Vítimas preferenciais

Papel do gênero em epidemias que atingem mais mulheres é relegado a segundo plano

Lauren Wolfe, Foreign Policy

23 Agosto 2014 | 16h00

Quando, em março, as pessoas começaram a morrer em consequência do vírus Ebola na África Ocidental, Martha Anker, estatística encarregada do monitoramento e resposta a doenças contagiosas na Organização Mundial da Saúde (OMS), passou a acompanhar as notícias para ver quem, primariamente, seria infectado pelo terrível vírus. Sentada em sua casa em Massachusetts, ela teve um pressentimento: de que o Ebola, como ocorreu no passado, faria mais vítimas entre as mulheres.

Martha Anker estava certa.

Em 14 de agosto, notícia no Washington Post dizia que na Guiné, Libéria e Serra Leoa, em conjunto, entre os mortos pelo vírus 55% a 60% eram mulheres. Na Libéria, o governo informou que 75% das vítimas eram mulheres. “Fiquei muito triste quando li a notícia”, disse ela. “Lamento muito estar com a razão.” 

Em 2007, Martha escreveu num relatório da OMS que “as diferenças em termos de exposição entre homens e mulheres são importantes fatores na transmissão da EHF (sigla em inglês da febre hemorrágica Ebola). Por esse motivo, é importante compreender o papel e responsabilidade do gênero na exposição à doença em determinada área”. 

Essa recomendação claramente não foi seguida na África Ocidental quando começou a atual epidemia. O Ebola se propaga pelo contato com o sangue e outros fluídos do corpo; e na Libéria, como nos países vizinhos, as mulheres normalmente são as principais cuidadoras de doentes. Ainda são na atual epidemia – permanecendo em casa e sendo infectadas pelos filhos ou marido doentes em vez de procurarem médicos e enfermeiras para assistirem os familiares. Raramente é o contrário. “Se um homem está doente, a mulher cuidará dele, dará banho nele, mas o homem não faz isso”, diz Marpue Spear, diretora executiva da ONG Women’s Secretariat of Liberia (Wongosol). “Tradicionalmente, as mulheres cuidam dos homens e não os homens das mulheres.”

Serão necessárias muitas mortes – mais de 1.200 no momento em que escrevo este artigo – para entender como a atenção à dinâmica do gênero pode ajudar a salvar vidas (neste caso, entre outras coisas, redigindo mensagens direcionadas para as mulheres sobre a importância de adotarem medidas de proteção em casa ou permitir que os familiares sejam tratados por profissionais experientes). Na verdade, não seria necessário ser uma cassandra como Martha Anker – no caso do Ebola e outras doenças.

Dados mostram que muitas doenças contagiosas afetam mais um gênero que outro. Às vezes são os homens, como no caso da dengue. Às vezes são as mulheres, como no caso do E. coli, da aids (mais da metade das pessoas com o vírus são mulheres) e o Ebola em algumas epidemias anteriores. Outras vezes são mulheres grávidas e mães, como o vírus H1N1 (uma epidemia na Austrália vem atingindo 25% mais mulheres que homens).

Mas quando as mulheres são as principais vítimas de uma epidemia poucas pessoas admitem o fato, perguntam a razão ou reagem como seria necessário. Na verdade, os especialistas afirmam que muito pouco tem sido feito para pôr em prática o pouco que sabemos sobre diferenças de gênero e doenças infecciosas – de modo, por exemplo, a determinar antes de epidemias como o papel do gênero pode ajudar no desenvolvimento de uma estratégia de prevenção ou contenção da doença. Não só isso, mas também poucas pesquisas vêm sendo realizadas no sentido de entendermos a que ponto as doenças infeciosas afetam diferentemente os sexos num nível biológico. É como o Dia da Marmota cada vez que ocorre um surto de uma doença e pessoas morrem em consequência dela. “Não conseguimos passar do estágio da ‘observação’”, disse a professora Sabra Klein da Johns Hopkins University. Os agentes de saúde pública geralmente reúnem dados sobre idade e sexo durante uma crise, “mas ninguém vai a lugar nenhum só com isso”.

Sabra Klein, que estuda biologia e imunologia, explica que “ir a algum lugar” seria avaliar conscientemente o que ocorre numa epidemia ou numa crise sanitária através da lente do gênero. Também significaria tratar de problemas sistêmicos, como o acesso desigual das mulheres a tratamentos de saúde adequados ou a recursos financeiros que seriam necessários para esses tratamentos. Em resumo, confrontar disparidades fundamentais e perigosas.

Examinar quem morre num surto epidêmico “mostra quem tem poder e quem não tem”, disse a professora de epidemiologia da Universidade Colúmbia Wafaa El-Sadr. “De certa maneira, é um espelho em que a sociedade se olha. E mostra como as pessoas tratam umas às outras.”

