devolvendo-lhe os óculos que ele tirou para fazer o retrato. Gosto do meu bonitão de óculos. Ele fala pouco comigo, me acha extravagante demais. Eu não me incomodo. O tráfego está carregado, mas a viagem até a Sala São Paulo segue agradável. Conto sobre as viagens que faço pelo menos uma vez por ano para conhecer casas de ópera e de concerto no exterior. Metropolitan de Nova York, Scalla de Milão, Royal Opera House de Londres, Sydney Opera House, Veneza, Madri, Paris... Conheço todas. A cada tour elejo um músico da Osesp para presentear. Já trouxe prendedor de gravata em forma de clave de sol para o primeiro oboé, o Arcádio Minczuk, livro sobre o czar da Rússia para o Eduardo da trompa, disco para um dos percussionistas... Eu viajo e a orquestra vai comigo - no coração. O repórter está tão quieto... Será que passa mal? Aumento o rádio do carro um bocadinho, quem sabe se anima. O Plácido Domingo está divino nesta gravação. Resolvo questionar sobre a formação musical do jornalista. Martinho da Vila e Jorge Ben por parte de pai, Roberto Carlos e Beatles por parte de mãe. Meu Deus. Esse moço precisa de ajuda. Ensino com prazer, afinal fiz isso a vida inteira. Foram 30 anos como diretora e supervisora de escolas públicas e particulares depois que me formei em pedagogia na USP. Me especializei e tenho duas obras publicadas sobre alfabetização de adultos. Portanto, um a mais, um a menos, não faz diferença. Na sala, a primeira providência será obrigá-lo a comprar (e ler) o programa antes do início da apresentação. Custa R$ 9, se ele não tiver eu pago.

ALLEGRO MA NON TROPPO

Chegamos. Vamos direto ao cafezinho. Quem será aquele rapaz no balcão? Veste-se de músico, mas nunca o vi antes. Vou acenar para ele:

- Venha cá, por favor.

- Pois não?

- Você é músico da orquestra?

- Sim.

- O que você toca?

- Flauta. Me apresento ocasionalmente com a Osesp.

- E você acha que dá conta do recado?

- ...

- Acha?

- Por que a senhora não ouve e me conta depois?

Olha lá o David Marques da viola. Está vindo para cá:

- Boa noite, d. Caetana. Como vai?

- David, você conhece esse flautista que estava aqui. É boa gente? Toca direito?

- O Edson Beltrami. Se é boa gente, não sei, d. Caetana. Mas é excelente músico, a senhora fique despreocupada.

LARGHETTO

Faltando dez minutos para começar nos dirigimos ao interior da sala, onde a mágica acontece. Tenho quatro assinaturas para o camarote mezanino número 11 (para a temporada 2010, o preço é de R$ 427 cada). Elas me dão direito a um concerto por semana, o ano inteiro. Quando quero mais, compro ingresso avulso. Olhando o palco de frente, meu camarote é o da esquerda, acima do palco. O som que chega ali não é dos melhores, mas não me importo. O que me interessa é ficar o mais perto dos músicos que eu puder. E eu fico. Sento na primeira fileira, de onde posso sentir o perfume da percussionista que toca bem abaixo de mim. Esta noite, antes de Mahler ouviremos Bernstein, a Serenade After Plato's Symposium. Regência do Tortelier, violino solo do Vadim Gluzman. Ele é da Ucrânia, leio no programa, onde grifei as palavras "serenata particular", "o amor sob uma forma nova, alegre e festiva" e "festejo sobre tema amoroso". Extraordinário. Dei três exclamações para o quarto movimento e senti vontade de dar outras tantas (três é a nota máxima, nas minhas regras) para o Gluzman. Além de espetacular solista, é bonito toda a vida, Nossa Senhora... E gentil, pois repassou as flores que recebeu para a Heloísa Meirelles, nossa violoncelista, que acabou de ganhar bebê. Um cavalheiro. Ele volta para o bis e eu, talvez num tom de voz inadequadamente alto, digo, quase brado, para que não toque Bach. Um vizinho de camarote me olha torto. Eu gosto de Bach, mas é para quando eu ficar mais velha. No cafezinho do intervalo, uma conhecida pergunta o que eu estou achando do Arthur Nestrovski, novo diretor artístico da orquestra. Nada, ele acabou de assumir. Ainda não fez nada. Vamos aguardar. Ela então me oferece um docinho, que recuso. O ucraniano já me saciou plenamente.

MOLTO VIVACE

De volta ao camarote avisto meu bonitão, o Dissenha, que não tocou na peça anterior. Mostro sua bela figura ao repórter, mas ele parece ter dificuldade de vislumbrar qualquer homem bonito no local para onde aponto. Então procuro ser mais específica: é aquele de testa beeeem alta, está vendo? Ele não é uma graça? Não ouço resposta. Enfim, o Mahler. Escrevo no programa que pizzicato no contrabaixo fica lindo, que o chicote aparece no terceiro movimento e que o quarto é usado no Morte em Veneza do Luchino Visconti. Três exclamações, por certo. Foram 68 minutos extraordinários. Sem dúvida a melhor execução da 5ª pela Osesp. E olha que a anterior, em 2004 se estou bem lembrada, foi conduzida pelo Neschling. Depois de ver o Tortelier suando a casaca, todo saltitante no pódio, o repórter quer saber se o achei mais appassionato desta vez. Deveras. É forçoso admitir que sim. Ele esteve brilhante. Deve estar felicíssimo com a renovação de seu contrato. Na volta para casa, em minha disqueteira de dez CDs, opto por Shostakovitch, que o Neschling nos ensinou a gostar. Ai, ai, que noite!

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