2009, o ano da notícia que não andou: qual a sua preferida?

Não vale escolher a nova rodada do mensalão ou a volta da epidemia de crack. Essas são hors-concours - devem figurar ano que vem entre as melhores do gênero na década -, mas servem bem para ilustrar o conceito de "notícia enguiçada" que aqui se pretende destacar. À sombra das grandes tragédias e conquistas que a imprensa recapitula a cada 12 meses, pipocam fatos que terminam o ano da mesma maneira que começaram, sem perder destaque na mídia. O caso Cesare Battisti é especialmente emblemático no conjunto da obra de notícias enguiçadas de 2009.

Tutty Vasques, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h08

Desde o dia 13 de janeiro, quando o ministro Tarso Genro concedeu status de refugiado político ao ex-guerrilheiro italiano, o Brasil acompanha essa novela diplomática e judicial, embora nada de muito importante tenha sido deliberado a respeito. O cara continua preso, a Itália ainda pede sua extradição, o Ministério da Justiça se mantém contrário à ideia, o STF lavou as mãos e o Lula, convenhamos, anda meio sem tempo para tratar do assunto. A situação de Battisti só encontra paralelo no noticiário de 2009 quando comparada à cobertura da estada de Manuel Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. A história do presidente deposto de Honduras atolou de tal forma no noticiário que ninguém mais sabe como fazê-la avançar ou recuar para ganhar um desfecho e sair de cartaz. Se Zelaya, ao menos, aprendesse uma música nova no violão...

A repetição é hoje uma praga do jornalismo moderno na vida do leitor. Quantas vezes em 2009 Fátima Bernardes e William Bonner passaram a sensação de já ter apresentado antes determinada notícia na bancada do Jornal Nacional? Quantas vezes você soube pelo noticiário que Madonna levou seu namorado Jesus a um centro de cabala em Nova York? Quantas vezes Susan Boyle foi vista na TV ou na internet cantando I Dreamed a Dream? Quantas vezes saiu alguma coisa na imprensa sobre a barriga do Ronaldo, o mau humor do Dunga, as pirações de Amy Winehouse, o programa de saúde de Barack Obama, a chapa puro-sangue do PSDB, as chances do impeachment de Yeda Crusius, a compra dos caças para a FAB ou o roubo das motocicletas de Soninha Francine em São Paulo?

Quantas vezes os jornais o acordaram de manhã para tratar dos mesmos assuntos de sempre: o difusor traseiro na Fórmula 1, os filhos de Fernando Lugo no Paraguai, a gripe suína no mundo, o fechamento de Guantánamo, o sumiço de Adriano na favela, o legado da Olimpíada de 2016, a luta judicial do pai americano pela guarda do filho no Brasil, a extensão no prazo de redução do IPI, o casamento da Gisele Bündchen, o Ano da França no Brasil, a causa mortis de Michael Jackson, o inglês do Joel Santana, a mudança de posição de Aloizio Mercadante, o sumiço de Belchior, a separação da Ana Maria Braga... Quantas vezes um tiroteio no Rio, uma enchente em São Paulo, um vendaval no Sul ou uma denúncia de ato secreto no Senado azedou seu café da manhã em 2009?

Pedro Simon e Cristovam Buarque passaram o ano legislativo inteirinho fazendo o mesmo discurso: "Renuncie já!" - pediram a Sarney, a Arruda, ao deputado do Castelo, a Agaciel Maia e, salvo engano, ao presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo. Ninguém renunciou. De todos os figurões repreendidos publicamente em 2009, acho que só o Pero Vaz de Caminha - acusado pelo Conselho de Ética do Senado e pelo presidente do STF de pedir emprego para um parente ao rei de Portugal - não continua no cargo.

Outro crime antigo que voltou ao noticiário em 2009, o estupro de uma menina de 13 anos nos anos 70, mantém o cineasta Roman Polanski em prisão domiciliar na Suíça, numa época em que o mundo já não tolera mais escândalo sexual nem com prostitutas. No gênero, aliás, foram tantas as más notícias protagonizadas por Silvio Berlusconi que a Itália até respirou aliviada quando seu premiê apareceu nas primeiras páginas com a cara quebrada por um gráfico desmiolado, à saída de comício em Milão. Só o fato de o agressor não ser uma famosa prostituta de Roma, os italianos adoraram!

Não deu tempo para consultar o retrospecto de anos anteriores, mas 2009 talvez tenha estabelecido novo recorde mundial de notícias enguiçadas nesta década. Taí a Conferência da ONU sobre o Clima que não me deixa mentir. Sabe Deus quantas florestas vieram abaixo para produzir, ao longo do ano, a quantidade de páginas que os jornais destinaram ao fiasco de Copenhague. Nunca antes na história deste planeta se escreveu tanto para tão pouco. O que lá foi decidido cabe numa folha de papel almaço. É cedo ainda para arriscar prognósticos, mas a COP-15 entra 2010 como séria candidata a Notícia Enguiçada do Século.

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