Como em muitas áreas, o financiamento, a pesquisa e as ideias de saúde pública são orientados para os homens brancos. Claudia García-Moreno, especialista em assuntos ligados a gênero, direitos de reprodução, saúde sexual e adolescência na OMS em Genebra, diz que, quando estudou medicina, “tudo – dosagens de remédios, situações hipotéticas de saúde pública – visavam a um homem branco pesando 70 quilos”.

Segundo ela, embora isso tenha mudado, “não foi tanto como seria de esperar”.

Claudia destaca a persistente falta de atenção aos “componentes biológicos” da doença. Com frequência existem diferenças básicas na maneira como homens e mulheres reagem à infecção, diz Sandra Klein, e essas diferenças podem – e devem – afetar a resposta médica no curto e longo prazo. No caso da gripe, por exemplo, diz a médica, “a inflamação causada pela infecção é sempre maior nas mulheres que nos homens”.

Do mesmo modo, Martha Anker observou no relatório de 2011 que “um erro frequente é subestimar a relativa importância de sintomas que podem se verificar num sexo apenas, como o sangramento vaginal no caso da dengue”.

“Você tira informações importantes no caso do Ebola”, acrescenta Sandra Klein. “Entretanto, já com o financiamento da pesquisa do vírus chegando, não está nem mesmo sendo considerado o papel que o sexo pode desempenhar.”

Para comprovar essa rejeição da importância do gênero em matéria de saúde pública, Klein referiu-se a uma nota anônima incluída na análise de uma solicitação de bolsa feita por ela: “Gostaria que você parasse com toda essa argumentação sobre sexo para se concentrar no aspecto científico”. “Atuo nesse campo há 20 anos e isso (diferença biológica) não tem importância”, dizia outra nota. 

Durante toda sua carreira Martha Anker tem enfrentado noções incorretas similares, com frequência baseadas em questões sociais se opondo às biológicas.

“A crença geral é de que, quando doenças infecciosas atingem homens e mulheres numa epidemia, o melhor é concentrar a atenção da saúde pública no controle e tratamento e deixar para outros a solução de problemas sociais que existem na sociedade, como desigualdades de gênero, depois de passar a epidemia”, escreveu ela no seu relatório de 2011. Mas, solucionar esses “problemas” pode ser crucial para compreender e conter a propagação da epidemia.

É o caso da enfermagem, exercida principalmente por mulheres que com frequência estão na linha de frente da luta contra as doenças infeciosas. Entretanto, quase sempre são vistas como pouco importantes do ponto de vista social e de gênero para serem ouvidas. “A pesquisa tem mostrado que as relações entre médico e enfermeiro normalmente são precárias nos hospitais, o que é uma ameaça potencial para a segurança do paciente – incluindo o risco de infecções – e têm um impacto negativo na satisfação e carreira dos enfermeiros”, assinalou relatório da OMS de 2011. Além disto, após o surto da sars em 2013, estudos canadenses concluíram que “a falta de poder e influência dos enfermeiros estava ligada às deficiências no controle da infecção”.

Analisando a questão do gênero de modo mais amplo num surto anterior de Ebola, um relatório não científico indicava que os homens dominaram as reuniões de informação sobre a doença, não obstante o fato de que já era sabido que as mulheres eram as principais encarregadas de prestar assistência aos doentes.

Durante surtos da gripe aviária, a tendência das autoridades de governo era no sentido de tratar o assunto com homens porque a ideia é que eram proprietários agrícolas, embora na verdade fossem as mulheres que com mais frequência cuidavam dos animais. E alguns programas de controle da dengue no Sudeste Asiático nos anos 1990, “enfrentaram resistência”, segundo um relatório, porque agentes de saúde “questionaram a capacidade das mulheres de manter o lar livre de doenças”.

Esses problemas certamente são arraigados. Mas em cada novo surto epidêmico ou propagação de uma doença infecciosa há chances de fazer as coisas de maneira diferente. “Sejam epidemias crônicas ou aguda, elas tendem a mostrar as divisões e vulnerabilidades existentes”, disse Wafaa El-Sadr. “Talvez no caso do Ebola, as deficiências do sistema de saúde acabem passando para o primeiro plano, como também o sofrimento das pessoas privadas de qualquer direito.”

“Talvez as lições aprendidas possam ajudar a evitar a próxima epidemia”, acrescentou Wafaa.

Com tantas pessoas morrendo na África Ocidental, essa é uma oportunidade para lutarmos contra a corrente e tentar incorporar a visão de gênero nas respostas médicas e sociais. A hora de fazermos isso é agora – como foi nas últimas crises. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*

Lauren Wolfe é colunista da Foreign Policy e participa da Campanha Internacional Contra o Estupro e a Violência de Gênero em Conflitos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.