Konstantin Grishin/Reuters
Konstantin Grishin/Reuters

A 2ª Guerra Fria

Na Ucrânia, EUA tentam impedir que ressurja uma potência liderada pela Rússia, diz analista

Wilson Tosta/Rio, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2014 | 02h08

Uma nova guerra fria, opondo os Estados Unidos à Rússia, emerge em Kiev das manifestações de ativistas que há semanas exigem, nas ruas, a adesão da Ucrânia à União Europeia e repudiam a aproximação com os russos, analisa o historiador e cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira. Trata-se, adverte o pensador, de um amplo jogo geopolítico, no qual os EUA tentam impedir o surgimento de outra força que possa confrontá-los estrategicamente, enquanto Moscou, herdeira do potencial militar e nuclear da finada URSS, constrói um tratado econômico que reagruparia antigas repúblicas soviéticas em uma União Eurasiana que lhe adensaria a dimensão geopolítica. É nesse contexto que deve ser vista a ação de políticos americanos como os senadores John McCain e Christopher Murphy em apoio às demonstrações de massa, afirma o pesquisador.

O script da crise não é isolado. As mesmas forças que apostam nos lados que se enfrentam em Kiev mexem peças na Síria, pelos mesmos motivos geoestratégicos. Nos dois casos, está em disputa o domínio de uma ampla região entre Ocidente e Oriente, prioridade para os americanos e seus aliados. "A Ucrânia está na órbita de gravitação da Rússia e sua integração com o Ocidente, aderindo à Otan, poderia modificar o equilíbrio geopolítico de toda aquela região", afirma Moniz Bandeira, que analisa os movimentos do novo confronto político global em A Segunda Guerra Fria - Geopolítica e Dimensão Estratégica dos Estados Unidos (Civilização Brasileira). Nas ruas, os protestos continuam, enquanto o Parlamento ucraniano, na quinta-feira, aprovava lei que pune com multa e prisão acampamentos e máscaras em atos públicos. Pelo ambiente do Legislativo, onde governistas e oposicionistas se enfrentaram fisicamente ao votar o Orçamento, a crise está longe de acabar.

Raízes da crise

"O presidente Vladimir Putin negocia um Tratado da União Econômica Eurasiana entre a Rússia e as antigas repúblicas que antes integraram a extinta União Soviética. A essa iniciativa os EUA e seus aliados da UE se opõem. A Rússia voltaria a conquistar dimensão estratégica e geopolítica na mesma proporção que teve a URSS. E a questão não é ideológica. Washington nunca deixou de perceber a Rússia como seu principal adversário, mesmo após a dissolução da URSS (1991). Através da entrada da Ucrânia na União Europeia, o que se pretende é possibilitar que as forças da Otan se estabeleçam na fronteira da Rússia.

Ilusões americanas

"Os EUA se iludiram com o 'fim da história', quando a URSS se desintegrou. Contudo, a URSS não fora militarmente derrotada. O que implodiu foi um regime socialista estatal, autárquico, dentro de uma economia mundial de mercado. A Rússia, entretanto, herdou, como sucessora jurídica, todo seu potencial militar, cerca de 1.800 ogivas nucleares estratégicas operacionais, reservas de 2.700, para 1.950 operacionais e 2.500 de reserva dos EUA. O poderio militar das duas potências era equivalente. E após a dura crise econômica e política que atravessou nos anos 1990, a Rússia recuperou-se economicamente sob o governo de Vladimir Putin. Outra guerra fria, assim, começou. E na Ucrânia, um dos teatros onde as ONGs ocidentais impulsionaram a cold revolutionary war em 2004-2005, a guerra fria reacendeu-se, em 2013.

Problemas estratégicos

"A Ucrânia está na órbita de gravitação da Rússia e sua integração com o Ocidente, aderindo à Otan, poderia modificar o equilíbrio geopolítico de toda aquela região, onde se localizam os Estreitos do Bósforo e Dardanelos, que comunicam o Mar Negro e importantes zonas com o Mediterrâneo, e aí está um dos fatores da guerra na Síria. Assim, diante da ameaça de golpe na Ucrânia, mascarada pelas incessantes demonstrações de massa, inclusive com a participação aberta de dois senadores americanos, John McCain e Christopher Murphy, o presidente Vladimir Putin tratou de socorrer a Ucrânia e evitar sua aproximação da União Europeia. Putin tornou virtualmente inevitável a incorporação da Ucrânia à União Eurasiana, que planeja concretizar, reunindo e reorganizando, sob o guarda-chuva da Rússia, as repúblicas ex-soviéticas.

Crise na economia

"A Ucrânia está em uma desastrosa situação econômica e financeira, tanto que Putin lhe concedeu o bailout de US$ 15 bilhões. Mas o país necessita urgentemente de mais dinheiro, cerca de US$ 17 bilhões, para cobrir seus negócios e operações e evitar o default em 2014. E a União Europeia, ou seja, a Alemanha, não está em condições de arcar com mais problemas financeiros de outros países. Entretanto, o presidente ucraniano Viktor Yanukovich visitou Pequim e lá se reuniu com o presidente Xi Jinping, que se mostrou disposto a resgatar a Ucrânia. A formação da União Eurasiana é também fundamental para a China.

O grande jogo

"Não se trata de bom ou mau negócio. Trata-se de um jogo geopolítico, no qual a Alemanha arrisca-se a sofrer graves prejuízos econômicos e políticos. A Ucrânia depende em mais de 60% do gás da Rússia, da qual também provém mais da metade da energia consumida pelos 27 países da União Europeia. E a via é a Ucrânia."

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