A água está no limite

Já começou a seca. Dá para enfrentar, mas precisamos deixar de ser donos do mundo e pensar como parceiros

Brian Fagan*, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2008 | 22h13

Um dos aspectos negativos do aquecimento global é a seca. Só no nordeste da África, cerca de 11 milhões de pessoas corriam um sério risco de morrer de inanição, em 2006, por causa da estiagem. Segundo estimativas do Instituto Internacional de Agricultura Tropical, da Nigéria, em 2010 um número aproximado de 300 milhões de pessoas que vivem na África subsaariana - quase um terço da população - terá problemas de desnutrição devido à intensificação da seca. Com o contínuo aquecimento do globo, e mais secas à vista, precisamos aprender a conviver melhor com nosso mundo natural e seus ciclos.No oeste dos Estados Unidos, são os anéis das árvores que nos dizem que os ciclos de umidade e seca, calor e frio, são a realidade histórica.Na Califórnia, a fonte são os cepos de árvores nos lagos da região de Sierra. Antes, o Lago Owens se estendia por mais de 185 km² na desembocadura do Rio Owens. As águas que escoam da montanha e alimentam o lago variam dramaticamente em ciclos de anos de seca e de umidade. Nos períodos mais secos, árvores crescem no solo ainda úmido do lago em recuo. Quando as chuvas chegam, as árvores submergem e deixam os cepos, que vão servir como um relato histórico da aridez. Um período de seca memorável teve início antes de 910 d.C. e terminou em 1100; na seqüência, tivemos um século mais úmido, quando as precipitações eram maiores do que nos tempos modernos. Um segundo período de seca começou antes de 1210 e terminou 140 anos depois.Quanto à região oeste no geral, uma grade de mais de 600 seqüências de anéis de árvores de toda a região, compiladas por uma equipe do Laboratório Tree Ring Lamont-Doherty, na Universidade de Colúmbia, pôs em perspectiva as secas verificadas hoje. Os séculos entre os anos 900 e 1253 presenciaram longos períodos de seca. Depois de 1300 ocorreu uma mudança abrupta das condições do tempo, que durou 600 anos, dando lugar em seguida à aridez atual. Algumas pessoas referem-se a isso como um "período de megasseca", há mil anos, quando as condições de frio provocadas por La Niña persistiram por décadas sobre o leste do Pacífico e as correntes de ar quente permaneceram bem ao norte do que hoje é a Califórnia.Nenhuma das secas que observamos hoje se aproxima, em intensidade e duração, daquelas do período medieval. A estiagem que se abateu por seis anos sobre a Califórnia em 1987 resultou numa redução do escoamento de água de Sierra Nevada para apenas 65% do habitual. Estima-se que durante as grandes secas no período medieval o fluxo de água para o Lago Owens tenha sido 45% a 50% menor do que o normal.Por que essas secas medievais persistiram por tanto tempo? A reunião gradativa de evidências climáticas de todo o mundo vem mostrando que nas épocas de grandes secas ocorreu um aquecimento significativo em nível global, similar às condições atuais. Durante o século 20, as temperaturas cada vez mais altas no Hemisfério Norte e o aquecimento incomum dos Oceanos Pacífico e Índico contribuíram para uma situação de seca nas latitudes medianas.Como as pessoas sobreviveram? Há mil anos a população da Califórnia era minúscula, formada por caçadores, nômades e pescadores, que se adaptaram facilmente às longas secas. Cavavam água dos raros suprimentos permanentes, mudavam de dieta e se deslocavam para terrenos mais altos. Bolotas de carvalho eram uma fonte de alimento, e também a pesca marítima, em lugares como o Canal de Santa Bárbara. A sobrevivência em algumas das regiões mais difíceis da Terra dependia de cooperação, informações sobre suprimentos de água, mobilidade, flexibilidade, conhecimento do meio ambiente e aproveitamento de todo tipo de alimento disponível. No entanto, a seca prolongada deve ter provocado a morte de milhares de pessoas nos tempos medievais, do oeste americano até o Sahel saariano.Embora as secas de hoje sejam muito menos severas em comparação aos períodos de aridez de mil anos atrás, o futuro é realmente assustador. Sofisticadas projeções em computador, produzidas pelo Center Hadley de Pesquisa e Previsão Climática, da Grã-Bretanha, indicam que em 2100 a superfície terrestre exposta a uma seca extrema aumentará de 3% para 18%; 40% do mundo sofrerá uma severa falta de água, em comparação com os 18% atuais; uma seca moderada atingirá 50% do mundo. Os países ocidentais conviverão, no mínimo, com uma grave seca. Em 2025, cerca de 2,8 bilhões de pessoas estarão vivendo em regiões áridas como a Califórnia. Hoje, recolhemos água em escala industrial: da chuva, dos rios, lagos e lençóis freáticos - que vêm encolhendo rapidamente. Na Califórnia, muitos de nós vivem do que são na verdade suprimentos de água roubados, trazidos por meio de canais do Lago Owens ou Rio Colorado, ou drenados de aqüíferos.Mas temos nos adaptado às realidades instáveis da natureza. Nosso maior ativo não é necessariamente nossa tecnologia, mas o aproveitamento das oportunidades e a capacidade infinita de adaptação às circunstâncias. Precisamos aprender com a história das grandes secas e começar a pensar mais como parceiros do que como potenciais senhores deste mundo natural em mutação. *Brian Fagan, professor emérito de antropologia na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, é autor de The Great Warming: Climate Change and the Rise and Fall of Civilizations (O Grande Aquecimento: Mudanças Climáticas e Ascensão e Queda das Civilizações)

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