CARLOS BARRIA/REUTERS
CARLOS BARRIA/REUTERS

Vendaval sem fim

Dez anos depois do Katrina, a narrativa oficial da reconstrução tenta enfatizar a ideia de que Nova Orleans ficou melhor. Melhor para quem?

Luisa Dantas, O Estado de S. Paulo

29 Agosto 2015 | 16h00

Como brasileira nascida nos Estados Unidos cuja família tem raízes no Rio de Janeiro, tenho transitado livremente por ambas as culturas na minha vida. O fato de observar o mundo a partir de uma perspectiva brasileira forjou de modo profundo minha visão dos Estados Unidos e minha relação ambivalente com a ideia de que os Estados Unidos são a “terra da oportunidade”.

Quando o furacão Katrina se abateu sobre a Costa do Golfo em 2005, quase dizimando a adorável cidade de Nova Orleans, meu lado brasileiro teve enorme dificuldade em aceitar o fato. O Katrina, como uma ocorrência, como foi representado em imagens, uma tragédia provocada amplamente pelo homem, era algo que não tinha nada a ver com a percepção intrínseca do que, se imagina, os Estados Unidos representam.

Portanto, como cineasta, fiz o que faço quando necessito compreender o mundo: comecei a documentar as histórias que surgiram após esse que foi um dos maiores desastres na história americana. No final de 2005, alguns meses depois de as águas baixarem, comecei a filmagem do que se tornaria o documentário Terra de Oportunidade, e também uma plataforma interativa na online que registra a contenciosa reconstrução de Nova Orleans através dos olhos de pessoas que foram atingidas diretamente.

No início das filmagens, visitei um grande acampamento de trabalhadores latinos que viviam em barracas no meio do maior parque da cidade. Fiquei bastante surpresa ao descobrir um grupo de pessoas falando português e saber que esses operários eram parte de uma importante comunidade de brasileiros que vieram de outras partes dos Estados Unidos e do Brasil para trabalhar na limpeza e reconstrução da cidade. Foi a primeira vez que tive um lampejo de que esta história tinha outra dimensão, inesperada e sub-representada. E comecei a imaginar de que maneira poderíamos encadear diferentes histórias que revelariam que o que estava ocorrendo em Nova Orleans era um microcosmo de forças que moldam nossas comunidades urbanas, nos Estados Unidos como um todo e além.

Filmando em Nova Orleans o tempo inteiro, em 2006, meu cameraman e eu nos transformamos em cronistas de facto de vários processos que vinham se desenrolando após o Katrina: a demolição e a reconstrução de habitações públicas, as tentativas para criar um plano de reconstrução unificado para a cidade, a luta popular pela recuperação de alguns bairros devastados, o deslocamento de moradores para outras áreas do país e a migração dos trabalhadores latino-americanos para cidade. Durante cinco anos, reunimos um arquivo de mais de 1.500 horas gravadas abrangendo as histórias de pessoas de todas as camadas sociais que se envolveram na reconstrução da cidade. Acompanhamos urbanistas, agentes comunitários, pessoas que viviam em moradias subsidiadas pelo governo, trabalhadores imigrantes, moradores desalojados, políticos, incorporadores imobiliários, sem-teto e muitos mais.

Estilisticamente, a ideia do filme era explorar a história com base nos pontos de vista e perspectivas dos próprios protagonistas. Cada um se defrontava com sua própria parcela de devastação que não era necessariamente a vista panorâmica da cidade. Não era, absolutamente, uma visão macrocósmica da escala da devastação. As histórias e os relatos eram muito mais pessoais. Nesse sentido, a noção de “desastre” como apresentada no filme tinha uma escala menor. Mas a reunião desses relatos foi e é, espero, uma Terra de Oportunidade mais acurada e humanizada. 

