André de Oliveira
André de Oliveira

Uma tarde mil grau

Ele se aproximou do assediador do trem e mandou a real: ‘Infelizmente, você acabou de encontrar coisa ruim na sua frente. Tô saindo da cadeia’

André de Oliveira, O Estado de S. Paulo

18 Abril 2015 | 16h00

Antes do dia 8 de abril, quarta-feira, seria possível dizer, sem mentir, que desde os 14 anos Robson de Almeida Olavo, 24, esteve envolvido em contravenções diversas, que já trouxe muito desgosto para seus familiares, que tem sido um pai pouco presente e nada exemplar, que já roubou, que até recentemente atuava no tráfico como usuário e negociante, que já foi preso duas vezes e que, por enquanto, não dá mostras de que vai enveredar por caminhos diferentes. Mesmo ressaltando o fato de que sua vida - numa periferia distante nada menos do que 35 km do centro da cidade - não é das mais tranquilas, pouco comentarista sentiria empatia por ele. Depois do dia 8, no entanto, sua história ganhou um capítulo novo. Recém-saído do xadrez, Robson presenciou um caso de assédio sexual no vagão em que viajava e não pensou duas vezes: levou o bolinador ao chão, aplicou-lhe uma gravata e o manteve preso até a próxima estação, onde terminou o serviço entregando o sujeito à polícia.

- É, doutor, eu tinha que ir lá no Fórum da Barra Funda para dar baixa na captura. Era umas duas horas da tarde quando saí do Itaim com meu colega Wagner e quando chegamos lá já era umas quatro. Dei baixa, a gente comeu uns lanches, pegamos o metrô normal e viemos embora. Foi quando descemos no Brás pra trocar pra CPTM, deixamos o primeiro trem passar e já ficamos por lá na boca da porta. Dentro do trem, quando a gente já tinha passado um pouco pela garagem que tem ali, onde os trens ficam em reforma, escutei uma gritaria no fundo do vagão, já levantei e falei alto “o que é que tá acontecendo aí?”.

Olhando o pátio de manobra dos trens, Robson ia pensando no que tinha vivido nos últimos cinco dias. Domingo, 5 de abril, foi preso, enquadrado no artigo 155 do Código Penal que trata de furto: “subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel.” A pena pode variar de um a quatro anos de reclusão ou multa. Na cela da 63ª Delegacia de Polícia, do Jacuí, morou cerca de três dias com mais ou menos 20 outros detentos. “O terror é quando aquela grade bate fechando. Pra falar na linguagem da rua, aí o negócio é mil grau.” Na terça-feira, 7 de abril, foi posto em liberdade provisória, mas não voltou para casa. Depois de inúmeros desentendimentos com a família, estava vivendo na rua já fazia um mês. Dormiu - ou mal dormiu, porque, como ele disse, “quem vive na rua dorme de dia e fica esperto de noite” - e na tarde seguinte foi dar baixa na captura, procedimento que atualiza a situação legal e impede que alguém em liberdade provisória seja confundido com um fugitivo.

- No fundo do trem, uma senhora disse pra mim que era tentativa de abuso sexual. Aí eu já fiquei com o coração apertado e pensei na minha filha. Eu posso dizer que eu estava cheio de ódio pela situação em que me encontrava, então já fui avisando o cara: “Infelizmente, se estiver ocorrendo isso aí, você acabou de encontrar uma coisa ruim na sua frente, tô acabando de sair da cadeia!”. Nessa hora, porém, a população assustada se afastou e eu vi a Débora se tremendo toda no chão. Aí eu puxei o cara e vi a braguilha dele aberta com os órgãos genitais para fora. Daquele jeito!

A Debora Lucas Cardoso tem 34 anos, é vendedora na região do Brás, e voltava para casa com mais três amigas, por volta das 17h30, quando tudo aconteceu. “O vagão não estava tão cheio, então eu achei meio estranha a aproximação daquele jovem senhor. Eu fiquei meio receosa, mas não tinha certeza do que estava acontecendo e também não querendo acreditar no que poderia ser. Foi quando eu olhei para trás e vi que ele estava com o órgão na mão, se esfregando em mim.” As amigas da Debora empurraram e deram tapas no homem, um passageiro levantou e foi tirar satisfações com o sujeito, mas foi só quando o Robson chegou e começou a perguntar o que estava acontecendo é que as pessoas passaram a gritar: “Jack! Jack! Jack!”, uma referência torta ao estripador, que fez de tudo, mas, até onde se sabe, não era estuprador.

