Vida longa ao rei

Este 2015 foi o ano em que o torcedor do Barcelona pela primeira vez vislumbrou que há um futuro depois de Messi. O futuro do Barcelona é o futuro de Neymar

Juan Pablo Villalobos, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

1. No ano que, no caso do Brasil, parece ter sido apenas de más notícias, quanto ao futebol, que não é pouca coisa, houve, pelo menos, uma magnífica: 2015 foi o ano em que Neymar começou a se transformar no melhor jogador do mundo. Não é uma aposta abstrata e até me proponho a oferecer uma data: ao reinado de Messi resta no máximo um ano. Talvez nem isso. Meu prognóstico para o novo ano: em 2016 Neymar será o número um do planeta.

2. Os agoureiros do desastre, entre eles nada mais nada menos que Johan Cruyff, o santo maior do barcelonismo, prognosticaram que a chegada de Neymar ao Barça produziria um choque de egos com consequências catastróficas. Digamos que Cruyff fez uma leitura clássica, com pinceladas de tragédia grega, segundo a qual dois heróis não poderiam dividir a glória sem que surgisse a desconfiança, que, cedo ou tarde, levaria ao confronto. O que Cruyff não previu foi que vivemos na pós-modernidade, onde mesmo a glória é fragmentária. Neymar e as pessoas que o cercam (seu pai, a equipe que trabalha para ele) entenderam muito bem que ele não deveria chegar ameaçando a liderança de Messi, mas construindo um novo tipo de liderança fragmentada, compartilhada, à qual viria se somar a figura do artilheiro, Luiz Suárez. O que no início da temporada de Neymar no Barcelona parecia timidez e alguns interpretaram como excesso de respeito à figura do líder indiscutível, Messi, agora podemos entender também como parte de um processo de aprendizagem. 2015 foi o ano em que nós, torcedores, aprendemos uma verdade óbvia, mas poucas vezes colocada em prática: que em uma equipe a cumplicidade importa mais do que a competência.

3. Em 26 de setembro Messi rompeu o ligamento colateral interno do joelho esquerdo. A lesão o deixaria quase dois meses fora do campo. O ânimo dos torcedores do Barça, pessimistas por natureza, estava lá embaixo. O diagnóstico da imprensa esportiva de Barcelona era de que a equipe “teria de aguentar a qualquer custo”. O objetivo era que o Real Madrid não abrisse vantagem demais para que, no retorno de Messi, o Barça conseguisse recuperar a liderança. O grande temor era que o clássico seria disputado em Madri em 21 de novembro, e não havia certeza de que Messi estaria recuperado na ocasião. Mas então ocorreu o que nunca se vira em Barcelona desde que Messi se tornou Deus: nem a equipe, nem os torcedores, sentiram sua falta. E mais: a equipe sem Messi jogou melhor do que nunca. A semana anterior ao clássico foi vivida com euforia na capital catalã, o Barça era o primeiro da Liga, com três pontos mais do que o Real Madrid, e embora Messi estivesse pronto para jogar, a maioria dos torcedores preferia que ele ficasse no banco. O que ocorreu naquelas seis semanas que levaram a essa mudança tão radical? O que sucedeu tinha nome próprio, chamava-se Neymar.

4. Uma semana antes do clássico, o Barça jogou contra o Villareal, uma das equipes mais competitivas do Campeonato Espanhol. No minuto 39 do segundo tempo, com a partida em 2 a 0 a favor do Barça, Neymar coroou seu reinado das últimas semanas com um dos gols mais bonitos da história do Camp Nou. Este gol de bailarino, depois de um chapéu e um giro de 180% para preparar o arremate, deu a ele um lugar eterno na memória do barcelonismo, ao lado do mítico gol de Romário contra o Real Madrid em 1994 depois de um drible da vaca. É verdade que o gol não foi decisivo. Aconteceu no final da partida, com o time contrário esgotado e a pressão defensiva relaxada, mas a memória do futebol se constrói com imagens como esta, e por momentos como este nós, torcedores, estamos dispostos a suportar os longos períodos de tédio que têm as partidas de futebol. Toda a dose de imprevisibilidade, surpresa e beleza que o futebol consegue atingir concentrou-se nessa jogada, a tal ponto que, durante a transmissão do jogo o comentarista da TV espanhola só conseguia repetir a pergunta: “Como?”, “O que é isso?”, “Mas o que é isso?”, concluindo: “Coloquem isso no dicionário de jogadas impossíveis”.

5. Depois da saída de Guardiola, que foi treinador durante a era mais bem sucedida do time; depois de Tito Vilanova, cuja passagem como técnico foi tragicamente truncada por sua morte; depois da mediocridade em que caiu a equipe com Tata Martino, havia motivos de sobra para o pessimismo. A decadência de Xavi era o principal, jogador insubstituível, a alma e o caráter que imprimia o estilo ao jogo de toque do Barcelona. Sem Xavi o Barça tinha de se reinventar e acabou encontrando no ímpeto do jogo mais direto, que não recusa o contragolpe, uma fórmula devastadora. Em 2015 o Barça reeditou o insólito “triplete” da era Guardiola, ganhou a Copa, a Liga e a Champions, derrotando seus rivais na base da velocidade, transições verticais e eficácia na marcação de gols. Uma antítese do jogo preciosista e horizontal de Guardiola. Essa mudança de estilo é perfeita para Neymar, que começa as jogadas saindo e driblando pela esquerda, ou as termina entrando na área para arrematar no centro a partir da direita de Daniel Alves ou do centro de Messi, Iniesta, Busquets ou Rakitic. É mérito de Luis Enrique ter encontrado um estilo em que Messi, Neymar e Suárez têm o mesmo protagonismo.

