Jean Manzon
Jean Manzon

Villa-Lobos completa 130 anos como sinônimo de brasilidade

Compositor morto em 1959 conta com extensa obra que une a erudição ao imaginário popular

João Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

25 Março 2017 | 16h00

Felizmente, em 2017 já vai longe o “terrorismo historicista das vanguardas”, na expressão do musicólogo Jean Molino, que dividia os compositores entre reacionários e vanguardistas, na mesma linha da atual guerra política maniqueísta entre os mortadelas e os coxinhas. A história da música do século 20 já não se baliza por Stravinsky ou Schoenberg. Em vez do “ou”, agora usa-se o conectivo “e”. Villa vale pela qualidade de sua criação musical. É um dos grandes do século 20, ao lado de um Béla Bártok ou um Shostakovich. E sua estatura só aumentará nos próximos anos, graças a trabalhos como o de edição e gravação de suas sinfonias, uma parte marginalizada de sua obra que graças à Osesp e Isaac Karabtchevsky só agora se afirma como mais um monumento de sua vasta produção, ao lado das Bachianas, dos Choros, dos 17 quartetos de cordas, da obra notável para violão e da produção pianística (onde brilham as Cirandas). Estas últimas, no registro de Sonia Rubinsky, fizeram o compositor Willy Correa de Oliveira desdizer em 2008 o que passou 30 anos ensinando na USP: depois de “matar diariamente o Villa”, em sua expressão, ele tornou-se um fanático pelo compositor. 

Empunhando seu charuto e rindo à larga, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) gostaria de ver como sua obra e seu nome viraram sinônimo de Brasil, a 130 anos de distância de seu nascimento. Ele reina na sala de concertos, na quadra de escola de samba, nas ruas. E na música popular. 

Um exemplo matador: O Trenzinho do Caipira, a tocata final da segunda das nove Bachianas Brasileiras, original para orquestra de câmara, é veiculada diariamente há meses como música-tema da “novela das 9”, num luxuoso arranjo cantado por Ney Matogrosso sobre lindos versos escritos por Ferreira Gullar: “Lá vai o trem com o menino/ Lá vai a vida a rodar/ Lá vai ciranda e destino/ Cidade e noite a girar”. 

Carro-chefe da música brasileira também no exterior, Villa-Lobos fez a via-sacra de todo artista nativo: foi a Paris em 1923, e lá conseguiu destacar-se num ambiente musical superpovoado de gênios de todas as latitudes; voltou incensado ao Brasil. Aqui, para se viabilizar financeiramente e realizar seus sonhos musicais, aderiu sem a menor vergonha a Vargas e ao Estado Novo. Concebeu um gigantesco projeto de educação musical baseado na música coral. No pós-guerra, ele viveu, já na plena maturidade, pela primeira vez, a situação de ser visto como passado – e não mais como futuro – pela vanguarda capitaneada por Koellreutter e seus seguidores. Nacionalismo virou sinônimo de fascismo, ditadura. Rapidamente, voltou-se para os Estados Unidos, país continental para o qual ainda não havia atentado.

Mesmo doente, ainda tinha energia para novas conquistas. Regeu bastante por lá. Num de seus primeiros concertos nos EUA, em 1945, dirigiu a Philharmonic Symphony Orchestra ao lado de Artur Rodzinsky no Carnegie Hall. Encarregou-se de seus Choros nºs 8 e 9. A resenha de Virgil Thomson, então o mais poderoso crítico do país, qualificou-o como “um dos mais prolíficos compositores do mundo. E também um dos mais talentosos. Suas obras são numerosas e cheias de ideias brilhantes, (...) sua multicolorida instrumentação, sua modernidade de pensamento acessível o tornam universalmente compreensível”. E, ao falar dos choros, disse que o oitavo o remetia ao “Brasil rural” e o nono “é mais urbano”. Além disso, ambos possuíam o melhor da chama de Hollywood. 

Observações inteligentes. Mostram como em Villa conviveram o exotismo tecido com alusões à floresta amazônica, aos índios e à selva – concebido para ser comprado pelos parisienses ávidos por bizarrices – e uma música mergulhada no universo das músicas populares urbanas em sua fase final, mais palatável, não por acaso, para o paladar norte-americano. Mas Hollywood preferia o Villa “índio branco” quando o convocou para escrever uma trilha já na década de 1950. Ele sentiu-se à vontade. Afinal, em 1936 servira ao Estado Novo num projeto ufanista, o do filme O Descobrimento do Brasil, dirigido por Humberto Mauro. O roteiro, baseado na carta de Pero Vaz de Caminha, foi feito pelo Visconde de Taunay, com verba suntuosa, já que era peça de propaganda do regime.

Green Mansions (A Flor que não Morreu) tinha Audrey Hepburn no principal papel e seu então marido Mel Ferrer na direção. A história passa-se na Amazônia venezuelana. Villa pôs o carro na frente dos bois: compôs a trilha sem ver o filme montado. Não podia dar certo. Ferrer dispensou-o e contratou o experiente Bronislau Kaper. Este aproveitou partes da luxuriante partitura de Villa, que incluía uma soprano e coro masculino. Ele virou o jogo: fez da trilha a suíte Floresta do Amazonas. Detalhe: a MGM financiou a gravação da obra e o lançamento do LP nos Estados Unidos. Bidu Sayão (1902-1999), a soprano carioca que fez gloriosa carreira nos Estados Unidos, participou do derradeiro registro fonográfico de Villa como regente, em 1959, ano de sua morte. 

*João Marcos Coelho é jornalista, crítico musical e comentarista da Rádio Cultura

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