Vocação para a singularidade

Vocação para a singularidade

Esquerdas uruguaias trocaram a luta de classes pela luta entre mentalidades de classes, diz autor

Danubio Torres Fierro, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2014 | 16h00

Por ter sido, transitória e alternadamente, espanhol, português, brasileiro e quase argentino, o Uruguai sempre teve uma vocação para a singularidade. Na verdade, seu nascimento como território autônomo obedeceu precisamente à necessidade de se caracterizar como uma entidade peculiar numa região geopolítica de repetidas turbulências. A certa altura de uma história confusa, os vizinhos Brasil e Argentina (e a distante Grã-Bretanha) chegaram à conclusão salomônica de criar um estado-tampão. Conseguirá o país dos orientais preservar aquela singularidade?

Nos já remotos, mas ainda palpitantes, anos 1960 e 70, quando ocorreu a eclosão dos movimentos guerrilheiros promovidos pelo guevarismo, e quando o liberalismo se mostrou confuso em face de uma nova realidade, o Uruguai entendeu que devia corrigir aquilo pelo que então o repreendiam, no pensamento progressista, como uma mancha: professar um credo liberal puro que o colocava de costas para a América Latina. O país se arriscou a renunciar a sua marca original e apostou numa comunhão com esse destino histórico continental do qual parecia fugir. Posta em ação, essa mudança se manifestou primeiro numa guerrilha que renegou a democracia “burguesa e formal” e, logo em seguida, num governo militar e uma ditadura. Embasando uma relação de causa e efeito, a transposição significou uma ferida num orgulho nacional crescido precisamente na aura da singularidade. O beco sem saída encontrou uma luz depois de pouco mais de uma década. Restabeleceu-se a democracia, encomendou-se a restituição da singularidade perdida aos partidos tradicionais de raízes liberais e atribuiu-se às forças da esquerda um papel crescente na governança institucional - papel que se coroaria com a conquista da administração de Montevidéu pela Frente Ampla.

Outra volta do parafuso ocorreria na virada do século. Diminuído o impulso liberal num período de administrações complicadas por razões econômicas, as esquerdas obtiveram a totalidade do poder político. Nenhuma cláusula da singularidade do país foi questionada nesse trâmite. Mas a reconversão política coincidiu com uma decidida vontade de ruptura histórica por parte de esquerdas que triunfavam na América Latina. Ingressou-se assim num período em que essas esquerdas resolveram transitar por caminhos que cobrem, segundo as latitudes, da social-democracia à radicalidade jacobina, passando - amiúde, para ali parar - pelo populismo puro e simples. Nenhuma dessas esquerdas, reconvertidas especialmente a uma democracia que se torna, de repente, um estatuto comum, renega seus passados culpáveis e suas posições ambíguas com respeito a essa mesma democracia. São esquerdas que se sentem donas de um destino manifesto: nas linhas de fuga ideológicas que configuram o milênio há pouco iniciado, escrevem uma nova intencionalidade no argumento democrático. O propósito abriga um despropósito: uma regeneração metódica da democracia.

Com exceção da chilena (que, depois de enredar-se numa guerra civil, tornou-se inimiga da insensatez), são esquerdas, vamos dizer, “pós-modernas”. Que significa isso de pós-moderno? Esquematicamente, desenha um hiato que queria realizar, renunciando à tradição clássica, uma pirueta dialética: reconverter a ortodoxia democrática numa heterodoxia igualmente democrática, mas de conteúdos e qualidades diferentes. Romper, então, com a singularidade que caracteriza a democracia - com a singularidade que fez do Uruguai um caso particular na América do Sul: respeito ao individualismo, mobilidade social, apego às classes médias, vigência da institucionalidade. O novo objetivo era traçar uma fronteira entre o que ontem era moderno e o que hoje se propõe como pós-moderno: superar as restrições que a formalidade democrática impõe, instigar, se não a luta de classes, ao menos a luta entre as mentalidades de classes, esticar as molas da legalidade quase até o fim; e mais: calar onde não é politicamente oportuno falar e gritar onde fazê-lo caia politicamente no vazio. Em suma, esquerdas que em seu curso uniformizador apostam não em se aferrar a uma revolução, mas em arranhar os abusos que uma revolução promove e cobiça.

Uma singularidade nova, então? Apesar de uma persistente retórica messiânica, nessas esquerdas não despontam valores espirituais ou princípios morais. Muito pelo contrário, o que surgiu nesse horizonte é a garfada no patrimônio nacional e a sujeira administrativa que muito empanam a dignidade de eventuais conquistas sociais. Estranha pirueta ideológica, cabe repetir, que se volta para engendrar uma verdadeira mudança cultural: o relato histórico é distorcido porque se estabelece uma astuta distinção entre o cânone moderno e o pós-moderno.

A inequívoca transição de um paradigma democrático para outro foi a pedra de toque do governo de José Mujica. Protegido e viabilizado pelos generosos ganhos trazidos pela recente “década dourada”, nenhum outro governo do Uruguai teve a sua disposição tanta riqueza como esse; acrescente-se prontamente: nenhum governo constitucional foi tão ousado em sua pretensão de sacudir aquela prestigiosa singularidade nacional. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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Danubio Torres Fierro, jornalista e escritor uruguaio, é autor, entre outros, de Estratégias Sagradas (Seix Barral) e Palabras en Espiral (SEP)

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