Flávio Ricardo Vassoler
Flávio Ricardo Vassoler

Viagem cultural pela China mostra como Pequim virou palco da especulação imobiliária

Primeira parte da 'Trilogia Transiberiana' visita Pequim, a capital chinesa

Flávio Ricardo Vassoler*, Colaboração para o Estado

16 Setembro 2017 | 16h00

I. O moinho de vento do Dom Quixote de Pequim

Mal posso acreditar quando o guia turístico chinês Sun Yutang, em bom português, me diz que a avenida da Paz Eterna, no coração de Pequim, se estende em linha reta, sem quaisquer curvas, por ininterruptos 50 quilômetros. (Conseguiríamos imaginar uma via sem curvas e quebradas do marco zero da cidade de São Paulo, na Praça da Sé, até o fim da estrada Engenheiro Marsilac, no extremo sul da capital?) 

Novamente, mal posso acreditar quando Sun me diz que a Praça da Paz Celestial tem a dimensão de 90 campos de futebol. (Dada a superpopulação de Pequim, conseguiríamos imaginar o tamanho da Gaviões da Fiel chinesa?) 

Quando nos aproximamos do portal em cujo centro desponta o enorme retrato do líder comunista Mao Tsé-tung, o rosto contrariado de Sun se volta para uma grande placa de trânsito postada a uns 200 metros da onipresença de Mao. Com a prudência dos dissidentes, Sun começa a falar baixinho, quase aos sussurros:

– Bem ali, no dia 5 de junho de 1989, um rebelde desconhecido impediu que uma fileira de tanques de guerra escarnecesse ainda mais da avenida da Paz Eterna e reprimisse brutalmente uma legião de estudantes que protestavam contra a ditadura do Partido e em prol da democracia. Armado com sacos plásticos, nosso Dom Quixote de Pequim se postou diante dos tanques com sua valentia de 1,65 m. Em dado momento, o jovem ousou subir no tanque que encabeçava a repressão e clamou aos soldados que não seguissem as ordens de seus superiores e que não silenciassem o grito de liberdade dos estudantes.

Quando pergunto a Sun se alguém sabe que fim levou o jovem rebelde, o guia gira a cabeça como uma coruja em vigília antes de me responder: 

– Ora, e você acha que o Partido ia permitir que nosso Dom Quixote de Pequim se transformasse em um mártir? (Sun dá uma cuspadela de despeito para o lado antes de prosseguir). É como dizem, meu caro turista ocidental: é preciso cortar o bem pela raiz...

Eis a oração que a história nos ensinou. E, até hoje, a coisa ainda não foi revelada... Você acha que o Partido tinha medo de um punhado de estudantes desarmados? Ora, não sejamos ingênuos! O socialismo estava ruindo na Europa – hoje nós sabemos que, cinco meses depois do massacre aqui em Pequim, o Muro de Berlim viria abaixo. Tanto a velha guarda do Partido quanto os possíveis revisionistas entre os mandachuvas sabiam que era uma questão de vida ou morte para o regime. E é aí que eu fico pensando: antes de o exército reprimir os manifestantes, os principais pontos de Pequim já haviam sido dominados – centrais elétricas e estações de rádio e televisão; estradas e aeroportos; delegacias e estações rodoviárias. Assim, talvez o nosso Dom Quixote de Pequim tenha caído como uma luva para a velha guarda do Partido: com as atenções do mundo voltadas para o herói armado com sacos plásticos, ninguém notaria as lutas intestinas entre os verdadeiros donos do poder. Mas, ora, como a verdade é refém da história, quem é que vai nos contar o que de fato aconteceu? Fiquemos, então, com o moinho de vento do nosso Dom Quixote de Pequim.

II. 9.999 cúmplices – e conspiradores

Para se chegar ao Palácio Imperial, no coração aristocrático da Cidade Proibida, é preciso cruzar um sem-número de portais que se soerguem como verdadeiras sentinelas de pedra. 

Sun Yutang logo me revela que “o Palácio Imperial tem 9.999 aposentos, já que o número 9, na mitologia chinesa, traz auspícios de sorte e poder”. 

Sun volta a girar a cabeça como uma coruja em vigília à procura de guardas e espiões à paisana. “Na China, as paredes têm ouvidos – e algemas”. Súbito, ele me sussurra: 

– O número 9.999 multiplica o pão do poder, o banquete dos cúmplices – e o veneno dos conspiradores. Ora, se a história já nos ensinou alguma coisa, é que qualquer um pode ser morto. Logo, Sócrates e Jesus Cristo, Gandhi, o imperador milenar da China e até mesmo os mandachuvas do Partido não estão a salvo... 