6. Parece-me que a confirmação do amadurecimento de Neymar não é como goleador (marcou 41 gols em 2015), mas seu trabalho de assistência. No primeiro semestre do ano, Neymar deu quatro passes que levaram a gol. No segundo foram dez. Esse protagonismo crescente, dando assistência a Messi ou Suárez para marcarem gols, demonstra que agora, quando Neymar recebe a bola tem mais critério para decidir o que fazer com ela. Vai ficando cada vez mais para trás o tempo do Neymar das firulas gratuitas e desnecessárias, e cada vez mais vemos um Neymar consciente de que tudo, incluindo a arte, deve se submeter à eficácia. É muito significativo o fato de que, para ele, seus êxitos em 2015 terminaram com passes e não com gols na final do Mundial de Clubes contra o River Plate: primeiro, o passe de cabeça para Messi rematar e marcar o primeiro gol. E segundo, a precisa e bela jogada de centro para a cabeça de Luis Suárez que levou ao terceiro gol. Sua atuação na final foi como criador de jogo e não finalizador.

7. Algo similar havia sucedido em outra final, da Champions League, que o Barcelona venceu por 3 a 1 conta a Juventus da Itália. Aí o protagonismo de Neymar, além do seu gol no último minuto da partida, foi na jogada que levou ao primeiro gol, quando o jogo apenas começava. No terceiro minuto Neymar recebeu a bola dentro da área, atraiu dois adversários e mais um terceiro e abriu espaço para Iniesta entrar. Quando Rakitic marcou o gol, por um passe de Iniesta, havia sete jogadores da Juventus, mais o goleiro, dentro da área. Oito rivais dentro da área! E o que gerou o desequilíbrio que tornou possível o gol foi o movimento para fora da área, o drible e o passe de Neymar. O espetáculo da jogada foi mais discreto, menos publicitário: foi o espetáculo da inteligência.

8. Então chegou o clássico do sábado, 21 de novembro. É difícil dizer que esse dia foi o ápice do ano para o Barcelona, em que o time disputou seis títulos e conquistou cinco, mas certamente o foi para os torcedores: ganhar de 4 a 0 do Real Madrid em seu campo é algo que não se esquece nunca. Um 4 a 0 em que Neymar brilhou sob todos os aspectos. Como goleador, marcando o segundo gol do Barça com um chute sutil. Como assistente, dando um passe de calcanhar para o belo gol de Iniesta (aplaudido por alguns torcedores do Real Madrid, algo insólito). E como artista, com dribles e jogadas cada vez que recebia e bola.

9. Para muitas pessoas em Barcelona, o que se viu no Santiago Bernabéu em 21 de novembro foi o início de uma mudança de geração. Como desejava uma grande parte da torcida e da imprensa, Messi começou a partida no banco e só entrou em campo no segundo tempo, quando o resultado já favorecia o Barça por 3 a 0. O Barça conseguiu humilhar o Real Madrid sem Messi, algo impensável seis semanas antes, quando todos viam o futuro negro devido à sua lesão. Messi tem 28 anos, Neymar 23. Este 2015 foi o ano em que o torcedor do Barcelona pela primeira vez vislumbrou que há um futuro depois de Messi. O futuro do Barcelona é o futuro de Neymar, indicado aliás, pela primeira vez, entre os três finalistas para a Bola de Ouro, junto com Messi e Cristiano Ronaldo. É quase certo que o prêmio irá de novo para Messi, mas o substituto já está preparado.

10. Por suas estatísticas de gols, por sua eficácia, sua plasticidade, é difícil encontrar na história do futebol algo comparável ao “tridente” formado por Messi, Suárez e Neymar. É tamanha sua cumplicidade que o único pecado é exatamente seu excesso. Em algumas partidas vimos claramente que, se um dos três ainda não marcou, os outros dois se empenham para conseguir que ele o faça, passando mais a bola para ele, mesmo que não seja a melhor opção. Essa liderança compartilhada a três tem, além disso, a virtude de tirar o peso das costas de Messi no momento em que começará seu declínio natural. O roteiro previsível será um menor protagonismo, gradativo, do argentino, em favor da figura emergente de Neymar. O rei dos últimos anos começará sua trajetória para se transformar em mito, lenda, na estátua que receberá os torcedores que visitarem Camp Nou. Seus gols serão peças de museu. Em poucos anos as pessoas dirão, com orgulho: eu vi Messi jogar. O torcedor do Barcelona, diante do que ocorreu em 2015, tem uma forte razão para encarar o futuro com otimismo.

11. Em 2015 o novo rei do futebol começou a nascer. Talvez 2016 seja o primeiro ano do seu reinado. Longa vida ao novo rei! / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

JUAN PABLO VILLALOBOS, ESCRITOR MEXICANO, É AUTOR DE FESTA NO COVIL, SE VIVÊSSEMOS EM UM LUGAR NORMAL E  TE VENDO UM CACHORRO (COMPANHIA DAS LETRAS). VIVE EM BARCELONA

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