- Foi a hora que nem eu, nem a população, nem os marreteiros (os camelôs dos trens) aguentamos. A gente batemos mesmo. Eu acho que a pessoa pode ser um ladrão, pode ser um tudo o que for nessa vida, mas estuprar e abusar de mulher não. Na cadeia esse cara é maldito, considerado um Duque 13, o cara que foi pego no artigo 213 de estuprador. Não vou mentir, já tava indo apertar o botão pra abrir a porta e jogar ele ali no trilho mesmo. Porém, foi a hora que tocou o sinal e falou “Estação Tatuapé”. Aí eu fiquei segurando ele e, quando chegamos na estação, já tava uma muvuca e eu saí com as meninas pra falar com os polícias. Até apelidei um deles de bigode. Quando me pediram os documentos, eu já disse: “Ó, não vou dar meu RG pro senhor, não. Vou fazer melhor, vou dar logo meu alvará de soltura, tô saindo da cadeia agora e me encontro nessa situação”. 

Como se soube depois, o acusado de assédio, Cleber dos Santos Silva, 42 anos, era segurança da própria CPTM. Em nota sucinta, a empresa informa que o “empregado foi demitido por mau procedimento e sua atitude não condiz com a postura que se espera dos profissionais que atuam no sistema”. O Boletim de Ocorrência 90014/15 foi registrado na Delegacia do Metropolitano (Delpom), que atende ocorrências nas dependências das estações. O acesso ao B.O, na delegacia e na assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, é negado para consultas. O máximo que se consegue é uma versão editada para distribuição à imprensa e ditada por telefone. Por isso, não foi possível localizar o ex-segurança, que em seu testemunho negou tudo. Indiciado por importunação ofensiva ao pudor e ato obsceno contra a dignidade sexual, ele foi liberado pela polícia. Os crimes podem render até dois anos de prisão e ele responderá em liberdade.

- Deus ama o pecador, mas abomina o pecado. Ele foi muito misericordioso comigo. Me colocou naquele vagão para estar ali ajudando aquela jovem. Eu não queria ter tirado o pão de cada dia da família do segurança, mas infelizmente ele se deixou ser mais fraco e aprontou essa. Todo mundo merece uma segunda chance, mas o que ele fez... Deus vai ter que trabalhar muito no meu coração pra me fazer perdoar. Por enquanto, só Jesus.

Não existe nenhum dado atualizado e disponível para consulta do número de casos de abusos que acontecem por ano no Metrô ou na CPTM. Em 2014, no entanto, o Estado apurou, junto a Delpom, que, de janeiro a março, 22 casos dessa natureza foram registrados nos trens metropolitanos e no Metrô. “Desse jeito eu nunca tinha visto acontecer, mas ser mulher no transporte público é horrível, a gente se sente acuada o tempo todo e eles não fazem nada, não mudam nada. Além disso, eu denunciei, mas imagina quantas não denunciam por medo, vergonha?”, pergunta retoricamente, a Debora. O assédio não é de hoje. Ano passado, inclusive, a criação de um vagão exclusivo para mulheres foi aprovado na Assembleia Legislativa de São Paulo, mas a iniciativa foi vetada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Segundo ele, a proposta era bem intencionada, mas a segregação não seria o melhor caminho para se resolver o problema - opinião apoiada por diversos movimentos feministas.

