A agonia 'delas' com sister Hillary

Mulheres vêem na candidata uma pessoa que minimiza ou maximiza sua condição feminina, conforme o momento

Caio Blinder, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2008 | 11h23

Antes do início do frenesi das primárias americanas, o Wall Street Journal publicou uma maldosa reportagem de capa mostrando que mulheres com o perfil de Hillary Clinton desconfiam da primeira mulher com chances de chegar à presidência dos Estados Unidos. Sobem renda, educação e sucesso da mulher e cai o appeal de Hillary, que é mais intenso na massa feminina. Thirty Ways of Looking at Hillary (Harper), o livro editado por Susan Morrison, da revista The New Yorker, reúne textos de mulheres espertas, sofisticadas, ambiciosas e competentes sobre aquela que chegou lá em cima, quase lá em cima. Todas têm um pouco de Hillary e compartilham a obsessão pelo objeto de estudo. Hillary exerce um appeal sobre essas mulheres, mas podemos eleger ambivalência como a melhor expressão para definir o mosaico. E este resenhador de olhar masculino se sente também ambivalente para julgar as 30 formas com as quais as sisters olham Hillary Rodham Clinton. Como homem, eu até temo em observar que na ferocidade feminina de opiniões sobre Hillary existem sentimentos como exasperação e histerismo. As escritoras têm algo de Hillary (como esposas, mães e profissionais), mas também profundas diferenças. Nenhuma delas foi casada com Bill Clinton, foi primeira-dama, sofreu as indignações do escândalo Monica Lewinsky e fez o cálculo estratégico de segurar o casamento para concorrer à presidência.Sentimentos como exasperação existem, pois, como reconhece o ensaio de Lara Vapnyear, "eu preferiria que uma mulher conseguisse a proeminência por si própria, mas vamos ser realistas. Nós ainda não chegamos lá e nem estamos firmes no caminho para para chegar lá". Mas há a diferente exasperação de Elizabeth Kolbert diante de tanta cobrança em cima de Hillary, uma política tão política como os políticos. Kolbert cita Charlotte Whitten, a primeira prefeita de Ottawa, que afirmou: "Não importa o que as mulheres fazem, mas precisa ser duas vezes melhor do que os homens para ser a metade de bom". Jane Kramer se diz perplexa por "sujeitar Hillary a um tipo de escrutínio que eu nunca aplicaria aos homens".Nessas reflexões fica patente não apenas a ambivalência das ensaístas, mas a da própria Hillary. Existe o orgulho pelo caminho percorrido, a constatação dos compromissos necessários nessa jornada e a lasca de vitimização. Há reflexões menos ambivalentes. Katie Roiphe é taxativa: "Eu ainda não conheço uma mulher que goste de Hillary Clinton". Seu ensaio tem o título venenoso Elect Sister Frigidaire. Mas de todo o batalhão de ensaístas, apenas Lionel Shiver bate de frente e diz ser contra a candidatura da sister, pois ela só conseguiria ser eleita nas costas do maridão.No geral, o corpo do livro é sobre a agonia "delas" em relação a Hillary, uma mulher que, de acordo com as circunstâncias, minimiza ou maximiza sua condição feminina, inclusive na roupa e no cabelo. Existe a arapuca delineada por Deborah Tannnen. Há a expectativa de que Hillary seja feminina e conciliatória, mas tambem poderosa e agressiva. A atitude de Katha Pollitt é interessante. Ela não morre de amores por Hillary, mas fica furiosa com os insultos disparados contra a candidata, num sentimento que antecipou a insurreição feminina que conferiu a primeira vitória à ex-primeira-dama na primária de New Hampshire e salvou sua campanha. Hillary não une as mulheres, mas elas cerram fileiras quando a sister é atacada. Judith Thurman se rende e arremata que "Hillary confunde muitas mulheres" com suas escolhas estratégicas. Na opinião deste homem, se Hillary encarna certas vitórias feministas, essas mulheres intelectualizadas estão frustradas com o caminho aberto com tanta racionalização, desculpas, pragmatismo e compromissos.Já que estamos falando tanto em ambivalência, Thirty Ways of Looking at Hillary é um livro ao mesmo tempo diverso e homogêneo. Tem excesso de sisters que escrevem no New York Times e nas revistas The New Yorker e Vanity Fair. Parece não haver nenhuma republicana assumida. Mas se precisamos votar com o que está aí, eu voto no ensaio da escritora Lorrie Moore, que mantém a cabeça fria em meio ao tom de exasperação. Ela escreve que "é um pouco tarde para ser sentimental sobre uma mulher concorrendo à presidência. O momento cultural para modelos femininos exemplares já pode ter passado". Mas a ambivalência é irresistível. Lorrie Moore confessa que "Hillary pode não ser a pessoa mais vibrante em quem votar, mas mesmo assim será uma vibração ver sua vitória". Calma, sisters, ainda há homens no meio do caminho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.