Mary Turner/Reuters
Mary Turner/Reuters

Vencedor do Man Booker Prize chega ao Brasil em 2018

'Lincoln no Limbo', de George Saunders, surpreendeu em prêmio britânico

Paulo Nogueira*, Colaboração para o Estado

25 Novembro 2017 | 16h00

Há cerca de um mês, na véspera do anúncio do Booker Prize 2017, o Guardian projetou o perfil estatístico do vencedor daquele que, embora restrito ao idioma inglês, para alguns (entre os quais talvez eu me inclua de fininho) é hoje um prêmio literário com mais pedigree que o próprio Nobel. 

Nos 47 anos do Booker, do retrato falado do ganhador assomava um quarentão britânico, que estudara em escolas particulares, autor de pelo menos seis títulos. O livro premiado teria pouco menos de 400 páginas e se desenrolaria antes da década de 1950, com um protagonista masculino. Entre os vencedores, 31 eram homens e 16, mulheres. Dez deles eram negros, asiáticos ou de minorias étnicas.

+++ Paul Auster é o favorito ao Man Booker Prize com o monumental '4321' 

Nos últimos tempos, porém, esse padrão – que entronizou colunáveis das letras como A. S. Byatt, John Banville, Iris Murdoch, J. M. Coetzee, Nadine Gordmer, Julian Barnes, Ian McEwan e Kazuo Ishiguro – começou a mudar. Em 2013, a Fundação Booker anunciou sua “expansão global”, admitindo qualquer ficção em inglês, desde que editada no Reino Unido. No ano passado, o felizardo foi o americano Paul Beatty, com O Vendido. Este ano, entre os seis finalistas metade era dos EUA: Paul Auster, Emily Fridlund e George Saunders. 

A vitória do azarão Saunders foi o tiro de misericórdia nas barbadas para o Booker: americano, ele tem 59 anos e concorreu com seu primeiro romance, Lincoln in the Bard (Lincoln no Limbo na tradução brasileira de Jorio Dauster, prevista para março de 2018). Também no Guardian, há duas semanas o romancista inglês Tibor Fischer chorou patrioticamente as pitangas, resmungando que os prêmios literários dos EUA não contemplam britânicos. 

+++ Escritora indiana Arundhati Roy retorna à literatura 20 anos depois de ser premiada

A semente do romance – o presidente Abraham Lincoln abraçando seu filho Willie, morto aos 11 anos de febre tifoide – acossou Saunders durante 20 anos. Em 2012, ele peitou seus demônios e pôs mãos à obra, fazendo de conta que Willie vegetava no bardo, uma espécie de limbo para os budistas tibetanos. Reza a lenda que Lincoln se esgueirava de madrugada para o túmulo do filho, carpindo sobre ele num lamento elegíaco. Esta imagem, real ou mítica, lembrou ao autor a Pietà de Michelangelo.

É difícil isolar George Saunders da sua biografia, que inclui precariedade e pobreza. Natural de Amarillo, Texas, nasceu num bairro operário, e foi o primeiro da família a terminar o ensino médio. Formou-se em engenharia geofísica e é professor de Escrita Criativa em Syracuse, NY. Estreou na literatura tardiamente, aos 39 anos, com uma coletânea de contos – seu gênero exclusivo até o romance Lincoln no Limbo. As principais influências de Saunders são Hemingway, Raymond Carver e Donald Barthelme (mas sem a pose ou as obscuridades maneiristas deste último). Saunders é tietado pela maioria dos autores contemporâneos badalados, mas, ao contrário de por exemplo um James Joyce, não é um escritor de escritores. 

Tudo bem: o primeiro contato com o universo literário de Saunders desconcerta – o que é quase sempre bom. Reina em seus contos um hiper-realismo meio que alucinatório, com tramas ao mesmo tempo destrambelhadas e naturalistas, alicerçadas num torvelinho textual febril, esbaforido. Novidade absoluta. Como disse Fernando Pessoa (sim, o próprio) em seu slogan para um anúncio da Coca-Cola: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se.” 

No Brasil já está editado o fabuloso Dez de Dezembro, o mais recente volume de contos do autor, publicado nos EUA em 2013. Pulsam aqui todos os temas de Saunders: o “pathos” das classes médias baixas, a obediência à autoridade (a despeito das consequências morais), a ansiedade mórbida por ser aceito a qualquer preço, as ambições neuróticas e as falhas burlescas mas sem remissão. Enfim, os íncubos e súcubos do sonho americano, tudo banhado por uma estranha e reticente esperança. O absurdo sistêmico que impregna essas histórias recorda também Kurt Vonnegut., mas sem os códigos da ficção científica, e com compaixão e doçura, ainda que sarcásticas.

Daí que estes dez contos estejam todos imbuídos de lusco-fuscos prismáticos: são agridoces e tragicômicos, sempre sensíveis à injustiça (seja do destino, seja da sociedade), mas nunca doutrinários ou unidimensionais. No primeiro, No Colo da Vitória, até o odioso raptor russo – o indefectível vilão do imaginário ianque – recebe seu quinhão de empatia. Em Al Roosten (talvez o meu predileto) a acuidade psicológica é quase excruciante, desvendando toda a ambivalência de que a alma humana é capaz, com a maior cara de pau. Igualmente de cair o queixo é o distópico Fuga da Cabeça da Aranha, no qual um jovem presidiário é injetado com uma gama de soros que induzem sucessivamente a luxúria, a eloquência e o desespero (“imagine a pior coisa que você já sentiu, e multiplique por dez”). 

Saunders não entrega o ouro sobre quanto tempo leva para escrever um conto: “Pode ser um dia, ou 15 anos.” “Um dia” eu tomo a liberdade de duvidar, ou de aceitar apenas como licença ou charminho poéticos. Uma retórica assim dá um trabalhão. Saunders é sobretudo um virtuose da regência de vozes narrativas – sejam crianças, adolescentes ou idosos, loucos ou geômetras. Registra incomparavelmente o monólogo interior taquigráfico do cotidiano dos personagens, em geral com o foco na terceira pessoa do singular, mas bombeando doses cavalares de discurso indireto livre. 

Cada conto dele é um recital de vozes polifônicas, mas com um contraponto atonal – e semeando solistas, quase nunca um coro. Já no primeiro parágrafo embarcamos num carrossel vertiginoso de pontos de vista, todos irrefutavelmente convincentes, mas com textura de miragens tridimensionais. Engraçado: ele “soa” cubista. O vocabulário é ilusoriamente simples (mas com a precisão de um agrimensor), sem embaixadinhas estilísticas (e muito menos buquês de adjetivos), com surtos de coloquialismos escolhidos a dedo, que caem como uma luva (ora de pelica, ora de boxe) – tudo esplendidamente traduzido por José Geraldo Couto. 

Moral da história? Eu diria que Dez de Dezembro é um lauto aperitivo enquanto Lincoln no Limbo não é servido no Brasil – se isto não fosse um sacrilégio filisteu. Afinal, desde quando uma iguaria estética pode se reduzir ao tira-gosto de outra? 

*É autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (Editora Intermeios) 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.