No Jardim Nélia, extremo leste de São Paulo, pra lá dos lados do Itaim Paulista, fica a casa dos pais de Robson, para onde ele voltou na sexta-feira, 10 de abril, e também onde aconteceu a entrevista na segunda-feira, 13. Parede de cimento cru, muro alto, a casa é humilde, mas própria, bem-equipada e muito bem-cuidada pela mãe de Robson, Laureci de Almeida Santos, 59 anos. Hoje, ela levanta algum dinheiro fazendo bicos eventuais como doméstica, vendendo geladinhos produzidos a partir do pé de maracujá plantado na laje e fabricando produtos de limpeza no quintal. É praticamente a única renda da família, já que o pai, Raimundo Olavo, 63 anos, está desempregado e, depois de uma úlcera, luta para receber uma aposentadoria referente aos anos de serviços precarizados e sem registros em que ralou durante a vida. “Você sabe como é mãe, né? Quando ele saiu de casa, eu nem conseguia dormir de preocupação, imaginando ele na rua. Agora estou muito contente pelo que ele fez e por estar de volta aqui”, conta Laureci. 

A iniciativa de Robson ao ajudar Debora abriu uma possibilidade de reaproximação com sua família e transformou o passado recente de envolvimento com drogas e crimes em algo aparentemente mais longínquo. Oferecendo assento, ele puxou um cigarro de marca desconhecida - o que lhe rendeu uma reprimenda do pai, que passava por perto- e começou a falar do caso. A entrevista foi interrompida inúmeras vezes pela Tainá, sua filha de 7 anos, que, visivelmente orgulhosa do pai, arranjava todo tipo de pretexto para ouvir a história, apesar da proibição dos avós. Hoje, eles ajudam a ex-mulher de Robson a criar a garota. Quando o assunto chegou em sua vida pessoal, no entanto, o pai Raimundo e a filha se acomodaram por perto, em silêncio.

Contando rápido, sem pausas e evitando detalhes, Robson diz que desde muito cedo as coisas desandaram. Aos 14 anos, ele começou a consumir drogas e se envolver com o tráfico. “Você ficava naquela coisa de que não quer depender do pai e da mãe, quer estar bonitinho, andando nos kits, roupinha, perfume e é assim que começa”, diz. Por volta dos 19 se separou da mulher, a mãe de Tainá, e perdeu um emprego como cobrador da linha “Metrô Alvim - Costa Norte”, da companhia de ônibus VIP. Aos 21, foi preso pela primeira vez em uma tentativa de roubo a um caminhão do Sedex, amargou uma semana de prisão e foi solto. Passou quatro meses em um centro de reabilitação ligado a Assembleia de Deus que sua família frequenta no bairro, mas não conseguiu se afastar da “maldição do crime”, como define.

“Eu cheguei em São Paulo em 1972, vindo de São Pedro dos Ferros, em Minas Gerais, e fui passar fome lá no Largo de São Sebastião, em Santo Amaro”, foi dizendo Raimundo, quando Robson terminou seu relato. “Vim revirando tudo que é bairro nessa cidade, mas nunca esqueci as coisas que meu pai dizia lá na roça. E não venha me falar que esse negócio de droga é novo, já escutei entrevista até com o Nelson Gonçalves dizendo que na juventude ele parava show na metade pra ir atrás da danada. Eu já dei todos os conselhos, agora cabe a ele parar com essas besteiras”. O Robson esboça uma resposta, diz que o pai é da roça, que é muito difícil de entender, mas, ligeiro, passa a assentir com o que seu velho diz: “Sim, senhor, pai, o senhor tem razão”.

Esperando a decisão da Justiça, Robson pode voltar a qualquer momento para a cadeia. Como é reincidente, as chances são maiores. Sua esperança, ele diz, é ficar tranquilo, arrumar um emprego, cuidar da família, reconquistar a confiança dos pais. Pergunto se ele tem algum herói. “De televisão não, minha herói mesmo é minha mãe, que é uma guerreira por ter me criado e estar aguentando tudo isso.” Um time de futebol? Sim. O tricolor paulista, mas ele nunca foi ao estádio. Um desejo? Ir para bem longe daquela região que o introduziu na “faculdade do crime”, ensinando-lhe as piores coisas. Para Robson, tudo que não é seu bairro é centro. A Avenida Marechal Tito, maior rua comercial do Itaim Paulista, é centro. O Brás, onde Débora trabalha, é centro. A Barra Funda, onde foi dar baixa na captura, é centro. Mas pro centro da cidade mesmo ele foi só uma ou duas vezes. Aliás, Robson nunca saiu de São Paulo.

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