A mensagem do projeto é: “Está ocorrendo numa cidade próxima de você”, repercutindo novamente a ideia de que essas histórias servem como microcosmos de outras histórias que se passavam não apenas em Nova Orleans, mas em outras cidades pelo mundo. Uma plataforma interativa na internet seria a estrutura ideal com a qual poderíamos ligar os pontos, por assim dizer. Muitas das relações, amizades e parcerias que criei na parte inicial do projeto, de repente percebemos que fazia sentido estruturá-las nesta plataforma de histórias narradas em colaboração.

Em sua forma atual, a plataforma interativa Terra de Oportunidade funde a narrativa em multimídia necessária com dados seguros, pesquisas e um chamado à ação num espaço colaborativo. Levando a discussão sobre a recuperação do desastre e a reconstrução da comunidade para mais além, não limitando o debate a um tempo, um lugar e um contexto, a plataforma desafia os usuários a refletirem sobre o significado dessas histórias e questões para suas próprias vidas e comunidades. É um experimento interessante e penso que a plataforma é uma expressão mais autêntica dos objetivos originais do projeto do que o filme.

É curioso o fato de as pessoas me perguntarem se Terra de Oportunidade é um título irônico. Obviamente é, num certo aspecto. Basicamente o documentário deixa nitidamente claro que os Estados Unidos não são uma terra de oportunidade para todas aquelas pessoas no filme ou qualquer outra que viva neste país, para 99% de quem vive aqui. Mas acho também que, de um modo muito sincero, há um empenho em mostrar a ideia de que as pessoas buscam os elementos de transformação numa catástrofe na escala do Katrina. Todas aquelas pessoas que participaram do filme estavam lutando com as consequências do Katrina de uma maneira que realmente vinha transformando suas vidas. Se para melhor ou pior, não é simples dizer. Interessei-me muito pelas pessoas que estavam prontas para enfrentar o que havia acontecido e assumir as rédeas da situação, em vez de dizer “estou sujeito a isso, sou uma vítima disso”. Acho que cada uma das pessoas no filme compreendeu o que significa estar num local após um furacão e tenta fazer alguma coisa.

Uma década após o Katrina, a situação atual em Nova Orleans é motivo de esperança e alarme em proporções iguais. Em termos de revitalização do espaço urbano e deslocamento da população, sob muitos aspectos o que as pessoas temiam há 10 anos vem ocorrendo. Há aproximadamente 100 mil menos afro-americanos na cidade. Alguns bairros historicamente negros, como Lower 9th Ward e New Orleans East, não foram reconstruídos totalmente, e não existe muita esperança de que haverá recursos disponíveis para serem reconstruídos. As comunidades negras onde vive a classe mais pobre vêm sendo empurradas para as margens da cidade ou subúrbios distantes de transporte, emprego e acesso a alimentação saudável. 

Na semana que passou a cidade hospedou uma série de eventos oficiais para lembrar os 10 anos do Katrina. Há uma tentativa palpável de aparar as arestas e enfatizar a narrativa do progresso concentrada no “veja aonde chegamos” ou a cidade “está melhor do que antes”. Há uma conformação maniqueísta que diz que tudo antes do Katrina estava podre e tudo o que veio depois tem sido um experimento corajoso no aprimoramento do espaço urbano financiado por dinheiro privado e público. O prefeito de Nova Orleans, Mitch Landrieu, disse que a recuperação está oficialmente concluída. Mas ela não abrange as comunidades para as quais o Katrina ainda é um desastre presente, onde a recuperação dos tremendos prejuízos, transtornos e deslocamentos não acabou.

Uma das perguntas que tenho colocado durante este processo, e que o projeto apresenta para nossas plateias é: “O próximo desastre, natural ou provocado pelo ser humano, será diferente?”. Foram dez anos tumultuados, mas minha esperança com Terra de Oportunidade é realçar essas histórias e lições para redefinir e reformular a maneira como contemplamos essas questões contemporâneas de recuperação e de justiça urbana após uma crise. 

/TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

LUISA DANTAS É CINEASTA E PROFESSORA DA TULANE UNIVERSITY, EM NOVA ORLEANS

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