Sun dá uma cuspadela de alívio para o lado antes de me levar a Hutong, “o bairro pequinês que mais se parece com a verdadeira República Popular da China para muito além da cartilha do Partido; o bairro pequinês que ainda consegue resistir à pilhagem da China pelos piratas ocidentais”.

III. A Babel de Hutong

Quem vai a Hutong (ainda) não vê os arranha-céus comerciais que vão transformando Pequim em uma sucursal asiática de Chicago. Para percorrer as vielas do bairro, é preciso tomar uma rickshaw, um tipo de charrete em que o cavalo dá lugar a um homem.

Não sem um sorriso amargo, Sun me explica que “o governo chinês, deveras preocupado com os direitos humanos, decretou que os condutores de rickshaw não devem mover as charretes a pé; sendo assim, tornou-se obrigatório o emprego da bicicleta. Como os turistas ocidentais não são obrigados a dar gorjetas ao cavalo bípede que conduz a rickshaw, todos ficam felizes – e bem está o que acaba bem”. 

Quando entramos no coração de Hutong, a aglomeração de casebres cinzentos e geminados, sujos e barulhentos me lembra um cortiço. Os moradores se sentam nas calçadas exíguas e se abanam com leques velhos – mães se esgoelam para que seus filhos não brinquem perto da fiação elétrica desencapada. Gambiarras são onipresentes. Junto à porta de saída do que parece ser a cozinha de um restaurante, uma jovem de avental arremessa uma cabeça de galinha para um vira-lata de rabo decepado. Logo ao lado, alguns senhores aposentados (e invariavelmente banguelas) se aglomeram ao redor do tabuleiro de um tipo de gamão chinês. A banca de apostas está aberta. Sun me pergunta se eu quero entrar com algum trocado. Perdemos, é claro, e os sorrisos desfalcados dos jogadores parecem ainda mais pródigos pelo fato de este turista ocidental ter sido escalpelado. 

Quando a rickshaw passa ao lado de uma barraquinha de iguarias defumadas, Sun me pergunta se eu quero comer um espetinho de escorpião. “Não tenha medo, o ferrão é crocante”, balbucia o guia com a boca cheia. 

Um casebre com o portão aberto desvela um quintal ao fundo do qual um senhor careca e pançudo amola uma faca para matar um porquinho rosa e agitado “que vai dar uma carne bastante tenra”, arremata Sun. 

À saída de Hutong, entrevejo Sun algo cabisbaixo. O guia se diz pesaroso pelo fato de o bairro ter sido tomado, em grande medida, por lojinhas e coffee shops que, “há 10 anos, seriam impensáveis por aqui”. Sun dá uma cuspadela de despeito para o lado e lança um dito em inglês – um inglês caracteristicamente macarrônico:

– It’s like they say in the USA: Money talks – and silences. (É como dizem nos EUA: o dinheiro fala – e silencia.)

 

IV. A Grande Muralha da China, cemitério dos vivos?

Sun decide me levar a uma zona da Grande Muralha da China, a pouco mais de 1 hora de Pequim, que não estaria de todo tomada por turistas. O guia me diz que os arquitetos imperiais procuraram erigir a muralha sempre nos locais mais sobrelevados para (tentar) rechaçar as invasões nômades vindas do norte. 

– Se preciso fosse – explica Sun –, a trajetória da muralha era recuada para que ela ficasse sobre as montanhas. E aqui vai um informe pitoresco: a Grande Muralha da China levou 20 séculos para ter seus quase 9.000 quilômetros erigidos; ao longo de sua construção, a única obra humana (supostamente) visível do espaço sideral ceifou mais de 1.000.000 de vidas. (Será que a imprecisão sobre o balancete dos recursos humanos drenados ajudaria a aplacar a culpa dos turistas deslumbrados?)

Mas, bom, quando nos lembramos de que o choro e o ranger de dentes dão o tom para a história humana, por que é que estranharíamos a eleição de nossa Grande Muralha, apelidada de “o maior cemitério do mundo”, como uma das 7 Maravilhas da Terra? Aos olhos da história, por que é que o belo deveria se apartar do feio? Não é mesmo, meu caro turista ocidental? 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com estágio doutoral na Northwestern University (EUA)  

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